“Se a Teoria da Relatividade estiver correta, a Alemanha afirmará que sou alemão, a Suíça dirá que sou cidadão suíço e a França me chamará de cidadão do mundo. Mas se ela fracassar, os franceses me chamarão de suíço, os suíços de alemão e os alemães dirão que sou judeu.”
(Albert Einstein)
Terminada a Copa do Mundo, é hora de fazer um
balanço do torneio. Dentro de campo, temos pouco a apontar: o título ficou em
ótimas mãos, e os selecionados de Argentina e Brasil, que começaram com imagens
opostas, terminaram também vistos de maneiras diferentes. Mas ambos derrotados.
De acordo com a linha proposta pelo nosso blog,
iremos nos focar na parte de fora dos gramados, mais precisamente com relação
às torcidas e aos povos que se fizeram presentes nesse mundial.
Como já apontado pelo sociólogo Ronaldo Helal em postagem anterior,
se agravou ainda mais a rivalidade Brasil e Argentina. Se, do lado brasileiro,
isso sempre foi bastante aflorado, da parte dos argentinos a “surpresa” com a torcida contra dos
brasileiros em TODOS os jogos fez aumentar o sentimento – ainda que os brazucas
sigam abaixo dos ingleses na “preferência” dos Hermanos.
Muitos foram os relatos indignados de brasileiros ao
comentar sobre os argentinos, seja por seu comportamento nos estádios durante
os jogos ou pela sua presença fora deles, naquilo que a imprensa oportunamente
batizou de “invasão” antes mesmo da chegada dos vizinhos.
Pessoas me disseram, mais de uma vez, que ficaram profundamente
irritadas. Um amigo próximo me disse: “o que vi, li e ouvi deles, é digno de asco”.
Outra amiga, lamentou: “tentei gostar dos
argentinos, mas não consegui”. E uma colega de trabalho decretou: “ficou provado como o povo argentino é
&#%$@”.
Não se pode dizer que seja incompreensível. Houve,
mesmo, motivos que em certa medida explicassem esses sentimentos.
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| Argentino imita macaco para fotógrafo brasileiro |
Tivemos, também, inúmeros casos de brigas dentro
dos estádios, muitas delas motivadas e iniciadas por argentinos, além de vandalismo nas arenas.
Fora dos limites dos jogos, houve muitas reclamações dos brasileiros quanto à
presença de argentinos nas praias do Rio de Janeiro, sem contar casos referentes ao trânsito e ingressos.
Em suma, foram muitas e variadas situações
desagradáveis que infelizmente tiveram argentinos como protagonistas. Em nenhum
momento questionamos isso, tampouco estamos fazendo defesa de tais atos.
“Vocês tratam
os argentinos como coitadinhos, uns santos”, dizem alguns. “Vocês escondem casos de ofensas e agressões
da parte deles”, nos acusam outros. Há, ainda, quem nos cobre a cada MERDA
que um argentino faça, como se nós tivéssemos responsabilidade e autoridade por
outras vidas além das nossas próprias.
Não, absolutamente não.
O
outro lado
Aqui, nosso objetivo não é mostrar que os
brasileiros foram os maiores responsáveis por coisas ruins no mundial: nosso
objetivo – como, aliás, é o objetivo geral deste blog, literalmente
alternativo em terras brasileiras – será o de expor o outro lado da história,
onde argentinos foram submetidos a situações vergonhosas, e a “grande mídia” (bem como as mídias
covardes) não fez NENHUMA questão de mostrar.
Esse ódio que muitos brasileiros têm de argentinos
vem da imprensa e da publicidade, em grande parte, e é transmitido por gerações. Assim, chega-se ao
ponto de se odiar uma pessoa simplesmente por conta de sua origem, sem jamais
tê-la conhecido. Aí, quando acontece uma Copa do Mundo no “seu” país e muitos
daqueles que você odiava sem saber exatamente por que razão vem e “aprontam”,
você se sente aliviado: “eu não falei?!
eles são assim mesmo!!!”.
Daniel Cassol, brasileiro, gaúcho, escreve para o
excelente site Impedimento. No texto “O que deu pra ver da
final?”, contou que “Houve provocações e xingamentos dos dois lados, é bom
que se diga. Lá pelo segundo tempo, com a cerveja emprestando valentia, houve
prenúncios de brigas e alguns safanões. (...) fiquei prestando atenção no
comportamento dos brasileiros presentes no Maracanã. Foi raivoso na maior parte
do tempo (...). Ofensas gritadas com o fígado. Um comportamento besta”.
Ele ainda narrou uma história no mínimo curiosa: “No sábado, uma argentina moradora do Rio de Janeiro me contava que tentou levar o filho para assistir a uma partida da Copa com o colega de escola, brasileiro. “Não vejo jogo com argentinos”, foi a resposta.”. Alexandre Peniche, brasileiro, carioca, trabalha para uma das empresas parceiras da FIFA. Em e-mail ao blog, contou o que viu: “Vi 3 jogos da Argentina nos estádios. Vi brigas entre argentinos e brasileiros nos jogos que fui, mas devido a provocação mútua. Em momento algum brasileiro ou argentino partiam pra cima”.
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| Briga entre argentino e brasileiro na praia de Copacabana |
Sebástian Bezzo, argentino, residente em São Paulo, em e-mail ao blog contou que assistiu à finalíssima na Fan Fest local: "Eu era um completo intruso! 99% dos presentes eram brasileiros, e uns 96% torciam pela Alemanha: camisas, bandeiras, caras pintadas, vuvuzelas, etc. Não podia acreditar! (...) A hostilidade foi constante e a alegria pelo gol alemão foi inusitada. (...) Houve muitas provocações e comentários nada agradáveis."
Merisa Piras, brasileira, carioca, foi
voluntária durante a Copa do Mundo no Maracanã. Em depoimento em sua página
pessoal, disse: “Vocês não tem ideia do que eu vi estes caras [argentinos]
aguentarem de provocação ontem no Maracanã. Fiquei com vergonha de ser
brasileira por causa de alguns brasileiros. (...) Xingaram, chamaram pra briga
e eles ficaram na deles. (...) E quero agradecer a dois argentinos que vieram ao meu
socorro após eu ser quase agredida fisicamente por um bêbado brasileiro que
teimava em entrar na fila preferencial”.
Acreditar que argentinos tenham sido responsáveis
solitários por brigas e confusões nos estádios é, acima de tudo, desonesto (como desonesto seria afirmar que é “tudo culpa dos brasileiros”). Ao longo da
Copa, houve diferentes relatos de agressões de brasileiros a argentinos durante as partidas.
Neste vídeo, da BBC Brasil, é possível perceber que argentinos
são agredidos na semifinal, diante da Holanda. Neste outro,
temos dois argentinos, sozinhos, sendo ofendidos e posteriormente
atacados por um grupo de brasileiros nos corredores do Maracanã, dia da Final. No duelo entre Argentina e Bélgica, em que um grupo de argentinos bateu em um brasileiro, ficou provado que o torcedor da seleção brasileira atirou um copo de cerveja nos argentinos iniciando a confusão. Houve, também, esse relato de pai (64 anos) e filho (32), agredidos
por torcedores brasileiros no jogo Argentina X Bósnia.
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| Pai e filho argentinos agredidos no Maracanã |
Mais preocupante, porém, são as situações que
aconteceram fora dos estádios, o que torna as ofensas e ataques inexplicáveis.
O alpinista Pedro Hauck, de Curitiba, conta em seu blog que estava caminhando pelas ruas da cidade com uma amiga argentina quando, ao perceber que eles estavam falando castelhano, um transeunte se aproximou e xingou-a de "puta", em seguida chamando-o para brigar.
A César o que é de César
O jornalista brasileiro Daniel Oticica, do blog “Argentina, etc”,
aponta que a mídia argentina criticou bastante a realização da Copa do Mundo no
Brasil, afirmando que “Lidera a lista [de argumentos] a morte
violenta de 2 argentinos, figuras públicas na Argentina, ligados diretamente ao
ambiente do esporte. Soledad y "El Topo" foram vítimas de
fatalidades, produto da combinação de violência social e de trânsito”.
“El Topo” era o apelido de Jorge Luiz Lopez. O
jornalista argentino, de 38 anos, morreu em um acidente de trânsito em Guarulhos: o taxi que
o levava foi atingido por um veículo desgovernado, que era conduzido por criminosos em fuga,
perseguidos pela polícia. Dois dos três personagens eram adolescentes. A esposa de Lopez relatou erros e omissões
no atestado de óbito.
Soledad (cujo nome completo era Maria Soledad
Fernandez) – e outros dois colegas, também argentinos – morreu em outro
acidente de trânsito, em Minas Gerais: a jornalista argentina, de 26 anos, faleceu quando o
carro no qual ela estava capotou e caiu numa ribanceira de cerca de seis
metros. Segundo foi apurado, o veículo de Soledad foi atingido por trás por
outro automóvel, com intenção de roubo. Não houve préstimo de socorro.
O carro que atingiu o veículo da argentina seria encontrado pela polícia quilômetros depois,
num posto de gasolina. Os dois homens que estavam dentro do Golf alegaram
que foram atingidos por um caminhão. Eles já tinham passagem pela polícia. Foi
feita a perícia e comprovou-se que era mesmo aquele o carro que causou o choque
que vitimou os jornalistas.
Houve, ainda, registro de outros dois acidentes em
estradas brasileiras envolvendo argentinos: num deles, ocorrido no Paraná, uma van que levava uma família de argentinos foi atingida por um veículo que tentava fazer uma conversão perigosa. Segundo a motorista do carro, ela “não viu a van”. Dessa vez, felizmente não houve vítimas fatais, ainda que seis pessoas tenham ficado feridas.
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| Família argentina que teve a van atingida por motorista brasileira |
No outro, que aconteceu no Rio Grande do Sul, um Fiat Uno, carro dos argentinos, bateu na traseira de um trator (absolutamente proibido em estradas!) durante a madrugada, causando a morte de um dos passageiros e ferimentos graves nas outras duas pessoas que estavam no veículo.
Como visto, TODOS os quatro acidentes foram causados por motoristas brasileiros. Seria, em alguma medida, justo que os parentes das
vítimas acusassem “o povo brasileiro”?
A
Copa teve 64 jogos: será que somente 7 tiveram problemas?
Um determinado jornalista, já citado aqui no blog
algumas vezes e que é MUITO PIOR que o Galvão Bueno quando o assunto é a
“rivalidade” com a Argentina, chegou a dizer que “turistas de TODOS os outros
países vieram para torcer numa boa, MENOS os argentinos”.
Uma covardia tremenda, para dizer o mínimo.
Ele também falou que os brasileiros envolvidos em
brigas foram atacados “a troco de ABSOLUTAMENTE
NADA, no máximo um grito de pentacampeão”.
Finalizando, afirmou que “não houve problemas
EM NENHUM DOS JOGOS sem ser os da
Argentina”.
Será, mesmo?
Que fique claro, novamente: não estamos dizendo que
sejam inventados ou falsos os depoimentos. Aliás, lamentamos profundamente por
quem tenha sido agredido, física ou moralmente, por algum argentino durante
essa Copa. O que estamos falando é sobre as generalizações e, mais que elas, a
total falta de vontade de conhecer outras possibilidades.
Em
primeiro lugar, é importante lembrarmos que
estádios de futebol não são ambientes onde se espera o melhor das pessoas: há
muito passaram a ser locais hostis, de ofensas verbais, gestuais, e palco de
agressões físicas.
Some-se a isso o fato de não haver
qualquer espécie de divisão de torcida (fato absolutamente INÉDITO no Brasil e
que NUNCA tornará a acontecer nem mesmo em jogos de campeonatos estaduais). Mais
uma: lembrem-se que a FIFA OBRIGOU o governo brasileiro a LIBERAR a venda de
bebidas alcoólicas dentro dos estádios, fato que é CONTRA A LEGISLAÇÃO!
Cristina Corso Ruaro, promotora de Justiça que atuou no plantão do Juizado na Copa em alguns jogos, afirmou que "Em todos os casos atendidos, constatou-se que os infratores haviam ingerido bebidas alcoólicas, o que resultou em condutas inconvenientes, que ferem o Estatuto do Torcedor e o Código Penal".
Como depoimento pessoal, posso falar somente sobre
o jogo entre Argélia e Rússia. Nele, vi três argelinos serem presos, um por haver
acendido um sinalizador após o gol da seleção argelina, e dois por terem lutado
com os seguranças que vieram retirar o autor do disparo.
Mais próximo de mim, numa região da Arena da
Baixada que parecia ser meio “vip”, em três momentos distintos foram vistas
pessoas se levantando e xingando uns aos outros, até que viessem novamente os
seguranças e os arrastassem – muitas vezes, era preciso dois ou três para conter
os brigões.
Esses torcedores não eram nem argelinos nem russos:
alguns usavam uma camisa amarela com detalhes verdes, outros trajavam roupas de
diferentes cores, outros vestiam camiseta dos times locais.
Meu irmão foi ao jogo Austrália x Espanha e viu
também diferentes focos de briga, até mesmo entre australianos e seguranças. Além disso, o já épico Alemanha 7x1 Brasil teve 17 detidos, e "em vários momentos ocorreram trocas de socos e chutes entre torcedores".
Portanto, em apenas três partidas isoladas, “100% de aproveitamento” em confusões, sem que nenhuma delas envolvesse argentinos.
Que coisa, não?!
O senso das proporções
De acordo com a lista divulgada pela Embratur, a Argentina foi o país com maior número de turistas vindo ao Brasil: quase 167 mil, no total. A massiva quantidade (esse número representa a soma do segundo e terceiro colocados na lista), o tempo de presença no país (a Argentina teve jogos 29 dias distantes entre si) e o número de cidades visitadas (foram cinco capitais, sendo duas partidas em SP e duas no RJ) já serve para se compreender que a quantidade de problemas será diretamente proporcional.
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| Briga entre espanhóis e brasileiros em Curitiba |
No entanto, fazendo uma rápida e simples pesquisa sobre ocorrências
policiais e afins nos jogos da Copa do Mundo de 2014, percebe-se que não houve
apenas uma, mas várias nacionalidades envolvidas em situações
lamentáveis. Dentro dos estádios e fora deles.
Não foram somente latino-americanos (britânicos, 40.4 mil, franceses, 40 mil, e alemães, 35.6 mil, aparecem da 6ª à 8ª colocações no ranking de turistas, respectivamente): no Rio de Janeiro, houve
vários focos de briga no jogo da França,
resultando em policiais feridos e franceses presos.
Tivemos dois alemães detidos por conta de briga em Brasília e um terceiro por vandalismo em Fortaleza. Vários torcedores da Inglaterra quebraram um corrimão do estádio de Manaus, e no jogo de São Paulo houve um ataque racista a um compatriota.
Cada um dos países citados acima também teve
nativos envolvidos em outros casos vergonhosos, fora dos gramados: mexicanos
foram presos após assediarem sexualmente uma brasileira
e outros por venderem ingressos falsos.
Uruguaios invadiram o hotel onde a seleção estava e deixaram parte do patrimônio depredado. Dois ingleses foram presos em Belo Horizonte ao aplicarem golpe em taxista e um dos chefes da máfia de ingressos era inglês. Um alemão foi detido por venda ilegal de ingressos em Belo Horizonte, e outros dois foram presos no aeroporto de Guarulhos ao roubar uma obra de arte.
Seria absolutamente covarde e torpe se
alguém, baseado nessas informações, dissesse que “ficou com nojo de mexicanos”, passasse a “não gostar de chilenos porque eles são criminosos...”, achasse que “os franceses não respeitam autoridades...”, considerasse “provado que o povo inglês é isso”, os
uruguaios aquilo, os colombianos tal coisa, alemães não sei o quê...
Isso não existe.
“As
acusações pareciam tão excessivas que, com medo de cometer uma injustiça, fiquei
em um estado de incerteza (...). Parecia, à primeira vista, que só uma parte dos judeus aprovava essas atitudes e que a grande maioria condenava aqueles
princípios (...). Porém, mesmo que eu ainda tivesse algumas dúvidas, todas elas
acabavam diante da atitude de alguns judeus. (...) Poderia haver algum
problema em nossa nação em que pelo menos um deles não estivesse envolvido?”
(Adolf
Hitler)