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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Off-Topic (22)

“Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”
(Nicolau Maquiavel)


Ultimamente, basta abrir qualquer rede social ou ligar a TV para ver a mesma frase repetida como se fosse uma verdade absoluta: "A Argentina é o país mais racista do mundo". ​O estopim para essa onda recente de indignação internacional veio de fora. Declarações de figuras globais (como o ator americano Samuel L. Jackson) e editoriais de jornais como o The Washington Post passaram a cobrar publicamente a ausência de jogadores negros na Seleção Argentina.


​Do dia para a noite, o debate tomou conta da internet. Virou tempestade de memes, trocas de ofensas e acusações pesadas entre brasileiros, americanos e argentinos. ​Mas será que essa história é simples assim?... ​A ideia aqui não é passar pano para os episódios lamentáveis de racismo que vemos nos estádios sul-americanos, e que precisam ser punidos com rigor. (Aliás, nesse aspecto o Brasil dá exemplo à Argentina, pois é mais rigoroso na definição e na punição de crimes de injúria racial apesar de tentativas recentes no Congresso).


Nosso objetivo é fazer algo que a internet quase nunca faz: olhar para os dados reais, para a história e para a geopolítica por trás dessa discussão.



​O "cancelamento" da Argentina, o rage bait e a hipocrisia dos influenciadores


​Para entender por que essa conversa explodiu com tanto vigor justamente agora, a gente precisa olhar para o cenário geopolítico mundial.


​Com a chegada de Javier Milei à presidência, a Argentina adotou um alinhamento político escancarado com figuras como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Benjamin Netanyahu, em Israel. Isso colocou o país bem no meio da mira dos algoritmos de engajamento por indignação – o famoso rage bait. Levantamento comprova que a maioria dos comentários "anti-argentinos" veio de EUA e Brasil.


​A conta fechou perfeitamente para vários lados: para a bolha progressista dos EUA, atacar a Argentina virou uma obrigação moral, projetando sobre o país vizinho a lógica do ativismo americano. ​Para o público do Oriente Médio, o ataque ao futebol argentino (sobretudo depois do polêmico Argentina x Egito, que misturou reclamações de arbitragem e acusações de racismo com base nos supostos erros!) virou uma resposta política direta à posição do governo Milei em relação a Israel. Por fim, para o torcedor brasileiro foi o pretexto perfeito para misturar a histórica rivalidade do futebol com a polarização ideológica de casa.


​O resultado? O racismo (um problema real e sério, manifestado de diversas formas) virou munição e álibi para uma disputa geopolítica gigantesca.


​O espetáculo seletivo da internet: o caso IShowSpeed


​Quer uma prova de como o tribunal dos algoritmos opera com hipocrisia e caça de engajamento? Veja o exemplo do streamer americano IShowSpeed.


​Por um lado, o influenciador foi vítima de racismo em estádios internacionais e a internet ruiu em indignação (com toda razão, pois qualquer agressão racial é inaceitável e criminosa). Porém, a mesma internet que exige pureza moral convenientemente ignora o histórico do próprio Speed, que já protagonizou cenas pesadíssimas de xenofobia contra torcedores asiáticos em plena Copa do Mundo e declarações abertamente misóginas em suas lives.



​Isso escancara que, na lógica das redes sociais, a indignação moral raramente é sincera: ela é apenas um espetáculo em busca de cliques.

​[Neste link, Speed chama seu jogador adversário de "MONKEY" (antes o havia chamado de nigga) e, em seguida, profere os mais abomináveis palavrões e menções a uma mulher que adentrou a sala virtual]


​Onde estão os Negros na Argentina?


​Um dos argumentos mais repetidos é que a Argentina "esconde" seus cidadãos negros ou que a seleção faz uma limpeza no vestiário. Só que a explicação para a cara do time argentino não é uma conspiração: é pura demografia.


​Segundo os dados oficiais do último Censo do INDEC (o IBGE argentino), as pessoas que se declaram afrodescendentes no país representam menos de 0,7% da população total.

​Diferentemente do Brasil, que recebeu cerca de 4,8 milhões de africanos escravizados durante o tráfico transatlântico (mais de 40% de todo o tráfico das Américas), a região do Rio da Prata recebeu um número absurdamente menor: por volta de 200 mil.


​Para completar, no final do século XIX, aconteceram três fatores mudaram o mapa humano da Argentina:


1 - Surto de Febre Amarela: a epidemia de 1871 devastou os bairros mais pobres de Buenos Aires (como San Telmo e La Boca), onde a maioria da população afro-argentina vivia sem saneamento.


​2 - a Enxurrada de Imigrantes Europeus. Entre 1880 e 1930, a Argentina recebeu mais de 6 milhões de italianos e espanhóis. Em um país com pouca gente, essa massa diluiu a proporção de negros quase instantaneamente.


​3 - Miscigenação e Assimilação: a mistura entre homens europeus e mulheres afro-argentinas foi imensa, gerando um processo rápido de integração e diluição física ao longo das gerações.

​O que dizem os negros que vivem na Argentina? Enquanto influenciadores de fora cravam o "cancelamento" do país, a realidade relatada por negros que moram na Argentina traz um tom muito diferente.

​Em canais de criadores negros – como no caso do canal Argentina con John (um morador vindo do Haiti) e em debates da própria mídia local (como no programa Cuiatv) –, o relato predominante de quem vive no país não é o de um ambiente de hostilidade ou segregação diária.

​John, por exemplo, conta que mora na Argentina há mais de 15 anos e destaca o acolhimento, a facilidade de integração e como convites para churrascos e mate são a regra no convívio social. Ele aponta que o termo "negro" costuma ser usado no país até entre pessoas brancas como forma de tratamento afetuoso ou informal - algo que assusta quem chega de fora, mas que faz parte da dinâmica cultural local.

​Muitos imigrantes africanos e caribenhos reforçam que o preconceito na Argentina ocorre em episódios isolados e que não sofrem "mais racismo" lá do que o preconceito ou a xenofobia que enfrentariam em outros cantos do mundo ou até em seus países de origem.

​Nos programas de debate locais, quando a comunidade afro-argentina e imigrantes se sentam para discutir o tema, a conclusão dominante é clara: existem problemas estruturais e ignorância de indivíduos isolados, mas transformar a Argentina em um "pântano inóspito" é uma caricatura de quem analisa o país pela tela do celular.

"Telhado de Vidro"

​Quando analistas americanos e brasileiros apontam o dedo para a Argentina, costumam esquecer a história do racismo dentro da própria casa.


​Os Estados Unidos criaram um sistema de segregação jurídica brutal baseado na famosa regra da "uma gota de sangue" (one-drop rule). Essa régua colocou a sociedade em caixinhas raciais rígidas, onde a leitura da cor de pele é tão viciada que gera situações surreais.



​O próprio astro da NBA, Kevin Durant - que supostamente teria "protestado" contra os argentinos, se recusando a cumprimentá-los em um evento um dia antes da Final, fato depois esclarecido -, admitiu em um podcast que, quando ouviu falar de Stephen Curry na juventude, achou que Curry era branco apenas por ter a pele mais clara.


Se até uma das maiores estrelas do basquete americano enxerga a diversidade do seu próprio país por um filtro tão raso e estereotipado, como esperar que essa mesma imprensa entenda a miscigenação da América Latina?


charge de jornal paraguaio à época retrata
as autoridades brasileiras como macacos.

​Já o Brasil apostou no mito da "democracia racial" enquanto tentava apagar a população negra na prática. Além de ter ensinado durante DÉCADAS nas escolas do país os BIZARROS termos mulato, cafuzo e mameluco - literalmente afirmando que havia raças diferentes (não apenas a humana) e, por consequência, seres híbridos -, no famigerado Congresso Internacional das Raças, em 1911, o cientista brasileiro João Baptista de Lacerda apresentou uma tese prevendo que a miscigenação e o branqueamento incentivados pelo Estado extinguiriam a raça negra no Brasil até o ano 2012.


Na Guerra da Tríplice Aliança (correto, Presidente Lula?), o Império do Brasil mandou milhares de escravizados para o front com a promessa de alforria os chamados "Voluntários da Pátria". Cartas do próprio Duque de Caxias mostram o pavor da elite brasileira ao ver um exército de homens negros armados e treinados, temendo que eles voltassem e fizessem uma revolução no Brasil.


charge de jornal paraguaio retrata o exército brasileiro

​Em outras palavras, se a população negra e parda no Brasil continuou sendo maioria, não foi por "benevolência" das elites, mas porque o volume de africanos trazidos para cá era grande demais para ser apagado.


​O futebol nos números: a CONMEBOL e a realidade brasileira


​No campo de jogo, os números mostram dois lados da mesma moeda.


​Na CONMEBOL, os dados do Observatório da Discriminação Racial no Futebol mostram que, entre 2022 e 2023, foram abertos 41 processos por racismo na Libertadores e Sul-Americana. Desses, 23 casos (56%) vieram de torcedores argentinos contra times brasileiros.


​Isso escancara um vício cultural dos estádios argentinos, que durante décadas trataram ofensas raciais como "folclore de cancha" (provocação de torcida) e agora tomam um choque de realidade com as punições financeiras da CONMEBOL e as leis brasileiras.


​Como chumbo trocado não dói, o mesmo Observatório revelou que, só em 2023, aconteceram 136 casos de racismo dentro dos estádios brasileiros. Foi um salto de 51% em relação ao ano anterior, envolvendo ofensas contra nossos próprios jogadores, técnicos e árbitros.


​A provocação que fica é simples: com mais de uma centena de crimes de racismo por ano nos nossos próprios gramados, o Brasil tem moral para se colocar como o juiz ético da América do Sul?


​Três histórias reais para entender o debate


​Para sair das caricaturas de redes sociais, vale a pena conhecer três personagens que ajudam a entender como a história e a imigração se cruzam na Argentina.


​María Remedios del Valle: A Mãe da Pátria


​Você provavelmente nunca ouviu esse nome na escola, mas ela foi uma mulher negra que lutou de armas na mão nas Guerras de Independência da Argentina. O lendário General Manuel Belgrano a nomeou Capitã do Exército por sua coragem. Recentemente, a Argentina resgatou sua história: ela ganhou monumentos e o dia da sua morte (8 de novembro) virou o Dia Nacional dos Afro-argentinos.


​Bayan Mahmud: o menino de Gana no Boca Juniors

​Garoto nascido em Gana que chegou à Argentina ainda criança e acabou entrando para a base do Boca Juniors no início dos anos 2010. Ele se naturalizou argentino e sua história virou capa de grandes veículos esportivos na época, mostrando a curiosidade e o interesse da imprensa local em cobrir a adaptação dos novos imigrantes africanos no futebol do país.

Kiki Ramos: a pauta do momento


​Um atacante de origem haitiana que vem se destacando no futebol argentino. A ascensão dele gerou um debate curioso no Brasil, com setores da imprensa e torcedores especulando se a projeção dele não seria uma "jogada de marketing" ou uma "resposta encomendada" para aliviar as críticas internacionais sobre a falta de negros na seleção. Alguns canais de YouTube chegaram a criar uma asquerosa fake news, afirmando que "a torcida está revoltada com a presença do jogador", chegando a pedir sua expulsão (sic).

Essa desconfiança mostra como a paranoia e a rivalidade distorcem a forma como enxergamos a formação real de um atleta.

​Moral da História


​Tratar a Argentina como "o país mais racista do mundo" é uma narrativa rasa e politicamente conveniente.


​O racismo e a xenofobia nas arquibancadas argentinas são problemas sérios que precisam ser punidos com o rigor da lei e das federações. A própria sociedade argentina está sendo forçada a encarar essa mudança cultural.


​Porém, ver os Estados Unidos (com seu histórico de segregação legal) e o Brasil (com seus mais de 100 casos anuais de racismo nos estádios) vestirem a toga de juízes morais da América Latina revela um nível de hipocrisia que só a internet e a geopolítica conseguem criar.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Muito Além do Futebol... (109)

O estranho caso de um país em que um apresentador com milhões de seguidores, num canal de concessão pública, pode dizer abertamente que tem "Pensamentos intrusivos" e que "odeia" um país.


Mas é piada. "Eles" é que são racistas, preconceituosos e xenófobos.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Propagandas (79)

As publicidades continuam num tom ameno e correto na brincadeira com a rivalidade.

O nível de qualidade é que não é lá essas coisas 😂😂😂

domingo, 3 de junho de 2018

Propagandas (78)

Por enquanto -- e não sabemos até que ponto isso reflita entusiasmo genuíno com a seleção, ou uma mudança no pensamento da publicidade brasileira --, tivemos poucos comerciais falando da Argentina em ações pré-copa.

E o que teve foi bem humorado e positivo, como este da Snickers, estrelando Ronaldo -- foi inclusive ressaltado em telejornais sul-americanos, como se pode ver no vídeo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Isso é Jornalismo? (61)

Começaram as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018.

O Brasil foi derrotado pelo Chile, por 2 a 0, e a Argentina perdeu para o Equador, pelo mesmo placar.

Estreia ruim para ambas as seleções.

Quer dizer, pro Brasil não foi tão ruim assim, não...

Home do UOL

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Duetos (96)

"Passa em Buenos Aires" é leitura obrigatória para
quem quer saber mais sobre a Argentina

O ótimo blog "Passa em Buenos Aires" é gerenciado pelo brasileiro Manoel Giffoni. Clique para conhecer o perfil dele aqui.

Na matéria "Os argentinos não são assim, não", ele conta sobre o pós-Copa, o que sentiu, o que achou que fosse acontecer, e as experiências verdadeiras que teve.

"Me perguntei: será que aquele sorriso genuíno que brotava no rosto dos hermanos cada vez que eu dizia que era brasileiro, vai dar lugar a uma cara emburrada? Devo dizer, caros amigos: temi! (...) Mas devo confessar-lhes: era paranoia".

Vale cada linha da leitura!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Off-Topic (18)

*Postagem número 500 da história do blog.

"Cântico ofensivo". "Música agressiva". Muitas foram as maneiras que torcedores e imprensa brasileiros descreveram o "grito de guerra" entoado pela torcida argentina durante a Copa do Mundo.

Segue a letra:
Brasil, décime que se siente / tener en casa tu papá! 
Te juro, aunque pasen los años
Nunca nos vamos olvidar!
Que el Diego te gambeteó / y el Cani lo vacunó
Están llorando desde Italia hasta hoy!
A Messi lo van a ver
La Copa nos va a traer
Maradona és mas grande que Pelé!
Traduzindo livremente os versos, temos o seguinte: "Como vocês se sentem, brasileiros, recebendo na sua casa o seu chefe? Nós juramos: passe o tempo que for, nunca esqueceremos que Maradona os driblou e Caniggia fez o gol... não pararam de chorar desde então! Vocês irão ver o Messi levantando a Copa do Mundo, e Maradona é maior que Pelé".

Qual parte (ou seria toda a canção?) é realmente ofensiva, ataca a moral e a história do Brasil e seu povo?

"Chorando desde Itália até hoje"

Um trecho que demonstra um erro de interpretação é o "desde Itália...". Muitos comentários na internet, à época, davam a entender que seria uma referência à derrota da Seleção brasileira na Copa de 1982, para os italianos, episódio conhecido como "Tragédia de Sarriá" e eternizado na imagem da capa do Jornal da Tarde.
José Carlos Villela Jr., então com 10 anos de idade, foi
símbolo da tristeza que assolou o país naquela data.
Não, a canção não fala sobre aquele jogo: fala das oitavas-de-final da Copa de 1990, que aconteceu em território italiano, quando a seleção da Argentina eliminou o time do Brasil após vencer a partida por 1 a 0, gol marcado por Caniggia (el Cani) concluindo jogada individual de Maradona (Diego).

"Estão chorando até hoje". Sim: imprensa e torcida ainda falam da partida sem nenhum apuro dos lances e análise das qualidades individuais: fala-se tão somente da "água batizada". Fala-se que a vitória foi imerecida. Fala-se que todos os atletas foram "dopados". Fala-se que foi um roubo. Enfim...

Muito diferente das palavras do próprio jogador envolvido na situação, o lateral esquerdo Branco: "Já falei sobre isso... tomei a água e me senti muito tonto. Mas sempre reconheci, também, que a Argentina não nos eliminou por isso, e sim pela jogada genial de Maradona".

Na verdade, a seleção brasileira foi até mesmo beneficiada pela arbitragem: em chance clara de gol de Caniggia, um impedimento absolutamente inexistente foi marcado eno primeiro tempo, e a compilação abaixo mostra a total passividade do árbitro no que tange às faltas e cartões - o próprio Branco deveria ter sido expulso, após falta violenta acontecida nos acréscimos:



"Maradona é maior que Pelé"

A segunda estrofe da canção também foi muito criticada por brasileiros: "eles vêm aqui e dizem que Maradona é maior que Pelé! Como ousam?!".

Esse assunto já foi muito, muito debatido por aqui: 1) brasileiros acham inadmissível o comparativo com outro jogador -- Pelé seria um atleta absolutamente superior, muito melhor que tudo e todos -- e 2) conta-se que só e unicamente "os argentinos" acham Maradona tão bom assim.

Não vem ao caso rebater tais afirmações. Porém, vale lembrar que a resposta da torcida brasileira à canção argentina foi uma paródia de uma melodia polonesa, e conta com a seguinte letra: "Mil gols, mil gols, mil gols, mil gols... Só Pelé, só Pelé, Maradona cheirador!".

Uma comovente criatividade, e tom semelhante, certo?

Mas o estranho, mesmo, foi ver a torcida brasileira citando e exaltando Pelé. Nem na música popular, muito menos nos cânticos de estádios, o nome do rei do futebol é usado. Já Maradona, é presença constante tanto no cancioneiro argentino quanto nas músicas das "hinchadas".

De repente, a mesma nação que sempre menosprezou (e continua a fazê-lo) aquele que é seu maior ícone no esporte, o usa como escudo para enfrentar as "ofensas" argentinas.Sobre esse assunto, vale ler a excelente crônica de Bob Fernandes: "Brasil despreza e não merece Pelé".



Uma segunda canção criada por torcedores brazucas durante o torneio falava de Pelé. Um trecho: "Se você é argentino, então vai tomar no cu!".

"A musiquinha deles"

"Eles já se foram há algum tempo. Levaram para casa seus cânticos provocativos." É assim que a reportagem do 'Bom dia, Brasil' (exibida em agosto) se referiu aos torcedores argentinos e à canção 'Décime que se siente'.

Entretanto, não se tratava de uma matéria feita para lembrar a maneira que os hermanos torceram por sua seleção durante a Copa do Mundo: a produção mostrou as mais variadas paródias feitas por torcidas organizadas dos times brasileiros.

Após serem reproduzidas as versões de corinthianos, flamenguistas, gremistas e muitos outros, a apresentadora do telejornal conclui: "finalmente aquela musiquinha irritante foi melhorada aqui pelas nossas torcidas".

Melhorada?!

Depois da exibição do programa global, outras torcidas criaram suas versões. A do São Paulo Futebol Clube, por exemplo, menciona uma suposta homossexualidade de atletas que joga(ra)m pelo Corinthians.

O jornal argentino Olé também falou da nova febre nacional, com a seguinte manchete: "Agora eles gostam". O diário grafou: "o hit argentino segue tocando, mas o que mais surpreende é que está sendo cantado pelos próprios brasileiros"

No fundo, talvez a canção argentina tenha incomodado tanto o povo brasileiro porque, diferentemente do que acontece por lá, aqui não existe a cultura de se torcer pela seleção.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Isso é Jornalismo! (68)

Matéria publicada pela Rede Brasil Atual durante a Copa do Mundo fala sobre algo que já comentamos várias vezes no blog: "Rivalidade de argentinos é maior com uruguaios e ingleses do que com brasileiros". Vale a leitura.

Argentinos em Porto Alegre: "A rivalidade existe, mas não há clima hostil, diz a prefeitura"

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Off-Topic (16)

O preconceito do bem

Certa vez, numa aula de Literatura, o Professor afirmou: “também existe o preconceito do bem, sabiam?”. A turma fez aquela tradicional cara de paisagem, então o Mestre continuou: “Sim: preconceito não é apenas ter imagem ruim de grupos, pessoas: também pode haver imagens boas que são preconceituosas”. O silêncio continuava, e ele prosseguiu: “É, isso mesmo! Vou chocar vocês agora: sabiam que tem japonês vagabundo, safado, criminoso? Pois é! Nem todo japonês é honesto e educado, tem muito fdp por lá também”.

Verdade: há milhões de japoneses prestativos, humildes, amigáveis e solidários. Mas há, também, muitos facínoras, desumanos, lunáticos, pervertidos, fraudadores e mentirosos (todas as notícias linkadas são recentes). Em resumo, um japonês não é “uma pessoa melhor” por ter os olhos puxados ou porque nasceu naquela ilha de 378 mil km²: o que acontece é que, lá, contravenções e crimes menores são punidos mais rigorosamente, e há maior e melhor acesso à educação.

Porém, nem isso impede que o mau-caráter muitas vezes vença e vigore.

Conca: jogador que mais atua no Campeonato Brasileiro
Falando sobre Argentina e Brasil, temos pelo menos dois “preconceitos do bem” bastante difundidos.

Quatro anos atrás, Muricy Ramalho teceu elogios ao jogador Darío Conca, falando sobre sua dedicação e doação à equipe do Fluminense: “não perde nenhum jogo, é o que mais treina, não fica questionando”. O treinador viu nessas qualidades individuais do meio-campista uma característica inata dos argentinos: “Isso é do argentino. Os clubes europeus preferem [jogadores argentinos] porque eles não reclamam de saudade, não sofrem com o frio, não ligam pra comida, se o bife está duro” -- distinção semelhante foi feita pelo técnico uruguaio Gerardo Pelusso.

Conca não é propriamente uma exceção – vários argentinos, no futebol brasileiro ou europeu, e em diversas outras profissões, demonstram essa “capacidade de adaptação”, maturidade e devoção aos compromissos –, porém, existem muitos argentinos preguiçosos, mimados e inconvenientes.

Brasileiros: um povo feliz e acolhedor
Quanto aos brasileiros, o preconceito do bem mais comum certamente é aquele do “povo alegre e amistoso”, que em último grau vai se confundir com a “receptividade” a diferentes culturas, etnias, religiões, etc. Seguramente muitos estrangeiros e minorias se sentiram acolhidos no Brasil, mas tratar isso como um fato não passa de propaganda e pode ser bastante perigoso, não à toa existem estudos e análises sobre esse mito.

Conforme dissemos no texto sobre o Mundial, a Copa do Mundo realizada no Brasil fomentou e reforçou muitos estereótipos. Dentre essas muitas imagens, uma, positiva, foi a mais propagada: a dos “alemães bonzinhos”.

Os elogios começaram muito antes, falando da simpatia de Schweinsteigger, Klose e companheiros. Lukas Podolski, por exemplo, assumiu a alcunha de “meio brasileiro”, postando mensagens em português e fotos interagindo com a cultura local (da novela à feijoada) em seu Instagram. No entanto, surgiu na internet uma epidemia de pequenos textos falando da hombridade e "caráter superior" dos alemães.

Lukas Podolski, "o mais brasileiro dos alemães"

Já antes da humilhante vitória por 7 a 1, “bombou” o seguinte post:

"Vou torcer para a Alemanha. Por que?
Há 6 meses, os alemães chegaram e…
- Compraram um terreno,
- Construíram um hotel,
- Construíram um centro de saúde,
- Construíram um campo de futebol,
- Doaram uma ambulância,
- Criaram um programa de escola em tempo integral em Cabralia,
- Fizeram uma estrada para interligar o centro de treinamento,
- Não trouxeram funcionários alemães, contrataram as pessoas da cidade,
- Gerando 250 empregos diretos no local de treinamento,
Depois a seleção alemã chegou e…
- Quando não estavam treinando, estavam socializando com as pessoas na cidade e na praia,
- Participaram de festas com a população,
- Interagiram com os índios e atenderam suas demandas,
- Vestiram a camisa do time local (o Bahia),
Dá pra não torcer pra esses caras?"

bandeira da "Brasilemanha", no Rio de Janeiro
A maioria das seleções “atendeu o público”, etc. Doações em dinheiro ou material para hospitais? Muitas equipes também fizeram. E que seleção trouxe funcionários do próprio país para trabalhar no hotel/CT onde tenham se hospedado?! Até aí, nada de especial.

Com a eliminação brasileira e, um dia depois, a classificação argentina à Final, o texto ficou ainda mais popular e passou a ter o título “Por que torcer pela Alemanha na final”, acrescentando informações sobre a vitória diante do Brasil:

- Nunca desrespeitaram os brasileiros,
- Combinaram no intervalo do jogo em diminuir o ritmo para não desrespeitar a seleção anfitriã,
- Mostraram que seus ídolos são os nossos jogadores do passado,
- Pediram desculpas após a goleada, e tiveram classe para ganhar

Nada muito diferente do que vimos três anos atrás, quando o Barcelona goleou o Santos na final do Mundial de Clubes, certo? Porém, os maiores elogios aos alemães se deram quanto aos gastos do “próprio bolso” em prol da “comunidade local” e “deixados como herança”:

- Vão deixar tudo que construíram para a população da cidade.

Uma série de mentiras misturadas com falta de apuração dos fatos gera o que chamamos desinformação.

Governador da Bahia e o chefe da delegação alemã
Primeiro ponto: em dezembro do ano passado foi noticiado que o Governo Estadual da Bahia iria pagar parte das despesas da seleção alemã durante sua hospedagem. Os gastos dos cofres públicos foram calculados em torno de R$ 1 mi, e incluíram a construção de todo o centro de mídia utilizado pela federação.

Outra apuração jornalística, depois que os boatos do “hotel construído e doado” ganharam mais força, revelou que o Centro de Treinamento já existia havia cinco anos (!) e era, na verdade, um projeto imobiliário. Reportagem da Folha de S. Paulo, no começo do ano, falava de “receio e esperança” dos moradores locais com o empreendimento.

Entretanto, a grande revelação aconteceu semana passada, já um mês depois do fim da Copa do Mundo: a empresa (alemã) contratada pela delegação alemã é acusada de calotes em vários prestadores de serviço (brasileiros), chegando à casa de 1 milhão de reais, incluindo 6.3 mil em contas de luz. Depois da repercussão e reconhecimento da dívida, o grupo contratado ainda acusou o Banco Central pelos problemas de pagamento!

E agora, por onde anda o famigerado "Autor Desconhecido" do viral “Por que torcer pela Alemanha”?...

Alemães não são “bonzinhos”, como quiseram pintar, e também não são “nazistas”, como já foram pintados. Alemães são pessoas: nem melhores nem piores que argentinos ou brasileiros. Simplesmente vivem num país melhor organizado e mais rígido em suas leis.

Brasileiros e Alemães: "Temos que torcer pra eles"

Queriam torcer pela seleção alemã contra a argentina? Perfeito, sem problemas! O time alemão é gigante historicamente e, nos últimos anos, é o que apresenta o melhor futebol coletivo. Assim, torcer pela beleza do jogo deles era a única justificativa aceitável.

O resto é hipocrisia. Ou síndrome de Estocolmo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Muito Além do Futebol... (94)

Texto escrito por Renato Sirqueira (do blog "Interferência Urbana") um dia antes da Final da Copa do Mundo, questionando a obrigatoriedade de se torcer para a Alemanha.


O título -- A xenofobia do termo "hermano" -- questiona a real intenção de quem chama argentinos desse modo.

Alguns trechos: "Frases corriqueiras como “odeio a Argentina e os argentinos” são ditas em coro, não importa a idade, até as crianças (...) A grande maioria nunca foi para a Argentina ou nem tiveram contato com argentinos. No início desse ano, passei por lá. Foi um dos locais em que mais fui bem tratado, não só por ser um turista, mas tive dicas, papos e minha família e eu fomos bem recebidos. (...) Voltando ao “ódio aos argentinos!!!”, “morte aos argentinos” e “argentino bom é argentino morto”, fui perguntando para todos aqueles que “odeiam a Argentina e seu povo” o motivo desse ódio e a grande maioria das respostas foi “porque sim”, seguido de “por eles serem argentinos” e similares. (...) As pessoas não precisam saber o motivo do ódio pela Argentina. Basta odiar, já é o suficiente. E criam seus filhos com esse mesmo ódio, treinando-os para simplesmente ver o argentino como um inimigo."

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Off-Topic (13)

“Se a Teoria da Relatividade estiver correta, a Alemanha afirmará que sou alemão, a Suíça dirá que sou cidadão suíço e a França me chamará de cidadão do mundo. Mas se ela fracassar, os franceses me chamarão de suíço, os suíços de alemão e os alemães dirão que sou judeu.”
(Albert Einstein)

Terminada a Copa do Mundo, é hora de fazer um balanço do torneio. Dentro de campo, temos pouco a apontar: o título ficou em ótimas mãos, e os selecionados de Argentina e Brasil, que começaram com imagens opostas, terminaram também vistos de maneiras diferentes. Mas ambos derrotados.

De acordo com a linha proposta pelo nosso blog, iremos nos focar na parte de fora dos gramados, mais precisamente com relação às torcidas e aos povos que se fizeram presentes nesse mundial.

Como já apontado pelo sociólogo Ronaldo Helal em postagem anterior, se agravou ainda mais a rivalidade Brasil e Argentina. Se, do lado brasileiro, isso sempre foi bastante aflorado, da parte dos argentinos a “surpresa” com a torcida contra dos brasileiros em TODOS os jogos fez aumentar o sentimento – ainda que os brazucas sigam abaixo dos ingleses na “preferência” dos Hermanos.

Entretanto, como costumamos dizer aqui, essa rixa está indo cada vez mais “muito além do futebol”.

Muitos foram os relatos indignados de brasileiros ao comentar sobre os argentinos, seja por seu comportamento nos estádios durante os jogos ou pela sua presença fora deles, naquilo que a imprensa oportunamente batizou de “invasão” antes mesmo da chegada dos vizinhos.

Pessoas me disseram, mais de uma vez, que ficaram profundamente irritadas.  Um amigo próximo me disse: “o que vi, li e ouvi deles, é digno de asco”. Outra amiga, lamentou: “tentei gostar dos argentinos, mas não consegui”. E uma colega de trabalho decretou: “ficou provado como o povo argentino é &#%$@”.

Não se pode dizer que seja incompreensível. Houve, mesmo, motivos que em certa medida explicassem esses sentimentos.

Na partida entre Argentina e Bósnia, no Maracanã, dois argentinos foram presos após realizarem ofensas de cunho racista. No mesmo jogo, um grupo de argentinos pulou um muro no estádio indo a um setor para o qual não tinha ingresso. Em outro jogo, em Porto Alegre, um grupo bateu em um brasileiro e roubou-lhe a entrada.

Argentino imita macaco para fotógrafo brasileiro
Tivemos, também, inúmeros casos de brigas dentro dos estádios, muitas delas motivadas e iniciadas por argentinos, além de vandalismo nas arenas. Fora dos limites dos jogos, houve muitas reclamações dos brasileiros quanto à presença de argentinos nas praias do Rio de Janeiro, sem contar casos referentes ao trânsito e ingressos.

Por fim, os comentários racistas na internet, ofendendo brasileiros após a derrota argentina na final.

Em suma, foram muitas e variadas situações desagradáveis que infelizmente tiveram argentinos como protagonistas. Em nenhum momento questionamos isso, tampouco estamos fazendo defesa de tais atos.

Vocês tratam os argentinos como coitadinhos, uns santos”, dizem alguns. “Vocês escondem casos de ofensas e agressões da parte deles”, nos acusam outros. Há, ainda, quem nos cobre a cada MERDA que um argentino faça, como se nós tivéssemos responsabilidade e autoridade por outras vidas além das nossas próprias.

Não, absolutamente não.

O outro lado

Aqui, nosso objetivo não é mostrar que os brasileiros foram os maiores responsáveis por coisas ruins no mundial: nosso objetivo – como, aliás, é o objetivo geral deste blog, literalmente alternativo em terras brasileiras – será o de expor o outro lado da história, onde argentinos foram submetidos a situações vergonhosas, e a “grande mídia” (bem como as mídias covardes) não fez NENHUMA questão de mostrar.

Esse ódio que muitos brasileiros têm de argentinos vem da imprensa e da publicidade, em grande parte, e é transmitido por gerações. Assim, chega-se ao ponto de se odiar uma pessoa simplesmente por conta de sua origem, sem jamais tê-la conhecido. Aí, quando acontece uma Copa do Mundo no “seu” país e muitos daqueles que você odiava sem saber exatamente por que razão vem e aprontam, você se sente aliviado: “eu não falei?! eles são assim mesmo!!!”.

Daniel Cassol, brasileiro, gaúcho, escreve para o excelente site Impedimento. No texto “O que deu pra ver da final?”, contou que “Houve provocações e xingamentos dos dois lados, é bom que se diga. Lá pelo segundo tempo, com a cerveja emprestando valentia, houve prenúncios de brigas e alguns safanões. (...) fiquei prestando atenção no comportamento dos brasileiros presentes no Maracanã. Foi raivoso na maior parte do tempo (...). Ofensas gritadas com o fígado. Um comportamento besta”.

Ele ainda narrou uma história no mínimo curiosa: “No sábado, uma argentina moradora do Rio de Janeiro me contava que tentou levar o filho para assistir a uma partida da Copa com o colega de escola, brasileiro. “Não vejo jogo com argentinos”, foi a resposta.”. Alexandre Peniche, brasileiro, carioca, trabalha para uma das empresas parceiras da FIFA. Em e-mail ao blog, contou o que viu: “Vi 3 jogos da Argentina nos estádios. Vi brigas entre argentinos e brasileiros nos jogos que fui, mas devido a provocação mútua. Em momento algum brasileiro ou argentino partiam pra cima”.

Briga entre argentino e brasileiro na praia de Copacabana
Sebástian Bezzo, argentino, residente em São Paulo, em e-mail ao blog contou que assistiu à finalíssima na Fan Fest local: "Eu era um completo intruso! 99% dos presentes eram brasileiros, e uns 96% torciam pela Alemanha: camisas, bandeiras, caras pintadas, vuvuzelas, etc. Não podia acreditar! (...) A hostilidade foi constante e a alegria pelo gol alemão foi inusitada. (...) Houve muitas provocações e comentários nada agradáveis."

Merisa Piras, brasileira, carioca, foi voluntária durante a Copa do Mundo no Maracanã. Em depoimento em sua página pessoal, disse: “Vocês não tem ideia do que eu vi estes caras [argentinos] aguentarem de provocação ontem no Maracanã. Fiquei com vergonha de ser brasileira por causa de alguns brasileiros. (...) Xingaram, chamaram pra briga e eles ficaram na deles. (...) E quero agradecer a dois argentinos que vieram ao meu socorro após eu ser quase agredida fisicamente por um bêbado brasileiro que teimava em entrar na fila preferencial”.

Acreditar que argentinos tenham sido responsáveis solitários por brigas e confusões nos estádios é, acima de tudo, desonesto (como desonesto seria afirmar que é “tudo culpa dos brasileiros”). Ao longo da Copa, houve diferentes relatos de agressões de brasileiros a argentinos durante as partidas.

Neste vídeo, da BBC Brasil, é possível perceber que argentinos são agredidos na semifinal, diante da Holanda. Neste outro, temos dois argentinos, sozinhos, sendo ofendidos e posteriormente atacados por um grupo de brasileiros nos corredores do Maracanã, dia da Final. No duelo entre Argentina e Bélgica, em que um grupo de argentinos bateu em um brasileiro, ficou provado que o torcedor da seleção brasileira atirou um copo de cerveja nos argentinos iniciando a confusão. Houve, também, esse relato de pai (64 anos) e filho (32), agredidos por torcedores brasileiros no jogo Argentina X Bósnia.

Pai e filho argentinos agredidos no Maracanã
Mais preocupante, porém, são as situações que aconteceram fora dos estádios, o que torna as ofensas e ataques inexplicáveis.

O alpinista Pedro Hauck, de Curitiba, conta em seu blog que estava caminhando pelas ruas da cidade com uma amiga argentina quando, ao perceber que eles estavam falando castelhano, um transeunte se aproximou e xingou-a de "puta", em seguida chamando-o para brigar.

Tivemos de tudo: um homem (brasileiro!) sendo assassinado porque trajava camisa da seleção argentina durante Brasil X Alemanha em Minas Gerais; um argentino baleado em bar de Porto Alegre; outro tendo os dedos da mão quebrados porque empunhava a bandeira de seu país, em Belo Horizonte; uma jornalista argentina empurrada e xingada no Rio, e o carro de um hermano sendo apedrejado em Brasília.
 
Comentários em cada uma dessas notícias afirmavam que os argentinos "sem dúvida mereceram", outros diziam que eles "devem ter provocado" ou que "argentino bom é argentino morto". O jornalista brasileiro Guga Chacra escreveu em seu twitter, após a vitória da Alemanha: "lamentável e deprimente a quantidade de tweets racistas contra os argentinos, inclusive de formadores de opinião".

Até que chegamos ao cúmulo de ver mexicanos espancados por serem “confundidos” com argentinos, na semana passada.

Diante de tudo isso, só podemos, pois, dar graças a Deus: Ele não permitiu uma final Brasil e Argentina.

A César o que é de César

O jornalista brasileiro Daniel Oticica, do blog “Argentina, etc”, aponta que a mídia argentina criticou bastante a realização da Copa do Mundo no Brasil, afirmando que “Lidera a lista [de argumentos] a morte violenta de 2 argentinos, figuras públicas na Argentina, ligados diretamente ao ambiente do esporte. Soledad y "El Topo" foram vítimas de fatalidades, produto da combinação de violência social e de trânsito”.

“El Topo” era o apelido de Jorge Luiz Lopez. O jornalista argentino, de 38 anos, morreu em um acidente de trânsito em Guarulhos: o taxi que o levava foi atingido por um veículo desgovernado, que era conduzido por criminosos em fuga, perseguidos pela polícia. Dois dos três personagens eram adolescentes. A esposa de Lopez relatou erros e omissões no atestado de óbito.

Soledad (cujo nome completo era Maria Soledad Fernandez) – e outros dois colegas, também argentinos – morreu em outro acidente de trânsito, em Minas Gerais: a jornalista argentina, de 26 anos, faleceu quando o carro no qual ela estava capotou e caiu numa ribanceira de cerca de seis metros. Segundo foi apurado, o veículo de Soledad foi atingido por trás por outro automóvel, com intenção de roubo. Não houve préstimo de socorro.

O carro que atingiu o veículo da argentina seria encontrado pela polícia quilômetros depois, num posto de gasolina. Os dois homens que estavam dentro do Golf alegaram que foram atingidos por um caminhão. Eles já tinham passagem pela polícia. Foi feita a perícia e comprovou-se que era mesmo aquele o carro que causou o choque que vitimou os jornalistas.

Houve, ainda, registro de outros dois acidentes em estradas brasileiras envolvendo argentinos: num deles, ocorrido no Paraná, uma van que levava uma família de argentinos foi atingida por um veículo que tentava fazer uma conversão perigosa. Segundo a motorista do carro, ela “não viu a van”. Dessa vez, felizmente não houve vítimas fatais, ainda que seis pessoas tenham ficado feridas.

Família argentina que teve a van atingida por motorista brasileira
No outro, que aconteceu no Rio Grande do Sul, um Fiat Uno, carro dos argentinos, bateu na traseira de um trator (absolutamente proibido em estradas!) durante a madrugada, causando a morte de um dos passageiros e ferimentos graves nas outras duas pessoas que estavam no veículo.

Como visto, TODOS os quatro acidentes foram causados por motoristas brasileiros. Seria, em alguma medida, justo que os parentes das vítimas acusassem “o povo brasileiro”?

A Copa teve 64 jogos: será que somente 7 tiveram problemas?

Um determinado jornalista, já citado aqui no blog algumas vezes e que é MUITO PIOR que o Galvão Bueno quando o assunto é a “rivalidade” com a Argentina, chegou a dizer que “turistas de TODOS os outros países vieram para torcer numa boa, MENOS os argentinos”. 

Uma covardia tremenda, para dizer o mínimo. 

Ele também falou que os brasileiros envolvidos em brigas foram atacados “a troco de ABSOLUTAMENTE NADA, no máximo um grito de pentacampeão”. Finalizando, afirmou que “não houve problemas EM NENHUM DOS JOGOS sem ser os da Argentina”.

Será, mesmo?

Que fique claro, novamente: não estamos dizendo que sejam inventados ou falsos os depoimentos. Aliás, lamentamos profundamente por quem tenha sido agredido, física ou moralmente, por algum argentino durante essa Copa. O que estamos falando é sobre as generalizações e, mais que elas, a total falta de vontade de conhecer outras possibilidades.

Em primeiro lugar, é importante lembrarmos que estádios de futebol não são ambientes onde se espera o melhor das pessoas: há muito passaram a ser locais hostis, de ofensas verbais, gestuais, e palco de agressões físicas.

Some-se a isso o fato de não haver qualquer espécie de divisão de torcida (fato absolutamente INÉDITO no Brasil e que NUNCA tornará a acontecer nem mesmo em jogos de campeonatos estaduais). Mais uma: lembrem-se que a FIFA OBRIGOU o governo brasileiro a LIBERAR a venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios, fato que é CONTRA A LEGISLAÇÃO!

Cristina Corso Ruaro, promotora de Justiça que atuou no plantão do Juizado na Copa em alguns jogos, afirmou que "Em todos os casos atendidos, constatou-se que os infratores haviam ingerido bebidas alcoólicas, o que resultou em condutas inconvenientes, que ferem o Estatuto do Torcedor e o Código Penal".

Como depoimento pessoal, posso falar somente sobre o jogo entre Argélia e Rússia. Nele, vi três argelinos serem presos, um por haver acendido um sinalizador após o gol da seleção argelina, e dois por terem lutado com os seguranças que vieram retirar o autor do disparo.

Mais próximo de mim, numa região da Arena da Baixada que parecia ser meio “vip”, em três momentos distintos foram vistas pessoas se levantando e xingando uns aos outros, até que viessem novamente os seguranças e os arrastassem – muitas vezes, era preciso dois ou três para conter os brigões.

Esses torcedores não eram nem argelinos nem russos: alguns usavam uma camisa amarela com detalhes verdes, outros trajavam roupas de diferentes cores, outros vestiam camiseta dos times locais.

Meu irmão foi ao jogo Austrália x Espanha e viu também diferentes focos de briga, até mesmo entre australianos e seguranças. Além disso, o já épico Alemanha 7x1 Brasil teve 17 detidos, e "em vários momentos ocorreram trocas de socos e chutes entre torcedores".

Portanto, em apenas três partidas isoladas, “100% de aproveitamento” em confusões, sem que nenhuma delas envolvesse argentinos.

Que coisa, não?!

O senso das proporções

De acordo com a lista divulgada pela Embratur, a Argentina foi o país com maior número de turistas vindo ao Brasil: quase 167 mil, no total. A massiva quantidade (esse número representa a soma do segundo e terceiro colocados na lista), o tempo de presença no país (a Argentina teve jogos 29 dias distantes entre si) e o número de cidades visitadas (foram cinco capitais, sendo duas partidas em SP e duas no RJ) já serve para se compreender que a quantidade de problemas será diretamente proporcional.

Briga entre espanhóis e brasileiros em Curitiba
No entanto, fazendo uma rápida e simples pesquisa sobre ocorrências policiais e afins nos jogos da Copa do Mundo de 2014, percebe-se que não houve apenas uma, mas várias nacionalidades envolvidas em situações lamentáveis. Dentro dos estádios e fora deles.

Vejamos.

Mexicanos, 5º colocados na lista com 40.5 mil turistas: no jogo contra a Croácia, houve briga generalizada; em outra partida, contra Camarões, torcedores invadiram um setor de vendas e roubaram cervejas; Na partida diante do Brasil, dois foram presos por agressões a policiais; e após a eliminação diante da Holanda, brigas nos arredores do estádioUruguaios (9ª posição, 35 mil visitantes) também se envolveram em várias situações nas partidas da Celeste: houve brigas no confronto do Uruguai contra a Itália; torcedores do país foram expulsos do estádio e houve muitos feridos em brigas nos corredores na eliminação uruguaia, contra a Colômbia.

Nessa mesma partida, colombianos (4º maior número de visitantes, 49 mil) foram presos por invadirem o estádio; no jogo diante da Costa do Marfim, um grupo foi preso após abordagem policial. Isso sem contar uma grave ocorrência durante os treinos da seleção do país. Os vizinhos chilenos (3º colocados em número de turistas, 54.5 mil) ficaram marcados pela invasão ao Maracanã, onde havia mais de 80 envolvidos. No jogo contra a Austrália, em Cuiabá, um torcedor foi preso ao soltar rojões. Ainda, quatro foram presos por uso de credenciais falsas.

Não foram somente latino-americanos (britânicos, 40.4 mil, franceses, 40 mil, e alemães, 35.6 mil, aparecem da 6ª à 8ª colocações no ranking de turistas, respectivamente): no Rio de Janeiro, houve vários focos de briga no jogo da França, resultando em policiais feridos e franceses presos. Tivemos dois alemães detidos por conta de briga em Brasília e um terceiro por vandalismo em Fortaleza. Vários torcedores da Inglaterra quebraram um corrimão do estádio de Manause no jogo de São Paulo houve um ataque racista a um compatriota.

Cada um dos países citados acima também teve nativos envolvidos em outros casos vergonhosos, fora dos gramados: mexicanos foram presos após assediarem sexualmente uma brasileira e outros por venderem ingressos falsos. Uruguaios invadiram o hotel onde a seleção estava e deixaram parte do patrimônio depredadoDois ingleses foram presos em Belo Horizonte ao aplicarem golpe em taxista e um dos chefes da máfia de ingressos era inglês. Um alemão foi detido por venda ilegal de ingressos em Belo Horizonte, e outros dois foram presos no aeroporto de Guarulhos ao roubar uma obra de arte.

Houve prisão de colombianos por pichação de prédios em Belo Horizonte, brigas e assaltos na capital mineira, além de venda ilegal de ingressos. Em algumas dessas vendas também estavam envolvidos franceses. Outro francês foi preso por porte de drogas e tentativa de suborno e antes de ontem houve uma prisão por pedofilia em Fortaleza. Já chilenos figuraram nas páginas policiais do país por furtos no Rio de Janeiro, em Campinas e em Brasília, além de um grave caso de estupro no Mato Grosso.

Há outras várias situações relacionadas às nacionalidades citadas e também a diferentes estrangeiros (inclusive vindos de países que não participaram da Copa), até mesmo de japoneses, que deram um fantástico exemplo de educação, mas que também se envolveram em confusões dentro e fora dos estádios.

Seria absolutamente covarde e torpe se alguém, baseado nessas informações, dissesse que “ficou com nojo de mexicanos”, passasse a não gostar de chilenos porque eles são criminosos...”, achasse que “os franceses não respeitam autoridades...”, considerasse provado que o povo inglês é isso”, os uruguaios aquilo, os colombianos tal coisa, alemães não sei o quê...

Isso não existe.

“As acusações pareciam tão excessivas que, com medo de cometer uma injustiça, fiquei em um estado de incerteza (...). Parecia, à primeira vista, que só uma parte dos judeus aprovava essas atitudes e que a grande maioria condenava aqueles princípios (...). Porém, mesmo que eu ainda tivesse algumas dúvidas, todas elas acabavam diante da atitude de alguns judeus. (...) Poderia haver algum problema em nossa nação em que pelo menos um deles não estivesse envolvido?”
(Adolf Hitler)