quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Raça X Nacionalidade (31)

Há 8 anos, a Fox levou ao ar um polêmico episódio da famosa série "Os Simpsons", retratando uma visita da família ao Brasil.

Há uma série de ideias preconcebidas com relação ao Brasil, mas levá-las a sério é algo um tanto extremado, pois o desenho é famoso por fazer ironias - bastante pesadas - principalmente aos EUA, e ao "American Way of Life" (aliás, a família em si já é uma paródia do modo de vida americano).

Acontece, porém, que no Brasil a reação foi a mais odiosa possível, por parte das autoridades - inclusive do ex-presidente FHC: pedidos de retratação de Matt Groening (autor) e da rede de televisão que veicula o seriado foi apenas o começo.

Pouco tempo depois, no entanto, estava tudo normalizado, e a série só fez aumentar sua audiência, ora sendo transmitida no SBT, ora na Globo, ora na Band.


Pesquisando na internet sobre a história, encontramos esse artigo publicado no site "SOS Hollywood": "Jornalista Argentina fala mal do Brasil".

Trata-se, mais uma vez, daquela velha questão que retratamos nos posts sobre atitudes racistas no futebol: quando é qualquer outro, esquece-se, relativiza-se; mas se é um argentino...

Mas o que, de tão mal, fez Paula Gobbi (a jornalista em questão)? Disse que "[os brasileiros] são como adolescentes e ainda não sabem receber críticas" - ela falava sobre a reação pública ao episódio supracitado. Ainda, disse que "há, sim, macacos no Rio de Janeiro, e as autoridades quererem negar isso é absdurdo".

Essa mesma citação de Gobbi saiu em uma matéria do Washington Post, publicada ainda em 2002, e assinada por Anthony Faiola. A(s) frase(s) de Gobbi ocupa(m) apenas um parágrafo, e há outros trechos ainda mais críticos que foram ignorados pelo site, pelo menos em se tratando de "overreaction".

Nem todos os comentários foram 'ressentidos' mas como não poderia deixar de ser, tivemos leitores revoltados com a "humilhante" opinião de Gobbi. Alguns chamam atenção:


"concordaria com ela apenas se ela fosse de outro lugar, que não a Argentina."

"Qualquer coisa vinda de um estrangeiro (sobretudo um argentino) deve ser repudiado com veemência."

"Alguém por favor manda ela de volta pra Argentina"

"Brasileiro falando mal do Brasil eu aceito,mas estrangeiro e principalmente,uma argentina!!!NÂO ACEITO,NÂO ACEITO E NÂO ACEITO."

"O ódio q/ tenho da Argentina é tão grande..."

"Aliás é o que Argentino faz melhor pois eles tentam ser europeus e continuam terceiro mundo! (eita raça!)."

"Os argentinos são oa mais racistas da américa latina, racistas, arrogantas e falsos….Só conheci dois argentinos gente fina e isso porque um deles era mestiço."

3 comentários:

  1. Fico assustado com essa "transferência" de responsabilidades e a forma com que desvirtuam as "discussões".

    Acho correta a postura do Presidente FHC, como maior autoridade do Estado, de qualquer forma mexe com os nossos brios.

    Só que as ofensas ao nosso país foram deixadas de lado, a partir do momento em que uma argentina se posicionou na situação, isso sim é preocupante...

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  2. Ronaldo Albuquerque17 de setembro de 2010 18:17

    Caros,

    Gostaria de pontuar que, do modo como esse artigo foi escrito, fica a impressão de que o SOS Hollywood editou ao bel prazer a matéria do Washington Post "e há outros trechos ainda mais críticos que foram ignorados pelo site".

    A leitura adequada e correta do texto deixa clara que a fonte que gerou a matéria foi o Especial de 20 Anos de Os Simpsons. Discordo totalmente da acusação de "overeacting", ou exagero, no bom e velho português.

    Houve uma análise de um fato. O site prestou seu serviço. Portanto sugiro que, no futuro, quando for criticar ou analisar o trabalho de outrem, o faça com critério e profundidade. Sem esses fundamentos, sua crítica se torna tão exagerada e tendenciosa quanto o "preconceito" que seu blog denuncia.

    Grato,
    Ronaldo Albuquerque

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  3. Caro Ronaldo.

    Obrigado pela participação, porém, permita-nos explicar a discordância e o porquê dela.

    O título da matéria é "jornalista argentina fala mal do brasil".

    Pronto, com isso, os leitores já se multiplicam, pois chama a atenção quando alguém "assim" fala mal do 'nosso' país. Além de que essa ideia de que argentinos -todos- odeiam o Brasil e-todos- os brasileiros é algo que precisa ser (re)afirmado constantemente.

    Há coisas no texto do Washington Post (onde, repetimos, Paula Gobbi foi apenas uma dentre muitas fontes) que o texto do SOS Hollywood não citou que são mais ofensivas que a declaração da vizinha:

    "Average Cariocas themselves are hardly the height of modesty".

    O que é pior: chamá-los de arrogantes ou de mimados?

    "The monkeys marauding around Copacabana in the sitcom, for instance, struck many Cariocas as a low-blow reference to their status in the developing world. Some officials even took it as a racial slur against the city's Afro-Brazilian population. Yet Rio is indeed home to the globe's largest urban green space, with more than 80,000 acres of lush jungle whose creatures cohabit with cosmopolitan life. Spotting wild monkeys here is not exactly rare."

    Essa frase é do editorial, e não de Paula Gobbi, que foi usada para reforçar a ideia.

    "Crime, unabashed sexuality and severe poverty are indeed part of the fabric of life in Rio, and actually in most of Brazil. This nation has never been quite sure of its place in the world, and still smarts from a decades-old quip, attributed to Charles de Gaulle, that Brazil is the county of the future, and always will be."

    Novamente, acho que vocês esqueceram quem deveriam criticar. Me desculpe, mas o texto do SOS Hollywood é muito mais brando quanto ao episódio em si e à matéria do W.Post do que com as duas frases de Gobbi.

    fora isso, há epítetos no texto, lançados com relação à jornalista, que comprovam o objetivo de crítica a ela, e não àquilo que deveria ser criticado:

    "o tom blasé com o qual analisou o episódio"

    "generalizou e apresentou uma postura cheia de desdém ao “julgar” uma cidade e um povo..."

    "uma análise parcial e deslocada como a feita por Paula Gobbi, reforça ainda mais a idéia errônea de que os brasileiros não passam de maltrapilhos subdesenvolvidos"

    Por fim, outra coisa que você não percebeu, ao colocar entre aspas - recurso da ironia - o preconceito que combatemos, é que muitos leitores até concordaram com a jornalista, mas por conta da origem da mesma é que não puderam admitir tal fato.

    Sem contar que nem perceberam que Matt Groening não se chama "Matías" e não é 'gaucho' e o Washington Post não é um periódico de Buenos Aires.

    Abraços!

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