sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Raça X Nacionalidade (18)


Hoje chegamos ao centésimo post da breve história do blog Hermanos & Brazucas. Nos 99 anteriores, já temos muita coisa p'ra contar.

Embora falemos bastante de futebol por aqui, o nosso blog não é sobre este esporte. O blog é sobre preconceito. Falamos sobre a existência – clara – dele, tentando lutar contra tal, e mostrando, por outro lado, os momentos de cordialidade e respeito.

Mitos

Cresci com a seguinte frase na cabeça: “no Brasil não existe preconceito racial, existe preconceito social”. Não me lembro exatamente em qual programa de TV ouvi isso, mas era num desses onde há rodas de debates, e as pessoas discutem sobre determinado assunto.

Além de absurda por negar o racismo que é evidente, essa frase como que nos torna passivos àquela cena comum da discriminação a mendigos, “pivetes” e moradores de rua em geral quando passamos com nossos carros, ou mesmo caminhando.

Desses, pouco interessa a cor.

Quando este blog foi “inaugurado”, dissemos que iríamos combater a “xenofobia mascarada que acontece no Brasil”, e afirmamos que “o futebol é a máscara utilizada”. Ao longo dos sete meses que nosso blog está no ar, vimos que essa realidade é muito clara. Só não enxerga quem não quiser.

Antes de tudo, é importante que se note que a xenofobia não é dirigida somente aos argentinos: já colocamos aqui os dados da ONU sobre a opinião da população brasileira em relação a imigrantes – a ampla maioria é desfavorável.

Além disso, podemos perceber no nosso dia-a-dia que estereótipos e opiniões “de mau gosto” são dirigidas especialmente a chineses, árabes, judeus e portugueses, isso sem contar que, de uma maneira geral, há um desprezo pela quase totalidade de países latinos: dia desses, por exemplo, estava circulando um e-mail com piadas relativas às desgraças do povo cubano.

Aqueles que afirmam que não existe xenofobia no Brasil defendem-se dizendo, primeiro, que o Brasil abriga diversas culturas, religiões, nacionalidades e cores em grande – e essa é a palavra – quantidade.

O outro argumento dá conta de que estrangeiros não são maltratados no Brasil de forma escancarada, pessoas famosas não dizem abertamente serem contrárias à presença desta ou daquela nacionalidade, não existem grupos “anti-qualquer um” de uma maneira ampla, e que nem mesmo no futebol há discriminação, haja vista a quantidade de estrangeiros aqui presentes.

Em última análise, tudo isso é verdade. No entanto, a questão de multiplicadade étnica me parece superficial tendo em vista que dois dos países que mais sofrem com índices de discriminação racial são também dois dos que mais recebem imigrantes: EUA (que possui quase o dobro da população brasileira) e França.

Já quanto ao segundo ponto, é preciso analisar com mais calma.

O primeiro passo para um dependente químico recuperar-se é ele(a) admitir que precisa de tratamento”.

O grande problema nisso tudo é que as pessoas não entendem (ou não querem entender?) que para haver xenofobia – e seu irmão de sangue, o racismo – não é preciso, necessariamente, que haja discriminação. Antes de ações, tratamos de sentimentos e pensamentos, ou seja: preconceito.

A associação de quaisquer ideias negativas a alguém por conta de sua origem/cor/religião/sexo é, por si só, preconceituosa.

Pense: existe diferença em associar falta de capacidade a todos os habitantes dos estados do nordeste e associar atividades de terrorismo a todos os muçulmanos? Há diferença, por exemplo, em classificar as mulheres como seres inferiores e ter os homossexuais por doentes/errados?

E existe diferença em você relacionar a característica de roubo (não falo de acusar uma pessoa de um crime, mas qualificá-la como “tendenciosa a praticar furtos”) aos afro-descendentes e imputar a mesma aos seguidores/praticantes de igrejas evangélicas? Não há diferença nenhuma, mas enquanto a segunda é passível de punição, a primeira é tida apenas como “uma opinião”.

Em todos os casos supracitados, está se criando um estigma. Estigmatizar é o mesmo que ser preconceituoso. E ser preconceituoso é o primeiro e último passo antes de se discriminar alguém. E é importante salientar que, em última análise, o preconceito é a justificativa para a discriminação.

Desse modo, quando alguém incute a característica de “preconceituosos”, "racistas", "discriminadores", etc, a todo e qualquer integrante do povo argentino, está no mesmo nível de homofóbicos, racistas, xenófobos, sexistas e outros segregadores. A única diferença é que, talvez, a pessoa ainda não pôs em prática um ato discriminatório.

Mas pode estar perto disso...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Isso é Jornalismo? (16)


Esse post poderia estar classificado no tema "Raça X Nacionalidade" mas, por se tratar de formadores de opinião, e por estarem deixando a imparcialidade (muito) de lado, o colocaremos neste.

Na última semana, o goleiro argentino Roberto Carlos Abbondanzieri foi contratado pelo Sport Club Internacional de Porto Alegre. Na maioria dos casos falou-se de sua experiência internacional (goleiro da seleção na Copa de 2006, e vencedor de várias Libertadores), dos colegas nativos D'Alessandro e Guiñazu, além do aval do técnico uruguaio Jorge Fosati. Porém, no último fim-de-semana dois personagens da imprensa, o jornalista Luís Carlos Quartarollo (Jovem Pan) e o comentarista Neto (Bandeirantes), preferiram remexer num assunto já comentado aqui: as acusações do brasileiro Baiano contra o referido jogador.


Num post de setembro do ano passado, explicamos o caso, e apontamos as contradições de Baiano quando da acusação feita. Vamos agora tentar lembrá-las, resumidamente (o ano em questão é 2005).

1) Baiano começa a jogar no Club Atletico Boca Juniors no início de janeiro;

2) Meados de abril, cinco dias depois de Desábato X Grafite, fala que NÃO SOFRIA NADA DE RACISMO na Argentina, e que adorava e era adorado por todos;

3) Volta ao Brasil no início de junho e nada fala (!);

4) Um mês depois, na partida Corinthians e Palmeiras, agride covardemente um argentino com o qual nunca havia jogado;

5) Naquela noite, "revelou" que sofria racismo no Boca, e que agrediu Tevez por ser ele um representante de tudo o que sofreu.

Isto posto, é fácil chegar à conclusão de que existe algo de errado nas acusações de Baiano: a) por que ele não denunciou o racismo naquela entrevista do Estadão? Afinal, já morava na Argentina e jogava no Boca havia pelo menos três meses. b) por que não denunciou o racismo logo que voltou ao Brasil, quando da rescisão de seu contrato com o clube argentino, só o fazendo quase dois meses depois? c) por que agrediu de tal forma a Tevez, que não participara da jogada?

Os integrantes da imprensa supramencionados não levaram em consideração esses fatos, e fizeram dois posts criticando duramente a contratação do goleiro argentino pelo fato de ele SER (sic) racista.

Neto afirma que "quando ambos atuavam (grifo) pelo time argentino , o brasileiro disse ter sido vítima de muito menosprezo por parte desse goleiro". E o ex-jogador complementa afirmando que "Abbondanzieri pode até desmentir, mas prefiro acreditar (grifo) no gente boa do Baiano". Já Quartarollo diz que "Se ele falou antes ou depois para mim pouco importa. (grifo)". Ainda, segundo o jornalista, Baiano foi "sendo discriminado diariamente (grifo) pelos seus próprios companheiros".

Até o presente momento, o post de Quartarollo conta com 121 comentários, e o de Neto já soma 958. Certamente, principalmente neste último, trata-se de recordes de postagens de leitores e, felizmente, pode-se afirmar que pelo menos 90% destas são de críticas (vários leitores, inclusive, lembram de quando Neto cuspiu na cara de um árbitro, negro, em 1991) à postura dos autores dos blogs tanto por acusarem alguém (Abbondanzieri) sem qualquer prova - apenas a palavra de outrem (Baiano) - como por não aplicarem o mesmo critério quando elogiaram a contratação de Antônio Carlos pelo Palmeiras - no caso de racismo em que Carlos ofendeu Jeovânio, em 2006.

Tanto Neto quanto Quartarollo afirmaram que escreveram tais posts porque ficaram indignados com os protestos realizados pela torcida palmeirense no dia seguinte à contratação de Antônio Carlos. Para eles, Antônio Carlos cometeu um erro; Abbondanzieri vive a errar.


Contra Antônio Carlos, há imagens de TV; contra Abbondanzieri, há a palavra de Baiano meses depois do "fato ocorrido" e após uma agressão gratuita. Não custa lembrar que Antônio Carlos é brasileiro e amigo dos referidos atuantes da imprensa. Abbondanzieri? apenas um argentino.

(nota do blog: Neto optou por retirar seu post do ar durante a tarde do dia 24 de fevereiro de 2010.)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Isso é Jornalismo! (15)


Você que frequenta nosso blog sabe de nossas críticas à Rede Globo. E não é pra menos: em várias partes de seu editorial, a emissora de TV (e suas páginas na inernet) comete equívocos ora por trazer intrínseco algum preconceito, ora por prestar desinformações. No entanto, quando o canal acerta, também fazemos questão de mostrar. Foi o que aconteceu no último domingo, no programa Esporte Espetacular.

Já havíamos comentado aqui sobre os excessos cometidos não só pela Globo mas pela imprensa esportiva nacional em geral quando se trata de apontar erros de arbitragem ou favorecimentos a outras seleções, principalmente se for a Argentina. O gol de mão contra a Inglaterra em 1986 é tido como o maior exemplo de canalhice de um atleta na história das copas, ao passo que os principais momentos de má intenção por parte de jogadores brasileiros são acobertados, quando não louvados.

E também a copa de 1978, que aconteceu na Argentina, é usada como o exemplo clássico de interferência(s) externa(s) nos resultados de campo, dando sempre a impressão de que a Argentina só venceu aquele torneio por conta de subornos e pressões de organizações. A fonte, usada como PROVA pela imprensa esportiva brasileira - com vídeos veiculados no mesmo programa supracitado -, é o escritor colombiano Fernando Rodríguez Mondragón.

(E o mais interessante de tudo isso é que um depoimento favorável à seleção Argentina e que confirma/apoia sua vitória naquela copa veio de ninguém menos que João Havelange, brasileiro, presidente da FIFA por mais de 20 anos.)

Enfim, voltando a falar da matéria do EE, ela traz denúncias feitas por um... brasileiro (!), sobre o suborno que teria acontecido antes da final da copa de 1962 a um bandeirinha, para que este não testemunhasse e, no julgamento, Garrincha fosse absolvido, a fim de participar da finalíssima.

Curiosamente, nessa mesma copa um juiz chileno havia "errado" duas vezes consecutivas em favor do Brasil na 3ª rodada (contra a Espanha), jogo esse que, em caso de derrota canarinha, eliminaria a seleção brasileira.
Acompanhe:

Fica a seu critério, caro leitor, acreditar ou não nas histórias contadas acima. Em todo caso, os registros apontam o Brasil como sendo o campeão mundial de 1962, e a Argentina o de 1978. Isso jamais irá mudar.

Duas matérias sugeridas: Esta aqui, e essa outra.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Muito Além do Futebol... (22)


O programa Pânico (aqui, na versão de rádio), em 2002, fez diversas ligações a cidadãos argentinos para "comemorar" a eliminação da seleção daquele país.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Propagandas (17)


Esse comercial, da empresa esportiva Topper, está circulando na TV atualmente. Ao contrário da maioria das publicidades brasileiras que postamos aqui, nesta a referência à Argentina não é agressiva nem traz desprezo. A(s) pergunta(s) que fica(m) no ar, porém, é se somos realmente tão diferentes, e se isso é tão irritante. Claro, o argentino que aparece (aos 35 seg) tem os cabelos compridos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Duetos (12)


Carlos Tevez e Anderson, ex-companheiros de Manchester United, em uma brincadeira promovida pelo clube.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Raça X Nacionalidade (17)


Há três meses, falamos aqui sobre o orkut, e de diversas comunidades presentes no site de relacionamento que têm cunho preconceituoso. Hoje vamos falar sobre um fórum presente na internet: trata-se do “Portal do Vale Tudo”.

Num tópico denominado “Resposta sobre os argentinos”, que começou com uma discussão extremamente banal – por si só preconceituosa – relacionando futebol e vale tudo (o internauta que abriu o tópico disse que “os Argentinos são tão agressivos no futebol, em tudo partem para a ignorância (...) será que não passam de umas bichinhas cabeludinhas, metidas a nervosinhas que só tem coragem em bando? Existe algum lutador de MMA (Vale Tudo) de nível que é Argentino?”), acabou se transformando em um (des)tratado sobre racismo.

O usuário “leoBJJ” decreta: “Quem se importa com os argentinos? Qualquer coisa a gente explode Itaipu que Buenos Aires vira um aquário gigante...”. Mais adiante, é a vez de “juliojr” fazer uma quase lei sobre que espécie de tratamento deve er dispensada aos argentinos: “eles merecem ser tratados com um pé atrás por sua arrogância e xenofobia, COM CERTEZA”.

Nem todas as vozes foram contrárias: “Ytsejam”, por exemplo, falou que “90% ou mais das pessoas que dizem "odiar" argentinos, NUNCA nem conversaram com um argentino pessoalmente”. E “sarin_vx” é outro que atacou a hipocrisia reinante: “como quando fui pra la nunca tive problema algum com relação à educação deles, não vou ficar inventando historinhas só pela rivalidade no futebol (...) como sempre, é o velho problema da generalização...”.

Mas a principal tônica é aquela trazida por “Andrey”: “Eu não gosto de argentinos, pode ser que 1% seja educado e não seja racista e preconceituoso com brasileiros, mais (sic) 99% é. Quando se vai pra lá, e eles vêem que você não entende certinho a língua deles, eles fazem questão de dificultar em vez de ajudar você. Você entra nos lugares e se eles nota (sic) que você é brasileiro, fazem de tudo para de esnobar e te ignorar.

Devido à discrepância de “estatísticas” postadas pelos usuários, e lembrando do que disse a ONU, a única conclusão a que podemos chegar é de que alguém está equivocado, nessa história toda.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Muito Além do Futebol... (21)


Em 2008, o argentino Fernando Meligeni lançou o livro "Aqui Tem!", onde conta, entre outras histórias, como e porquê decidiu naturalizar-se brasileiro. No dia 20 de outubro desse mesmo ano, Meligeni participou do programa "CQC", no famoso quadro "CQteste" (atenção para os 39 seg).

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Propagandas (16)

Esse comercial é pertencente à famosa série "Joga Bonito", da Nike, que exalta jogadores, equipes e técnicos do mundo todo que tenham algum tipo de vínculo com a empresa esportiva norte-americana. O video é apresentado pelo famoso jogador francês Eric Cantona.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Duetos (11)


Rúben Magnano é o novo técnico da seleção brasileira de basquete. O treinador, argentino, foi campeão olímpico com a seleção de seu país em 2004, e busca repetir o sucesso com a amarelinha.

O site GloboEsporte.com fez uma entrevista com Magnano, que revelou gosto pela música brasileira e conversou com várias pessoas.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Raça X Nacionalidade (16)


Novamente, chegamos a um dos casos mais extremos de preconceito dirigido à origem, junto àquilo que vimos aqui. Trata-se de mais uma amostra sobre como no Brasil se faz vista grossa à xenofobia, não importando o que diz a constituição.

Enquanto palavras ofensivas à nacionalidade (às vezes, até mesmo cidades, estados e regiões são alvo de tais ataques) de um ser humano forem consideradas "brincadeiras" ou simplesmente um direito de opinião, continuaremos a ver a intolerância crescer.

Um exemplo claro dessa incoerência – assim como no caso de Antônio Carlos e Jeovânio – no que diz respeito a teoria e prática (a lei “existe” para todos, mas só é aplicada para alguns) foi o ocorrido entre o jogador Viola e o goleiro Dusan (sérvio), em janeiro de 2008, quando ambos atuavam pelo Duque de Caxias, clube fluminense.

Viola ofendeu o goleiro sem motivo nenhum e, dando ‘explicações’ à imprensa sobre seus xingamentos, sentenciou: “Não gosto de gringo. Não gosto de argentino, de sérvio. Não gosto de estrangeiro”.

Isso mesmo: Viola disse publicamente que o motivo para ter xingado o colega de tal forma (disse a frase “você é um m...” por sete vezes, em alto e bom som, no saguão de um hotel) é ele ter nascido fora do Brasil.

Viola não se conteve e incluiu os argentinos em seu discurso derrotado. Coincidência ou não, dois deles, Mauro Astrada e Fernando Barrera, também eram seus colegas de clube.

Na Argentina, não foi feito nenhum mutirão com a imprensa local (como aqui foi feito na situação Desábato X Grafite) para transformar os ditos de Viola numa verdade absoluta sobre os jogadores e cidadãos brasileiros no que diz respeito a preconceito, racismo e xenofobia.

Simplesmente, o jornal Clarín divulgou uma nota lamentando tal episódio, e enfatizou que Viola era um campeão do mundo. Viola não foi repreendido por seu clube, muito menos prestou queixas à justiça desportiva, que dirá à comum.

Já podemos mudar aquele ditado popular: agora é "um peso; duas medidas".

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Isso é Jornalismo? (15)


Dando uma garimpada, encontramos esse excelente texto de Idelber Avelar, brasileiro, publicado em 2005 em seu excelente site "O Biscoito Fino e a Massa". Trata-se de uma bela análise de como as transmissões futebolítiscas contribuem, negativamente, para o sentimento anti-argentino no Brasil.

//

Algumas Notas sobre Xenofobia Anti-Argentina

Em primeiro lugar eu gostaria de convidar a que voltassem aqui todos os leitores que apareceram na época do post sobre Grafite/Desábato para dizer que a Seleção Brasileira seria recebida a pedradas em Buenos Aires, que o Brasil seria massacrado a pancadas e que a polícia argentina estaria pronta para levar qualquer brasileiro para a cadeia por qualquer coisa.

Em segundo lugar, alguns comentários sobre o jogo de ontem, ou melhor, sobre a transmissão brasileira:

1:40: depois de uma dividida normal, Galvão Bueno nos diz: "esse Killy González é desleal, só entra para quebrar".

3:40: gol da Argentina, depois de uma triangulação de toques rápidos típica do futebol argentino. G.B.: "Gol da Argentina numa bobeira da defesa do Brasil". Nenhuma menção à bela jogada argentina.

11:00: Depois de sofrer falta normal, Adriano se levanta e tenta agredir Ayala. Falcão: "se o árbitro tivesse mostrado o amarelo o Adriano não teria feito isso". Penso comigo: "será que o Adriano antevê o futuro?" Porque obviamente ao se levantar para agredir o argentino ele não tinha nem idéia do que faria o árbitro.

17:00: gol da Argentina. G.B.: "outra bobeira da defesa do Brasil".

40:00: terceiro gol da Argentina.

46:00: Roque Jr. faz falta e, caído, chuta Ayala. G.B.: "os jogadores brasileiros estão começando a revidar". Penso comigo: 'revidar o quê?'...


No segundo tempo, com a reação do Brasil, G.B. e Casagrande nos dizem, várias vezes, que aquele era o jogo real. 'Uai', penso comigo, 'o que eu vi no primeiro tempo era um jogo imaginário?' Parece que o jogo só é "real" quando o Brasil é superior.

Mas o grande destaque da noite aconteceu aos 21 do primeiro tempo. G. B. nos avisa que a palavra milonga pode ser traduzida como malandragem. Gardel revira-se no túmulo.

O sociólogo brasileiro Ronaldo Helal que reside em Buenos Aires e, como eu, se dedica ao estudo da cultura argentina, concedeu à Folha uma entrevista (link para os que têm UOL) em que afirma: "Aqui, quase não há piadas com brasileiros. No Brasil, não vejo matérias elogiando o futebol argentino".

Assisti ao jogo do Brasil [contra o Paraguai] em Buenos Aires. Três momentos me chamaram a atenção no segundo tempo. No início, o locutor disse: "Eles jogam se divertindo. Muita técnica, uma beleza!". Depois, quando o Brasil fez 3 a 0, disse: "Agora para os amantes do bom futebol, vamos assistir ao luxo do Brasil". No final, ele disse: "Toda a magia e fantasia do jogador brasileiro". Não imagino o Galvão Bueno falando assim dos argentinos.

Ronaldo Helal tem toda a razão. Eu sonho com um Brasil onde nós conhecêssemos sobre eles 10% do que eles conhecem sobre nós; onde as transmissões de futebol não fossem essa palhaçada xenófoba; e onde todos os argentinos que aqui chegam fossem recebidos com o carinho de que eu, pelo menos, desfruto sempre que chego lá.

A propósito, um dos maiores romances latino-americanos dos últimos tempos, Duas Vezes Junho, do argentino Martín Kohan, acaba de ser lançado em português, pela editora Amauta. Não percam. O romance transcorre durante a Copa de 1978, desmontando todo o delírio patriótico que cercou aquela Copa. Ainda estou esperando um romance brasileiro que reflita criticamente sobre a nossa relação patrioteira com o futebol.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Muito Além do Futebol... (20)


Como todos sabem, em dezembro passado o argentino Lionel Messi recebeu o prêmio de "Melhor Jogador do Mundo" pela FIFA. Cabe ressaltar que esse prêmio superou todas as expectativas e Messi teve, a seu favor, a maior diferença da história entre primeiro e segundo colocados: recebeu 1.073 pontos ante os 352 de Cristiano Ronaldo.

Diante disso, e sabendo que o Barcelona de Messi foi campeão de todos os títulos que disputou, é de se perguntar por que que dois dos poucos votos que Messi não recebeu na eleição da FIFA (o técnico e o capitão das seleções de todo o mundo escolhem os três melhores do ano, e a pontuação vai de acordo com as posições) vieram justamente de Dunga e Lúcio, os representantes do Brasil na votação.

É de se estranhar, não é mesmo? Seria por motivos técnicos? O pessoal do excelente blog "Esporte Fino" explica o porquê disso: "Dunga é destes brasilinos clássicos. E um brasilino clássico, antes de qualquer coisa, odeia os argentinos."

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Duetos (10)


No video a seguir, temos Nicolas, argentino, candidatando-se a uma vaga de emprego no Brasil, para trabalhar como guia turístico no Rio de Janeiro. O conteúdo, em si, não teria nada de impressionante caso não se mostrasse um contraponto àqueles dois videos (também "caseiros") de brasileiros postados mês passado...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Muito Além do Futebol... (19)


Diversas vezes questionamos os ataques ao país vizinho; alguns deles tomam proporções descaradas e até mesmo bizarras, beirando a concorrência com Ari Toledo/Chico Anysio. O site do Globo Esporte selecionou um “sacerdote” e uma “cartomante” (?) para “refletir”, “analisar” e “prever” o que está para acontecer no mundial da África do Sul.

Este que vos bloga se deu o trabalho de destacar alguns pontos cruciais das magníficas previsões de Cinara Mattos – a mesma que afirmou que o Coritiba não seria rebaixado no campeonato brasileiro de 2005, e que não seria campeão paranaense em 2008 – e Ubirajara Pinheiro sobre as principais seleções. Os dois mostram muito despreparo, impossibilitando verificar um critério entre ambos que não seja o ufanismo abundante.

Sobre a África do Sul, Cinara afirma: “A maior parte da torcida Sul-Africana será para o Brasil, eles sabem que não tem chance alguma. (...) Vão jogar bonito, até o meio da Copa”. Já Bira diz: “Não sei bem o que é classificação, o que é o primeiro, o quinto, mas a África não está entre esses

Quando o assunto é Brasil Bira conclui que “[o país] está em alta em tudo hoje, internamente, externamente. (...) Em qualquer coisa que o Brasil lidere no esporte, está lá entre os campeãos. [sic] 90% de chances do Brasil trazer o título pra gente.

Cinara segue outro raciocínio, mas chega ao mesmo resultado: “Vamos começar mal, vamos caminhando e chegando bem! Assim, tipo, a primeira fase a gente estará meio que, mal. (...) É o primeiro país que tem chance na Copa do mundo, é sempre assim, sempre o país primeiro nas cartas, o Brasil!"

Após eliminarem do caminho brasileiro a favoritíssima seleção espanhola, fuzilaram a Argentina, e até citaram um “homem” (ex-camisa 10 do Nápoli?):

Cinara: [sic] “Não tem harmonia. Eles estão se perdendo por causa de um homem. Não vai fazer bonito, não vai fazer nada, não chegará nem nas semifinais. Por hora...”. Bira: “Derrota total, não vejo chegando nesta disputa. Se for é com muito sacrifício, não acredito”.


Analisando a seleção francesa, a cartomante pergunta: “A França busca o quê? Tetra? Bi?"

Sobre Portugal seguem irredutíveis: “Não ganha nem taça, nem caneco, nem nada”, diz Cinara. “Não ganha do Brasil” arremata o sacerdote. Alemanha e Inglaterra irão fracassar, segundo eles. A final será entre Brasil e França, mas as cartas não mostram resultado: (sic) “Não dou resultado não, porque as carta não me dá resultado”.

Além da constante perseguição, certamente muitos especialistas em futebol ficar(i)am ofendidos.

Já disseram que Deus era brasileiro e, conseqüentemente, o Papa também é. Agora, não só reforçaram que o Tarot é verde-amarelo (e branco, e azul-anil), como anti-argentino.