quarta-feira, 23 de julho de 2014

Off-Topic (13)

Terminada a Copa do Mundo, é hora de fazer um balanço do torneio. Dentro de campo, temos pouco a apontar: o título ficou em ótimas mãos, e os selecionados de Argentina e Brasil, que começaram com imagens opostas, terminaram também vistos de maneiras diferentes. Mas ambos derrotados.

De acordo com a linha proposta pelo nosso blog, iremos nos focar na parte de fora dos gramados, mais precisamente com relação às torcidas e aos povos que se fizeram presentes nesse mundial.

Como já apontado pelo sociólogo Ronaldo Helal em postagem anterior, se agravou ainda mais a rivalidade Brasil e Argentina. Se, do lado brasileiro, isso sempre foi bastante aflorado, da parte dos argentinos a “surpresa” com a torcida contra dos brasileiros em TODOS os jogos fez aumentar o sentimento – ainda que os brazucas sigam abaixo dos ingleses na “preferência” dos Hermanos.

Entretanto, como costumamos dizer aqui, essa rixa está indo cada vez mais “muito além do futebol”.

Muitos foram os relatos indignados de brasileiros ao comentar sobre os argentinos, seja por seu comportamento nos estádios durante os jogos ou pela sua presença fora deles, naquilo que a imprensa oportunamente batizou de “invasão” antes mesmo da chegada dos vizinhos.

Pessoas me disseram, mais de uma vez, que ficaram profundamente irritados.  Um amigo próximo me disse: “o que vi, li e ouvi deles, é digno de asco”. Outra amiga, lamentou: “tentei gostar dos argentinos, mas não consegui”. E uma colega de trabalho decretou: “ficou provado como o povo argentino é &#%$@”.

Não se pode dizer que seja incompreensível. Houve, mesmo, motivos que em certa medida explicassem esses sentimentos.

Na partida entre Argentina e Bósnia, no Maracanã, dois argentinos foram presos após realizarem ofensas de cunho racista. No mesmo jogo, um grupo de argentinos pulou um muro no estádio indo a um setor para o qual não tinha ingresso. Em outro jogo, em Porto Alegre, um grupo bateu em um brasileiro e roubou-lhe a entrada.

Tivemos, também, inúmeros casos de brigas dentro dos estádios, muitas delas motivadas e iniciadas por argentinos, além de vandalismo nas arenas. Fora dos limites dos jogos, houve muitas reclamações dos brasileiros quanto à presença de argentinos nas praias do Rio de Janeiro, sem contar casos referentes ao trânsito e ingressos.

Por fim, os comentários racistas na internet, ofendendo brasileiros após a derrota argentina na final.

Argentino imita macaco para fotógrafo brasileiro
Em suma, foram muitas e variadas situações desagradáveis que infelizmente tiveram argentinos como protagonistas. Em nenhum momento questionamos isso, tampouco estamos fazendo defesa de tais atos.

Vocês tratam os argentinos como coitadinhos, uns santos”, dizem alguns. “Vocês escondem casos de ofensas e agressões da parte deles”, nos acusam outros. Há, ainda, quem nos cobre a cada MERDA que um argentino faça, como se nós tivéssemos responsabilidade e autoridade por outras vidas além das nossas próprias.

Não, absolutamente não.

O outro lado

Aqui, nosso objetivo não é mostrar que os brasileiros foram os maiores responsáveis por coisas ruins no mundial: nosso objetivo – como, aliás, é o objetivo geral deste blog, literalmente alternativo em terras brasileiras – será o de expor o outro lado da história, onde argentinos foram submetidos a situações vergonhosas, e a “grande mídia” (bem como as mídias covardes) não fez NENHUMA questão de mostrar.

Esse ódio que muitos brasileiros têm de argentinos vem da imprensa e da publicidade, em grande parte, e é transmitido por gerações. Assim, chega-se ao ponto de se odiar uma pessoa simplesmente por conta de sua origem, sem jamais tê-la conhecido. Aí, quando acontece uma Copa do Mundo no “seu” país e muitos daqueles que você odiava sem saber exatamente por que razão vem e aprontam, você se sente aliviado: “eu não falei?! eles são assim mesmo!!!”.

Briga entre argentino e brasileiro na praia de Copacabana
Daniel Cassol, brasileiro, gaúcho, escreve para o excelente site Impedimento. No texto “O que deu pra ver da final?”, contou que “Houve provocações e xingamentos dos dois lados, é bom que se diga. Lá pelo segundo tempo, com a cerveja emprestando valentia, houve prenúncios de brigas e alguns safanões. (...) fiquei prestando atenção no comportamento dos brasileiros presentes no Maracanã. Foi raivoso na maior parte do tempo (...). Ofensas gritadas com o fígado. Um comportamento besta”.

Ele ainda narrou uma história no mínimo curiosa: “No sábado, uma argentina moradora do Rio de Janeiro me contava que tentou levar o filho para assistir a uma partida da Copa com o colega de escola, brasileiro. “Não vejo jogo com argentinos”, foi a resposta.”. Alexandre Peniche, brasileiro, carioca, trabalha para uma das empresas parceiras da FIFA. Em e-mail ao blog, contou o que viu: “Vi 3 jogos da Argentina nos estádios. Vi brigas entre argentinos e brasileiros nos jogos que fui, mas devido a provocação mútua. Em momento algum brasileiro ou argentino partiam pra cima”.

Merisa Piras, brasileira, carioca, foi voluntária durante a Copa do Mundo no Maracanã. Em depoimento em sua página pessoal, disse: “Vocês não tem ideia do que eu vi estes caras [argentinos] aguentarem de provocação ontem no Maracanã. Fiquei com vergonha de ser brasileira por causa de alguns brasileiros. (...) Xingaram, chamaram pra briga e eles ficaram na deles. (...) E quero agradecer a dois argentinos que vieram ao meu socorro após eu ser quase agredida fisicamente por um bêbado brasileiro que teimava em entrar na fila preferencial”.

Acreditar que argentinos tenham sido responsáveis solitários por brigas e confusões nos estádios é, acima de tudo, desonesto (como desonesto seria afirmar que é “tudo culpa dos brasileiros”).

Ao longo da Copa, houve diferentes relatos de agressões de brasileiros a argentinos durante as partidas.

Neste vídeo, da BBC Brasil, é possível perceber que argentinos são agredidos durante a partida da semifinal, diante da Holanda. Neste outro, temos dois argentinos, sozinhos, sendo ofendidos e posteriormente atacados por um grupo de brasileiros nos corredores do Maracanã. Houve também esse relato de pai (64 anos) e filho (32), agredidos por torcedores brasileiros no jogo Argentina X Bósnia.
Pai e filho argentinos agredidos no Maracanã
Mais preocupante, porém, são as situações que aconteceram fora dos estádios, o que torna as ofensas e ataques inexplicáveis.

O alpinista Pedro Hauck, de Curitiba, conta em seu blog que estava caminhando pelas ruas da cidade com uma amiga argentina quando, ao perceber que eles estavam falando castelhano, um transeunte se aproximou e xingou-a de "puta", em seguida chamando-o para brigar.

Tivemos de tudo: um homem (brasileiro!) sendo assassinado porque trajava camisa da seleção argentina durante Brasil X Alemanha em Minas Gerais; um argentino baleado em bar de Porto Alegre; outro tendo os dedos da mão quebrados porque empunhava a bandeira de seu país, em Belo Horizonte; uma jornalista argentina empurrada e xingada no Rio, e o carro de um hermano sendo apedrejado em Brasília.
 
Comentários em cada uma dessas notícias afirmavam que os argentinos "sem dúvida mereceram", outros diziam que eles "devem ter provocado" ou que "argentino bom é argentino morto". O jornalista brasileiro Guga Chacra escreveu em seu twitter, após a vitória da Alemanha: "lamentável e deprimente a quantidade de tweets racistas contra os argentinos, inclusive de formadores de opinião".

Até que chegamos ao cúmulo de ver mexicanos espancados por serem “confundidos” com argentinos, na semana passada.

Diante de tudo isso, só podemos, pois, dar graças a Deus: Ele não permitiu uma final Brasil e Argentina.

O senso das proporções

O jornalista brasileiro Daniel Oticica, do blog “Argentina, etc”, aponta que a mídia argentina criticou bastante a realização da Copa do Mundo no Brasil, afirmando que “Lidera a lista [de argumentos] a morte violenta de 2 argentinos, figuras públicas na Argentina, ligados diretamente ao ambiente do esporte. Soledad y "El Topo" foram vítimas de fatalidades, produto da combinação de violência social e de trânsito”.

“El Topo” era o apelido de Jorge Luiz Lopez. O jornalista argentino, de 38 anos, morreu em um acidente de trânsito em Guarulhos: o taxi que o levava foi atingido por um veículo desgovernado, que era conduzido por criminosos em fuga, perseguidos pela polícia. Dois dos três personagens eram adolescentes. A esposa de Lopez relatou erros e omissões no atestado de óbito.

Soledad (cujo no completo era Maria Soledad Fernandez) – e outros dois colegas, também argentinos – morreu em outro acidente de trânsito, em Minas Gerais: a jornalista argentina, de 26 anos, faleceu quando o carro no qual ela estava capotou e caiu numa ribanceira de cerca de seis metros. Segundo foi apurado, o veículo de Soledad foi atingido por trás por outro automóvel, com intenção de roubo. Não houve préstimo de socorro.

O carro que atingiu o veículo da argentina seria encontrado pela polícia quilômetros depois, num posto de gasolina. Os dois homens que estavam dentro do Golf alegaram que foram atingidos por um caminhão. Eles já tinham passagem pela polícia. Foi feita a perícia e comprovou-se que era mesmo aquele o carro que causou o choque que vitimou os jornalistas.

Houve, ainda, registro de outros dois acidentes em estradas brasileiras envolvendo argentinos: num deles, ocorrido no Rio Grande do Sul, um Fiat Uno, carro dos argentinos, bateu na traseira de um trator (absolutamente proibido em estradas!) durante a madrugada, causando a morte de um dos passageiros e ferimentos graves nas outras duas pessoas que estavam no veículo.

No outro, ocorrido no Paraná, uma van que levava uma família de argentinos foi atingida por um veículo que tentava fazer uma conversão perigosa. Segundo a motorista do carro, ela “não viu a van”. Dessa vez, felizmente não houve vítimas fatais, ainda que seis pessoas tenham ficado feridas.

Família argentina que teve a van atingida por motorista brasileira
Como visto, TODOS os quatro acidentes foram causados por motoristas brasileiros. Seria, em alguma medida, justo que os parentes das vítimas acusassem “o povo brasileiro”?

A Copa teve 64 jogos: será que somente 7 tiveram problemas?

Um determinado jornalista, já citado aqui no blog algumas vezes e que é MUITO PIOR que o Galvão Bueno quando o assunto é a “rivalidade” com a Argentina, chegou a dizer que “turistas de TODOS os outros países vieram para torcer numa boa, MENOS os argentinos”. 

Uma covardia tremenda, para dizer o mínimo. 

Ele também falou que os brasileiros envolvidos em brigas foram atacados “a troco de ABSOLUTAMENTE NADA, no máximo um grito de pentacampeão”. Finalizando, afirmou que “não houve problemas EM NENHUM DOS JOGOS sem ser os da Argentina”.

Será, mesmo?

Que fique claro, novamente: não estamos dizendo que sejam inventados ou falsos os depoimentos. Aliás, lamentamos profundamente por quem tenha sido agredido, física ou moralmente, por algum argentino durante essa Copa. O que estamos falando é sobre as generalizações e, mais que elas, a total falta de vontade de conhecer outras possibilidades.

Em primeiro lugar, é importante lembrarmos que estádios de futebol não são ambientes onde se espera o melhor das pessoas: há muito passaram a ser locais hostis, de ofensas verbais, gestuais, e palco de agressões físicas.

Some-se a isso o fato de não haver qualquer espécie de divisão de torcida (fato absolutamente INÉDITO no brasil e que NUNCA tornará a acontecer nem mesmo em jogos de campeonatos estaduais). Mais uma: lembrem-se que a FIFA OBRIGOU o governo brasileiro a LIBERAR a venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios, fato que é CONTRA A LEGISLAÇÃO!

Como depoimento pessoal, posso falar somente sobre o jogo Argélia e Rússia. Nele, vi três argelinos serem presos, um por haver acendido um sinalizador após o gol da seleção argelina, e dois por terem lutado com os seguranças que vieram retirar o autor do disparo.

Mais próximo de mim, numa região da Arena da Baixada que parecia ser meio “vip”, em três momentos distintos foram vistas pessoas se levantando e xingando uns aos outros, até que viessem novamente os seguranças e os arrastassem – muitas vezes, era preciso dois ou três para conter os brigões.

Esses torcedores não eram nem argelinos nem russos: alguns usavam uma camisa amarela com detalhes verdes, outros trajavam roupas de diferentes cores, outros vestiam camiseta dos times locais.

Meu irmão foi ao jogo Austrália x Espanha e viu também diferentes focos de briga, até mesmo entre australianos e seguranças.
Briga entre espanhóis e brasileiros em Curitiba
Portanto, tivemos “100% de aproveitamento” nos jogos, sem que nenhum deles envolvesse argentinos. Que coisa, não?!

Chilenos, Colombianos, Uruguaios, Mexicanos, Franceses...

Fazendo uma rápida e simples pesquisa sobre ocorrências policiais e afins nos jogos da Copa do Mundo de 2014, percebe-se que não houve apenas uma ou duas, mas várias nacionalidades envolvidas em situações lamentáveis. Dentro dos estádios e fora deles.

Mexicanos, por exemplo: no jogo contra a Croácia, houve briga generalizada; em outra partida, contra Camarões, torcedores invadiram um setor de vendas e roubaram cervejas; Na partida diante do Brasil, dois foram presos por agressões a policiais; e após a eliminação diante da Holanda, brigas nos arredores do estádio.

Uruguaios também se envolveram em várias situações nas partidas da Celeste: houve brigas nos confrontos do Uruguai contra a Itália e também diante da Inglaterra; e na eliminação, contra a Colômbia, torcedores foram expulsos do estádio e houve muitos feridos em confrontos nos corredores.

Colombianos não tiveram situações dessa natureza somente contra o Uruguai, quando dois deles foram presos por invadirem o estádio: na partida diante da Costa do Marfim, um grupo foi preso após abordagem policial.

Os vizinhos chilenos ficaram marcados pela invasão ao Maracanã, onde havia mais de 80 envolvidos. No jogo contra a Austrália, em Cuiabá, um torcedor foi preso ao soltar rojões, mesmo motivo que levou um compatriota à detenção na Fan Fest do jogo contra a Holanda. Ainda, quatro foram presos por uso de credenciais falsas.

Não foram somente latino-americanos: no Rio, houve vários focos de briga no jogo da França contra a Alemanha, resultando em policiais feridos e franceses presos. Oriundos da França também foram detidos vendendo ingressos ilegalmente antes da Final ao redor do Maracanã.

Cada um dos países citados acima também teve nativos envolvidos em outros casos vergonhosos, fora dos gramados: mexicanos foram presos após assediarem sexualmente uma brasileira e outros por venderem ingressos falsos. Uruguaios invadiram o hotel onde a seleção estava e deixaram parte do patrimônio depredado.

Houve prisão de colombianos por pichação de prédios em Belo Horizonte, brigas e assaltos na capital mineira, além de venda ilegal de ingressos. Em algumas dessas vendas também estavam envolvidos franceses. Outro francês foi preso por porte de drogas e tentativa de suborno. Já chilenos figuraram nas páginas policiais do país por furtos no Rio de Janeiro e em Brasília, além de um grave caso de estupro no Mato Grosso.

Há outras situações relacionadas às nacionalidades citadas e também a outros vários estrangeiros (um espanhol foi preso com 4 garrafas de cocaína em Florianópolis, outro vendendo ingressos falsos no Rio de Janeiro, e oriundos daquele país teceram comentários racistas na internet; dois alemães foram detidos por conta de briga em Brasília, um terceiro por venda ilegal de ingressos em Belo Horizonte, e outros dois foram presos no aeroporto de Guarulhos ao roubar uma obra de arte).

Seria absolutamente covarde, nojento e torpe se alguém, baseado nessas informações, dissesse que “não gosta de chilenos porque eles são assim...”, acha que “os franceses são todos daquele jeito...”, que os uruguaios são isso, os colombianos aquilo, mexicanos não sei o quê...

Isso não existe.

“As acusações pareciam tão excessivas que, com medo de cometer uma injustiça, fiquei em um estado de incerteza (...). Parecia, à primeira vista, que só uma parte “deles” aprovava essas atitudes e que a grande maioria condenava aqueles princípios (...). Porém, mesmo que eu ainda tivesse algumas dúvidas, todas elas acabavam diante da atitude de alguns “deles”. (...) Poderia haver algum problema em que pelo menos um “deles” não estivesse envolvido?”

(Adolf Hitler, no livro ‘Minha Luta’, falando sobre os judeus)