domingo, 27 de setembro de 2009

Raça X Nacionalidade (6)

"Ah, mas eles nos chamam de macaquitos".

O conceito supramencionado é o principal motivo apresentado por brasileiros para justificar sua xenofobia escancarada pelos argentinos. No entanto, a isso somam-se as ideias de que os vizinhos é que são racistas (representada pela frase) e arrogantes ("se acham os europeus da América do Sul"), sem contar que há um conceito geral de que "argentino é trapaceiro" - nascido no futebol e transposto ao mundo real - e também o "brasileiros são muito maltratados" quando vão pra lá.

Mas é interessante analisar a frase citada no início, pois ela acabou por se tornar um paradigma ao longo do tempo. Em outras palavras, tais conceitos dificilmente serão mudados, por mais que se mostre visões diferentes, e que essas visões partam de pessoas isentas no que se refere a qualquer "interesse" ou "parcialidade".

Já citamos em nosso blog o caso do jornalista, brasileiro, Ronaldo Helal, que fala sobre as diferenças nas provocações Brasil-Argentina (muito maiores por parte dos brasileiros) especificamente no campo esportivo; também falamos aqui anteriormente sobre o jornalista, brasileiro, Eduardo Szklarz, que segue a mesma linha de Helal, mas a abrange para o cotidiano, advertindo: "enquanto esculhambamos os argentinos, eles têm enorme carinho por nós".

São visões que demonstram que, ainda que não se possa dizer que a totalidade dos argentinos não tenha preconceito para com brasileiros, menos ainda se deve afirmar que a maioria deles o possui.

Sobre o termo "macaquitos"


Em entrevista concedida a Maurício Stycer, no iG, o jornalista Newton César de Oliveira (brasileiro, autor do livro "Brasil X Argentina: 1908-2008") defende que o termo é "muito mais chacota do que racismo".

Segundo Oliveira, "o termo, preconceituoso, vem da época da Guerra do Paraguai (1865/1870), quando os soldados argentinos lutaram lado a lado com escravos brasileiros". Temos, portanto, uma explicação lógica - ainda que nada louvável.

A primeira referência ao termo data de 1920, quando praticamente não havia nenhuma espécie de "fiscalização" editorial, e as provocações eram equivalentes ao "Chupa Argentina" ou "La envidia brasileña", de hoje.

É importante lembrar, também, que depois desse episódio - e outros tantos, não apenas na Argentina -, o presidente brasileiro Epitácio Pessoa destinou grande quantia de dinheiro à CBD para que só fossem convocados ao selecionado nacional atletas "brancos", e a razão era "prestígio pátrio" (!!!).

O autor segue afirmando que "isso se transpôs ao futebol", espelho de toda a relação entre os dois países, e diz que é "menos pelo racismo em si e mais pela chacota que pegou – como se sabe, tem apelidos que “pegam” e outros que não".

charge de jornal argentino publicada em 1920 (!).

Seguindo a mesma linha de pensamento, temos o artigo (editorial) da revista "Entre Livros", brasileira, pertencente ao grupo Duetto, brasileiro, numa resenha sobre o livro "Argentinos: Mitos, Milongas e Manias", das jornalistas (brasileiras) Marcia Carmo e Mônica Yanakiew.

O título, que espanta à primeira vista, diz: "Os argentinos são uns macacos".

Mas logo de início é explicado: "esses argentinos são uns macacos! Diria mais: são muito macacos! E as argentinas também são macacas! (...) Macaco, além do animal, quer dizer lindo. Em espanhol, “mono” e “mona"".

Como vimos por aqui, na entrevista do jogador (brasileiro e negro) Baiano, argentinos se referem (uns) aos outros como "negro" em 95% das vezes de modo positivo. Ainda se permitem a chamar a um afro-descendente de "bombom", segundo o mesmo Baiano afirma ser lá conhecido -- a cantora Mercedes Sosa, branca, é chamada de "La Negra".

Ainda no artigo da Entre Livros, lemos o seguinte: "Já foi o tempo em que os argentinos, quando queriam ofender um brasileiro, chamavam-no de “macaquito”. Hoje a expressão anda em desuso e, se às vezes escapa de uma boca preconceituosa, depõe contra o agressor, não contra o agredido".

Em outras palavras: se há algum "macaquito" pronunciado nos dias de hoje, ele não tem mais nenhuma relação com a cor da pele.

PS: o brasileiro Túlio Pires Bragança, residente em Buenos Aires, afirma "nunca ter ouvido a expressão macaquitos"
PS²: o argentino Aquiles Caratino, que possui família no Brasil, afirma "nunca ter ouvido a expressão macaquitos".

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Isso é Jornalismo! (6)


Você já ouviu falar de Otávio Júnior?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Muito Além do Futebol... (12)

Não é utopia almejar que um dia os seguidores de uma causa limitem-se apenas a ela, e não preocupem-se com a que caminha ao lado, uma vez que o bom senso sucumbiu há algum tempo. Atualmente, tão (ou mais) importante quanto a vontade de limitar-se a apoiar apenas a camisa de interesse próprio é “secar” o arqui–rival da equipe de preferência. Do ponto de vista da rivalidade, isso sempre existiu em todos os lugares, mas o que vamos abordar vai muito além...

Entre clubes, a torcida contra o adversário indireto fica patente. Poderia ser normal, se as seleções de futebol não assumissem as cores da bandeira nacional, se os hinos nacionais dos países não fossem executados antes das partidas, se as seleções não levassem os nomes das respectivas Pátrias... Evidentemente, clubes têm caráter menos abrangentes que seleções nacionais e, a partir disso, têm menos compromissos com posturas em termos de rivalidade, afinal não cabe a eles nem metade do papel principal que as seleções assumem.

Seleções mexem com os brios das nações. A postura de um torcedor de clube não exige tantos cuidados como a de um torcedor de uma seleção (de um país), haja vista de que entra o patriotismo. É aceitável o desejo pela vitória, mas é inaceitável que esse objetivo atinja o racismo e enterre o espírito de luta e de competição. A própria vitória aparece em segundo plano ou divide espaço com a xenofobia em nome da rivalidade, prova definitiva de que os interesses ultrapassam o patriotismo, a nacionalidade ou o triunfo esportivo.

Dessa forma tem se comportado a torcida brasileira em relação a seleção argentina: em termos futebolísticos, o fracasso do esquadrão albiceleste é quase tão satisfatório como uma vitória do time canarinho. Se não fosse tão preocupante e ridículo, seria cômico. A última tacada em prol da xenofobia, e da alegria em ver os hermanos numa fase (ruim?) diferente do costume nas eliminatórias para a copa (pois a Argentina é que geralmente se classifica com antecipação, e o Brasil nas últimas rodadas), é uma campanha lançada na internet.

Uma classificação do país para a copa deveria ser motivo de orgulho, mas para (a maioria d)os brasileiros isso não é suficiente, o “alvo de sempre” tem que ser atingido, e muitos estão se empenhando duramente para isso.

A campanha "Si Se Puede! – O Sonho Continua Vivo!", que faz torcida para ver a Argentina fora da copa 2010, está fazendo grande sucesso: ela trata escancaradamente de torcer para que a seleção argentina não se classifique para o mundial da África do Sul. De maneira irresponsável, mente ter apoio de Chile, Uruguai, Colômbia e Espanha, sendo que nenhum desses países se prestou ao papel e, mais do que isso, citam em suas matérias jornalísticas o fato de que "Os brasileiros fazem campanha para ter a Argentina fora da Copa".

"O sonho já se provou possível. Agora é fechar a tampa do caixão", dizem eles. Vale até torcer para o eterno carrasco (e rival) de 1950, Uruguai, só pelo prazer do fracasso vizinho. Vale reforçar a xenofobia contra os portenhos, fazendo uma lista de pretensos “10 motivos para ver os hermanos fora do mundial”.

A campanha no referido blog tenta amenizar a situação deixando uma note de rodapé: *Importante: Devemos ressaltar que esta campanha é fruto do bom humor e da disputa saudável dentro das quatro linhas. O blog 'OsGeraldinos' respeita o povo argentino, assim como repudia toda e qualquer forma de preconceito. Vamos à luta em campo!

Ah, sim...

1 – Mostrar ao Maradona que não só os brasileiros são melhores, como os uruguaios, equatorianos, chilenos e paraguaios também.
2 - Evitar que os hermanos passem mais uma vergonha ao voltarem mais cedo de uma Copa pela 6ª vez seguida.
3 - Passar 4 anos seguidos zombando os hermanos, deixando bem claro que 5 é maior e não igual a 2.
4 - Dar verdadeiro sentido às dores do tango.
5 - Entender que nem sempre “la mano de dios” funciona.
6 - Mostrar que até o Dunga é melhor que o Maradona.
7 - Depois de perder por 6 a 1 para Bolívia já devia ter sido eliminada sem mais motivos.
8 - Mostrar que a Argentina é, definitivamente, o país do hoquéi na grama feminino.
9 – Aumentar o turismo em Florianópolis e Búzios nos meses de junho e julho de 2010.
10 – São argentinos, precisa de outra razão?
//
Onde estão, pois, futebol e rivalidade "dentro das quatro linhas"?

domingo, 20 de setembro de 2009

Raça X Nacionalidade (5)


É comum entre brasileiros, acusar o povo argentino de racismo, pela simples vontade de ter um “bode expiatório” para tentar esconder o próprio espelho e reafirmar uma idéia maldosa criada há muito tempo.

Intrigado com essas incessantes acusações, o blogueiro deu-se o trabalho de analisar qual o ponto culminante dessa barbaridade; percebe-se que foi o “caso Grafite”. A partir dele, relembrei um fato, convenientemente pouquíssimo comentado no Brasil, que não só desmistifica esse “racismo absoluto” dos argentinos conosco, como reitera a idéia de que os brasileiros simplesmente acusam os hermanos sem fundamento algum, reforçando o ódio e o preconceito ao país celeste, pisoteando sanidade, a lógica, o compromisso e o bom senso: O “caso Baiano”.

Lamentavelmente, mais uma vez foram usados de ponte os meios de comunicação e o esporte das multidões. O lateral-direito Dermival Almeida Lima, conhecido como Baiano, atuou por vários clubes do futebol brasileiro e do exterior: Santos, Matonense, Vitória, Atlético-MG, Palmeiras, Las Palmas (ESP) e Boca Juniors da Argentina. Baiano atuou pelo clube argentino em 2005, posteriormente assinou contrato com o Palmeiras.

No clássico entre Corinthians e Palmeiras no Morumbi 11/07/05, o lateral agrediu o craque argentino Tevez com uma bolada no rosto, após ser expulso de campo. Após a partida, o jogador brasileiro ligou o ventilador, declarando que os torcedores brasileiros “esquecem facilmente dos acontecimentos (quais?) e idolatram demasiadamente os craques argentinos", e ainda afirmou que “lá” é diferente.

Declarou ele em entrevista à Rádio Jovem Pan após o jogo: “Depois que aconteceu o episódio do Grafite, você vai jogar em outro país e muitas coisas acontecem, aí o cara vem aqui a gente trata como herói, esquecemos de muitas coisas, mas vai jogar lá na Argentina o negócio é diferente, não pelo povo argentino, mas pelos jogadores que, depois do caso Grafite, começaram a me tratar diferente durante o jogo. Começaram a me dar porrada toda hora, me xingando e falando muita coisa. Eu era o representante do Grafite lá.

Um pouco mais tarde, no programa "Mesa Redonda" da TV Gazeta, Baiano acusou o goleiro Abbondanzieri e o atacante Guillermo Schelotto, ex-copanheiros de Boca Juniors, como responsáveis pela sua saída do clube argentino, e afirmou que depois do caso “Grafite” o clima no Boca ficou ruim. Declarou também que foi ameaçado pelos principais jogadores do Clube portenho.

Naturalmente essas declarações foram para instigar ainda mais a rivalidade entre Brasil e Argentina, para agradar torcedores palmeirenses mordidos pela derrota, e evidentemente atacar os argentinos que atuavam no Corinthians.

Os depoimentos caíram como uma bomba nos veículos de comunicação do Brasil, que enfatizaram o preconceito argentino com os sempre injustiçados brasileiros. E Baiano foi dado como “coitado”, e que o a atitude contra Tevez era justificável. O ex-dirigente do Palmeiras Salvador Hugo Palaia acusou na época: [sic] "Ele sofreu muito na Argentina, me contou tudo. O Baiano foi vítima de racismo no Boca Juniors".



Quando se apresentou no Santos F. C. em agosto de 2007, Baiano deu novos ares ao caso, culpando os argentinos por terem impedido “o melhor momento de sua carreira”, que um companheiro escarrou nele, e que “perdeu o prazer de jogar futebol”. Surrou mais um bocado o discurso de que passou por dificuldades no Boca quando Grafite acusou Desábato por racismo.

Porém, como no recente caso do desprezo à conquista de Del Potro, a imprensa argentina se manifestou: o diário "Olé" disse que o atleta nunca se referiu a atos de racismo enquanto morava em Buenos Aires, e que Baiano “abaixava a cabeça”. "La Nación" e "Clarín" também falaram sobre a confusão no Morumbi. Os argentinos acreditam que Baiano fez as denúncias por não saber como justificar a agressão a Tevez.

Felizmente temos o recurso da memória, que é irrefutável. A santidade brasileira cai por terra em casos como quando Tinga, jogando no Internacional, foi hostilizado pela torcida do Juventude em 2005, ou o caso do volante Jeovânio, do Grêmio, contra Antonio Carlos, do Juventude, em 2006. Ou na entrevista à Agência Estado, publicada pelo Estadão, do lateral Baiano (sim! Ele mesmo), uma semana depois do “caso Grafite” (!!), que morava hà 4 meses na Argentina, garantindo que não há racismo por lá, pelo contrário, que foi bem recebido e que sentia-se satisfeito.

Acompanhe a entrevista abaixo:

"Quero ficar até quando o Boca me quiser", revelou o lateral brasileiro. Seu prestígio é tanto que o próprio Diego Maradona pediu sua camisa.

Agencia Estado – Ha racismo na Argentina?

Baiano - Nunca percebi nada. Sou muito bem tratado aqui. Eles me chamam de Bombom, um apelido que um jornalista me deu e pegou. Estou muito satisfeito aqui.

AE - Como foi a repercussão do caso da prisão de Desábato em São Paulo, acusado de racismo?

Baiano - Só soube pelos jornalistas, principalmente do Brasil. Nenhum jornalista argentino falou do caso comigo. Informalmente, ficaram assustados com o rigor do Brasil com a questão do racismo.

AE - Você conhece o Desábato?

Baiano - Não conheço pessoalmente. Ainda não enfrentamos o Quilmes. Só vi na televisao. É um bom jogador, um zagueiro típico argentino que entra com vigor nas jogadas.

AE - O Desábato disse que é normal chamar os colegas de negro na Argentina. É verdade?

Baiano – É. Aqui no Boca há uns oito caras que são chamados de negro, inclusive o médico do clube que é o doutor Negro. Um jogador como o (Sebá) Dominguez, que foi para o Corinthians, é chamado de Negro, mas não é nada racista. É de um jeito carinhoso. O Tevez era negro aqui no Boca.

AE – Voce teme que o episódio do Desábato piore o clima para os brasileiros que jogam na Argentina, como no seu caso?

Baiano - Acho que isso não tem nada a ver. Sou muito bem tratado no Boca. Tive uma identificação muito grande com a torcida. Minha família se adaptou perfeitamente a Buenos Aires. Eu quero jogar bem para continuar no Boca até o fim de carreira, se eles quiserem.

AE – Já deu para sentir a força do Boca Juniors?

Baiano - Na pré-temporada, senti que o Boca é um time especial. Sempre atraímos muita gente e jogamos com casa cheia. E atuar no La Bombonera é uma sensação maravilhosa. Não dá pra descrever.

nota do blog: Um viva para a contradição! Um viva para mais um tabu derrubado.

sábado, 19 de setembro de 2009

Raça X Nacionalidade (4)


"Madame Mim" (nome artístico de Mariana Eva) é uma cantora e apresentadora do canal MTV. Nasceu em Buenos Aires e logo pequena mudou-se para o Brasil. No video a seguir, ela fala um pouco sobre a relação brasileiros X argentinos...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Muito Além do Futebol... (11)


Dia desses foi aniversário do blogueiro, e ele ganhou um presente de um amigo: o livro "Las Mejores Piadas de Argentinos" (imagem ao lado). "O livro é brasileiro e fala sobre argentinos, mas o presente é de grego", disse ao remetente em tom de brincadeira.

As piadas contidas no livro não pendem para o baixo calão. Na verdade, são piadas tão fúteis que chegam a ser "infantis", como se diz. Todas giram em torno do mesmo tema: os argentinos são prepotentes, arrogantes, "se acham", etc. Outras, porém, têm um tom um pouco mais agressivo, afirmando que "argentino tem de ser exterminado" ou coisas do tipo.

Ao comentar sobre o presente com colegas, muitos não gostaram, justamente por saber que o blogueiro pertence àquela gama dos 0,01% de brasileiros que gostam da Argentina e seu povo.

Mas, diante da indagação "será que lá tem livro sobre brasileiros?...", muitos responderam que sim, não porque corroborem com a imagem criada sobre os argentinos, mas por simplesmente considerar essa rivalidade comum.

O convite feito pelo autor do livro, Paulo Tadeu, na contracapa do material diz o seguinte: "Eles têm fama de se acharem o máximo. Eles são os argentinos. Para homenagear os hermanos, este livro veio em boa hora. Ria deles, antes que eles riam da gente". Provavelmente, Tadeu quis apimentar a rivalidade, dando a ideia de que "lá", "eles" também têm um livro ou algo semelhante.

No entanto, dando uma pesquisada na internet, o Hermanos&Brazucas descobriu que não, não existem livros argentinos que compilem piadas sobre brasileiros. Segundo a matéria da Gazeta Digital, "ainda não se tem notícia de um livro argentino com piadas de brasileiros, então, no placar dos livros a partida está 1 x 0 para o Brasil".

Eu diria que está 1 x 0 para o Brasil no placar do desrespeito.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Muito Além do Futebol... (10)


É só você assistir um pouco de TV ou ler algum jornal que, se houver alguma referência a argentinos, esta será pejorativa. De alguma maneira será pejorativa. É algo tão claro e tão comum, que muitas vezes as pessoas nem percebem (paradoxo?).

Um exemplo excelente (ou péssimo?) aconteceu na última segunda-feira, 14, quando o tenista argentino Juan Martín Del Potro sagrou-se campeão do Aberto dos Estados Unidos, um dos 4 campeonatos mais importantes do tênis mundial.

Na verdade, antes mesmo da partida, começou o festival de sempre, que é um misto de piadas e desprezo.

No programa Redação SporTv, canal cabo da Rede Globo, comentava-se sobre a final. A história começou quando o apresentador do programa falou que os argentinos "querem ver se pelo menos alguma coisa eles levam, porque no futebol...".

Alguém acrescentou: "é, no futebol tá essa draga (sic), no basquete estão perdendo sempre, o vôlei, nem existe mais, então só sobra o tênis". Pelo menos o apresentador aliviou, e falou: "no basquete tem perdido porque só leva o time D nessas competições, se levar o A, tem grandes chances, vai pra disputar título".

(Talvez o apresentador tenha se lembrado de que o basquete argentino foi campeão olímpico em 2004 e medalha de bronze em 2008, sendo que o basquete brasileiro sequer conseguiu disputar as últimas três (!) olimpíadas. E vale lembrar que Emanuel Ginóbili, que ganhou o prêmio de melhor jogador em 2004, foi campeão na NBA em 2003, 05 e 07, coisa que brasileiro nenhum jamais fez).

Então, começaram os leitores a enviar mensagens. Um deles escreveu: "Argentina só ganha libertadores e olhe lá". Outro: "Argentina é país do pólo e do rugby, e só". Um dos participantes comentou: "a infelicidade do del potro é que, por melhor que esteja, vai pegar na final o federer, deu azar". Nisso, outro ri: "no tênis, pega o Federer, no futebol, pegam o Brasil".

Percebe-se duas coisas: 1) descartou-se qualquer possibilidade de uma vitória de Del Potro; 2) menosprezou-se a importância do tênis no cenário mundial, não apenas pela comparação com o futebol.

Mas a "cereja do bolo", que é o motivo pelo qual demos o título a esse post, vem com o jornalista André Lofredo, um dos que mais realiza provocações em eventuais debates onde a Argentina é assunto: "pelo menos eles estão bem na política e economia (pausa). Ah, não tão não..." e riu.

Aí encerraram-se os comentários e mudou-se de assunto.

Pois bem, veio a partida e Del Potro venceu. De maneira épica. Reconhecida por todos e pelo próprio Federer, por muitos considerado o melhor tenista de todos os tempos.
Logo a seguir, já era possível ver comentários desprezando a conquista. Muitos leitores, através do twitter, seguiram na mesma linha "dane-se-o-resto-o-que-importa-é-que-no-futebol-somos-melhores-que-eles", como se o mundo que assistiu o jogo estivesse muito preocupado com a seleção brasileira de futebol.

Foi também essa a tônica de sites e blogs no Brasil (excetuando-se, claro, os especializados em tênis, que não se deixa(ra)m levar por tolas patriotadas, sabendo reconhecer a qualidade do tênis de Del Potro, individualmente, e da Argentina, como um todo): Juca Kfouri, por exemplo, reduziu a conquista de Juan Martin a um simples "Maradona irá convocá-lo para a seleção".

No dia seguinte, no mesmo Redação SporTv, algum leitor escreve ao programa dizendo que "apesar de Del Potro ser argentino, há de se admitir que jogou bem". O mesmo apresentador mencionado anteriormente diz que "sabe que os argentinos são bons e em vários esportes" mas que gosta de "apimentar a rivalidade".

(novo parênteses: em duas matérias de épocas distintas, uma de 2004 e outra de 2007 - clique nos anos para ler -, do portal UOL, comentou-se da verdadeira discrepância que existe tanto em termos de talento quanto de resultado entre os tênis argentino e brasileiro. E vale lembrar que, no Brasil, o segundo melhor tenista da última geração vitoriosa é o... argentino Fernando Meligeni).

Na Rede Globo, a tônica, em todas as matérias, foi a de "se no futebol eles estão mau, o tênis serve como consolo" e "na falta de Messi e Maradona, a Argentina busca novos ídolos". Esse tipo de menção levou hoje o jornal "Olé" a mandar um recado à imprensa brasileira.

Na matéria intitulada "O mundo fala dele" (El mundo habla de él), o diário argentino citou vários lugares do planeta onde houve repercussão da vitória de Del Potro: "começando por Tandil -terra do campeão-, passando por Estados Unidos -onde conquistou o título-, Suíça -onde perderam-, Espanha -terra de Nadal- e Brasil. Neste último, não se esquecem do futebol, mas agora é o momento da raquete. É a era de Delpo".

Lendo até o final, o jornal reproduz uma citação de "O Globo": "Quando a equipe de futebol está decepcionando, há que se procurar outras estrelas do esporte", diz a publicação carioca. O Olé conclui dizendo: "Não perdoam uma. Mas a inveja é evidente. Delpo é argentino". Perfeito. E não sabemos se é somente inveja que explica esse tipo de desprezo.
Sinceramente, vendo o que diz a Globo, eu prefiro ficar com Gustavo Kuerten: "Ter um sul-americano campeão é algo interessante. Eu conheço o Del Potro desde pequeno e sei que ele é um tenista muito dedicado. Fiquei muito feliz com o resultado, apesar da admiração que eu tenho pelo Federer. Para o tênis esse resultado é muito bom, o confronto em quadra com resultados surpreendentes é sempre muito estimulante."

Eis um brasileiro que sabe respeitar e reconhecer o talento dos argentinos. Talvez porque conheça o assunto.

domingo, 13 de setembro de 2009

Isso é Jornalismo! (5)

A matéria a seguir foi publicada com o nome "O Brasil Visto da Argentina" no site PedroDoria. O texto reproduz trechos de uma reportagem do jornal "La Nación".

O tom da reportagem, como se poderá ver, é muito respeitoso.

Mas, sabe-se lá o porquê, os comentários não.

Exemplos:

"Outra grande vantagem que temos é a baixíssima concentração de argentinos. Hehehehe!"

"Argentino é muito bom, assado com uma maçã na boca."

"Isso é a prova que na Argentina também existe bom senso."

//

Na Argentina, o diário La Nación diz a respeito do Brasil:

É a décima maior economia do mundo;

Maneja 40% do mercado de carnes do mundial;

É a oitava bolsa de valores por volume, tendo crescido 1.600% nos últimos cinco anos;

As exportações – 137 bilhões de dólares – dobraram em quatro anos.

E, por fim, a comparação que deixa os argentinos danados:

Nos anos 1940, o PIB de toda América Latina era igual ao argentino; hoje, o Brasil tem o tamanho de quatro Argentinas.

(Há de ser bom mesmo viver num país destes.)

Mas, no fim, como sugere à repórter Florência Carbone um de seus entrevistados, em meados dos anos 1990, só se falava do modelo chileno; pouco depois, vitorioso era o modelo argentino. Agora é a vez do Brasil. O quanto isto vale de fato? E, se vale, perguntam-se os jornalistas nossos vizinhos: qual o segredo do Brasil? A série inclui três artigos e uma reportagem.

Algumas coisas – a auto-suficiência em petróleo, por exemplo – é trabalho sólido. A Petrobras vem investindo há muitos anos, já, em tecnologia de extração. Some-se a alta dos preços do barril, que faz compensar a retirada de petróleo a grandes profundidades, e o investimento compensa.

O La Nación destaca também que aos oito anos do governo FHC seguem-se mais oito de Lula que, embora vindos de grupos de oposição um ao outro, dão seqüência ao mesmo jogo de políticas públicas. Há continuidade de governança. A política externa do atual governo também recebe elogios do principal jornal conservador argentino.

Daí, seguem-se fatores que os argentinos não podem controlar: o Brasil tem quatro vezes mais terra e uma população cinco vezes maior. Tem recursos minerais, do ferro ao carvão. Ajuda um bocado no processo de industrialização.

Mas o momento chave em que, o jornal considera, Brasil e Argentina
se separaram de vez faz muito tempo: a década de 1940. À época, quando o país deles era um riquíssimo agroexportador, os interesses do setor não permitiram o desenvolvimento de um parque industrial. Foi exatamente o que o Brasil fez. Desde então, a Argentina empobreceu e o Brasil enriqueceu.

Mas isto só conta metade da história na versão do La Nación: a projeção recente do Brasil no cenário global começa com o Plano Real, no governo Itamar Franco. É preciso levar-se em conta a
solidez das instituições públicas e privadas, políticas e econômicas, ‘que geram contrapesos no exercício do poder social, limitando as tentações por caprichos individuais’. Não são perfeitas, mas permitem ‘canalizar e articular interesses divergentes’. Quer dizer: o país funciona independentemente de quem esteja no governo.

A
conclusão dos argentinos – talvez aí surpreendente – é que o crescimento brasileiro é bom para eles se tomado o exemplo da relação Canadá, Estados Unidos. Se, no Brasil, conflitos políticos não mataram o projeto de desenvolvimento, caso argentino, o sucesso econômico daqui gerou investimentos lá. O melhor modelo, então, ainda mais agora que estabilidade política parece estar voltando também à Casa Rosada, é uma relação de interdependência.

Naturalmente. É só combinar com o adversário antes.

sábado, 12 de setembro de 2009

Raça X Nacionalidade (3)


A notícia a seguir veio do blog "Argentinas, etc", do jornalista brasileiro Daniel Oiticica, que mora em Buenos Aires desde 2003:

"Um cinegrafista da ESPN Argentina denunciou na televisão daqui que foi discriminado em uma produtora de Belo Horizonte.

O profissional, que esta trabalhando na capital mineira para a final da Libertadores entre Cruzeiro e Estudiantes, contou que só pôde entrar na produtora para mandar imagens a Buenos Aires acompanhado de um colega jornalista brasileiro.

Também foi orientado a ficar de boca fechada para que os seguranças da produtora não descobrissem que ele era argentino".

Seria medo da gripe suína ou represália ao "gremista" Máxi López?

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Propagandas (11)


Essa é a foto de um outdoor das ruas de Salvador, dias antes da partida entre Brasil e Chile, ocorrida na última quarta-feira 10.

Nela, temos um argentino (seguindo o estereótipo dos cabelos longos, como se todos os 40 milhões de habitantes de lá fossem assim) "irritado" e a inscrição, em espanhol, "Argentina también quiere". Esse "também quer", refere-se, provavelmente à cidade. Ao fundo, um estádio lotado nas cores verde e amarelo.

Segundo o site GloboEsporte.com, "A seleção argentina nem passará perto de Salvador. Mas é com um “hermano zangado” que o governo da Bahia divulga a partida da próxima quarta-feira, contra o Chile. Diversos outdoors supõem que o principal rival da seleção brasileira gostaria de jogar no estádio de Pituaçu".

Eu, francamente, não entendi o sentido ou objetivo da peça publicitária. Claro, o porquê de ser um argentino, é óbvio.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Propagandas (10)


Já circula na TV o novo comercial da operadora de celular "Vivo", uma das principais patrocinadoras da Seleção Brasileira de Futebol. A peça publicitária saiu logo após a vitória contra a Argentina, no último sábado.

O Brasil se classificou para a Copa. Mas, claro, essa não é nem de longe "nossa" maior alegria...


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Muito Além do Futebol... (9)

Algo de estranho acontece no Brasil. A relação compensatória do esporte (i.e. futebol) no cotidiano popular é incrível. Vamos fazer três pincelagens de momentos históricos nessa relação.

Momento 1: 1958 - O esporte como "reprodução" da realidade

Aqui é quando o Brasil passou a se tornar uma "Potência do esporte mundial", e tinha-se a ideia de que as coisas estavam dando certo. Juscelino e seus "50 anos em 5", a indústria automobilística e a construção de Brasília davam a impressão de que realmente o Brasil era o maior do mundo. Mas não apenas na economia tinha-se essa impressão: no esporte também.

O Brasil conquistava em 1958 seu primeiro título na Copa do Mundo de futebol. No ano seguinte, vencia o mundial de Basquete e, nesse meio tempo, Maria Esther Bueno vencia torneios em Wimbledon e outros Grand Slams enquanto o Santos se tornava "bicampeão mundial interclubes". Para coroar essa saga, em 1962 a seleção nacional de futebol trazia o bicampeonato do Chile.

Começava-se a olhar para o esporte como um retrato da população. Se "nós" vencíamos, quem gahava era também a população, afinal de contas você é brasileiro, igualzinho Pelé, Maria Esther e Wlamir Marques. Como disse Nelson Rodrigues em crônica da época, "o brasileiro tem de si mesmo uma nova imagem. Ele já se vê na totalidade de suas imensas virtudes pessoais e humanas".

A eliminação logo na primeira fase em 1966 não tem grandes efeitos, pois podia-se dizer que "os times europeus foram violentos". E o auge aconteceu na copa de 1970: a ditadura militar usando o time como símbolo, e canções no estilo "Pra frente, Brasil" além do slogan "Ninguém segura este país" embalaram o sonho. Nesse mesmo ano, Emerson Fittipaldi conquistava a primeira vitória brasileira na Fórmula 1.



Até o início dos anos 80, o futebol deixou de encantar o povo brasileiro, com decepções nas copas de 1974 e 1978, e Fittipaldi, embora tenha sido campeão em 72 e 74, embarcaria no sonho de uma equipe brazuca de Fórmula 1 e jamais conseguiu um grande resultado na categoria. Aliado a tudo isso, a verdade sobre mortes e escândalos passava a surgir e o "milagre econômico" da ditadura dava mostras de sua ineficiência. Em 1979, pelo menos, a Anistia acontecia...

Era preciso renovação. Política e esportiva.

Momento 2: 1982 - O esporte como a grande (única?) esperança

No início dos anos 80, começava a se desenhar o fim da ditadura militar e, ainda que timidamente, havia novamente esperança no povo brasileiro. A década esportiva começa a ressurgir a partir do primeiro título de Nelson Piquet, 7 anos após a última conquista de Fittipaldi. No ano seguinte, a seleção brasileira vai à Espanha e exibe aquele que, para muitos, foi o futebol mais bonito da história do país.

No entanto, o espetáculo brazuca caiu diante da eficiência italiana, na famosa derrota por 3 a 2. O episódio seria para sempre conhecido como a "Tragédia de Sarriá" (nome do estádio espanhol). Mas a esperança haveria de se renovar...

Em 1983, Nelson Piquet torna-se bicampeão, e no ano seguinte surge Ayrton Senna, dirigindo um carro mediano e conseguindo resultados absolutamente surpreendentes na sua temporada de estreia. Foi no mesmo 1984 que surgiu o movimento "Diretas, Já!", que marcou definitivamente a fase dos sonhos.

No ano seguinte, a morte de Tancredo Neves antes de sua posse cobre com um manto de tristeza a população brasileira. Mas é justamente nesse contexto que Ayrton Senna começa a despontar no cenário mundial e na cultura do país: no MESMO dia em que se anunciava o falecimento de Tancredo, Senna vencia seu primeiro Grande Prêmio na F-1.

Em 1986, a seleção brasileira mantinha-se com a mesma qualidade da copa anterior (o técnico era o mesmo, Telê Santana, fato raro por aqui) e Senna e Piquet apareciam como grandes candidatos ao título da F-1. Além disso, o início do plano cruzado com José Sarney, dava a impressão de que, como diziam os balões na pista de Jacarepaguá, tudo iria "dar certo".



Os escândalos de corrupção e inflação no governo Sarney começam a aparecer e novamente a seleção de futebol é eliminada, mas cada vez mais a Fórmula 1 traz alegrias: Senna vence o GP de Detroit no dia SEGUINTE à derrota brasileira para a França em 86, Piquet é campeão do mundo em 1987, e Senna leva o título em 1988, 90 e 91 - ano em que obteve sua primeira vitória no GP do Brasil - com Piquet obtendo importantes vitórias no início da década.

De certa forma, as alegrias na F-1 substituíram as vitórias nos gramados quando, em 1990, mais uma vez o Brasil foi eliminado (dessa vez por Maradona, plantando a semente do que aconteceria pouco tempo depois). 1992 inicia-se com os graves problemas do governo Collor em meio ao ouro olímpico da seleção de vôlei, um prenúncio do que aconteceria nos anos 2000.

A morte de Senna em 1994 põe fim aos sonhos. Coincidentemente, acontece o tetra no futebol. Preparando-se para a vinda de FHC, pode-se dizer que aquela foi a última vez em que o país esteve envolvido e totalmente unido no âmbito esportivo.

Momento 3: 1998 - O esporte como recompensa. Ou vingança.

A morte de Senna não afetou apenas a carreira do piloto, mas deixou o Brasil órfão nas "manhãs de domingo". Até a primeira vitória de Barrichello, em 2000, foram quase sete anos sem que pilotos brasileiros conquistassem qualquer GP. A derrota vexatória na Copa do Mundo de 1998, levando 3x0 da anfitriã França, dá também início ao jeito "não são os outros que ganham, nós é que perdemos" de se pensar.

Teorias mirabolantes sobre uma possível venda da copa, em detrimento ao talento de craques como Zinedine Zidane, norteiam o pensamento da maioria da população, enquanto uma outra parcela, ainda tímida, passa a desgostar do modo como o esporte é conduzido no Brasil. É aqui que se acentuam os que torcem por outras seleções ou então por pilotos estrangeiros na F-1. Um exemplo: muitos torciam pela seleção brasileira ao mesmo tempo que por Schumacher, ou por Itália/Argentina/França e Barrichello.

Justamente nesse contexto, surge o primeiro grande tenista brasileiro desde Maria Esther Bueno: Gustavo Kuerten. Praticante de um esporte que nunca foi popular no Brasil, nato de um estado que não é um dos principais do país economicamente, e em meio à "Orfandade" da F-1, Guga traz algum resquício de "Vamos lá!".


Mas justamente pelo fato de requerer muitos investimentos financeiros, o tênis não conseguiu atingir o mesmo sucesso do automobilismo. Apesar disso, a ideia de "somos os melhores do mundo no futebol e no tênis" acontecia. Depois veio um surto de vitórias na ginástica e consequentemente "somos os melhores do mundo no futebol e na ginástica".

Em 2002, há uma esperança política no povo brasileiro que os faz eleger Lula, e no mesmo ano a seleção conquista o penta no futebol. Muitos comemoram, mas não houve nem metade da festa acontecida 8 anos antes, no tetra de 1994. Muitos dizem que é pelo fato de, naquela época, o Brasil não levantar a taça havia 24 anos. Pode ser, mas o entusiasmo já não é(ra) mais o mesmo.

Bernardinho, ex-técnico da seleção feminina, começa a ditar os passos do voleibol mundial masculino a partir de 2001, e aqui se pode dizer que, sim, o Brasil realmente foi e é o melhor no respectivo esporte. Mas, novamente, "somos os melhores do mundo no futebol e no vôlei".

Barrichello nunca conquistou o devido respeito pela população. O tênis e a ginástica foram sendo gradualmente esquecidos, notadamente o primeiro, pois a ginástica ainda tem "incentivos" (somente) em momentos como Pan-Americano e Olimpíadas - mas a cobrança em eventual derrota é SEMPRE dez vezes maior que o apoio.

2006 marca a reeleição de Lula apesar do maior escândalo político-financeiro da história do país: o Mensalão. Nesse mesmo ano, acontece uma das mais amargas derrotas da história do selecionado de futebol (novamente para a França) e a desculpa dessa vez é que "os jogadores não quiseram jogar", porque "nós SOMOS os melhores, sempre".


E foi ao longo de todo esse contexto no momento três - desde meados dos anos 90 - que se acentuou de modo drástico a necessidade de ter um rival "de sempre", alguém que pudesse alegrar o Brasil apesar de suas derrotas: a Argentina. Tornou-se tão importante quanto torcer pela vitória brasileira o "torcer contra" a Argentina.

Na copa de 2006, por exemplo, a Argentina foi eliminada na sexta-feira, e o Brasil no sábado. E o que mais se ouvia era: "o que importa é que a Argentina caiu antes".

sábado, 5 de setembro de 2009

Muito Além do Futebol... (8)


Ano passado, após o empate por 0 a 0 no mineirão e a vitória argentina por 3 a 0 nas Olimpíadas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mais uma vez polemizou com suas declarações.

Lula elogiou o atacante argentino Lionel Messi, dizendo ser ele "o melhor jogador do mundo". Ainda, o presidente do Brasil disse que os jogadores argentinos são "exemplos de raça" e que quando eles "perdem a bola, correm atrás". Complementou dizendo que "os brasileiros, não, só olham".

Isso fez com que Júlio César, goleiro da seleção, desse a seguinte declaração à imprensa:

Uma semana depois, quando o Brasil iria enfrentar a seleção do Chile, Júlio César se "retratou". Mais ou menos...

Segundo Júlio, o que o chateou realmente "foi o fato de o presidente ter usado a Argentina como exemplo". Isso não pode. É a maior ofensa que um brasileiro pode receber.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Isso é Jornalismo? (4)

Próximos de mais um episódio do maior clássico do futebol mundial, relembramos aqui uma das partidas mais controversas da história do confronto: Copa América de 1995.

A Argentina, que defendia um bicampeonato (vencera em 1991 e 1993) no torneio sul-americano, enfrentava a seleção brasileira que havia conquistado a Copa do Mundo no ano anterior.

A partida terminou 2 a 2 e, como era fase eliminatória, foi decidida nos pênaltis, com vitória brasileira. Acontece, porém, que até o final da etapa complementar o time argentino vencia por 2 a 1 quando Túlio dominou uma bola com o braço e, diante dos adversários atônitos, fez o gol.

Segundo pode-se ver nos gestos do próprio, o juiz afirma que a bola foi dominada no peito. Inacreditável (Luís Fernando Veríssimo, brilhante escritor gaúcho, no dia seguinte cunhou: "Contra a Argentina, gol de mão é peito").

Porém, ainda pior que a ineficiência do árbitro, é a matéria da Rede Globo que, além de chamar os argentinos de "violentos" de modo claro e direto a partir de um choque comum de jogo - com a tradicional "cena" -, comemora e elogia o "jeitinho brasileiro".


Como disse o repórter, também da Globo (!), no post "Isso é Jornalismo? (2)", "contra a Argentina vale tudo!".