terça-feira, 13 de outubro de 2026

Muito Além do Futebol... (106)

Ninguém aqui vai ser hipócrita a ponto de cobrar qualquer tipo de respeito entre atletas as Artes Marciais Mistas (MMA), mais ainda nos eventos pré-luta, reconhecidos como "promocionais", verdadeiros chamarizes de audiência. Também não vamos usar de demagogia e associar todas as ofensas à nacionalidade, seja do ofensor (como a realizar tais atos por ter tal origem...) nem do agredido (como sofresse discriminação por ter tal origem e, fosse de outra procedência, seria respeitado).

Mas vale a pergunta/provocação: se quem tivesse atirado dinheiro e preservativos no adversário fosse a argentina contra a brasileira, qual seria o tratamento?



sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Off-Topic (23)

"O perigo da história única": como o Brasil projeta seus próprios fantasmas na Argentina

Na sua famosa palestra “The Danger of a Single Story” (O Perigo de uma História Única), a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie alerta para a facilidade com que criamos uma narrativa simplista sobre um povo, reduzindo-o a um único estereótipo repetido à exaustão até que ele se torne a única verdade aceita. É exatamente esse o mecanismo utilizado pela mídia, pelo jornalismo e pelo humor brasileiro ao abordar a Argentina. Há décadas, constrói-se no imaginário popular brasileiro uma "história única" sobre o país vizinho: a de que ele seria um bloco homogêneo, intolerante e estruturalmente maligno. Essa caricatura conveniente cumpre uma função muito clara: criar um vilão externo perfeito para consumo rápido nas redes sociais e nas transmissões de TV.

O problema central dessa construção é o duplo padrão ético com que ela opera. Ao empacotar a Argentina como o símbolo absoluto do preconceito na América Latina, a opinião pública brasileira promove um processo psicanalítico de projeção: imputa-se ao vizinho, de forma higienizada, os crimes e sentimentos mais sombrios da nossa própria formação social. As capas de jornais, as piadas de programas de auditório e os editoriais indignados cobram uma pureza moral dos gramados platinos que sequer existe no nosso próprio cotidiano. Trata-se de uma aparente denúncia que serve, em última análise, como um escudo para que o Brasil não precise encarar o espelho.


A "história única" contada pelo entretenimento e pelo jornalismo brasileiro não apenas distorce a realidade do país vizinho, mas opera uma perigosa amnésia seletiva sobre o Brasil. Esconde-se o fato de que registramos mais de uma centena de episódios de racismo em nossos próprios estádios todos os anos; apaga-se a memória da eugenia oficial que moldou o pensamento social brasileiro no século XX; e ignora-se a violência diária exercida contra minorias dentro das nossas próprias fronteiras. Apontar o dedo para Buenos Aires virou a estratégia mais eficiente para que o público brasileiro se sinta moralmente superior sem precisar fazer o dever de casa.

Como ensina Chimamanda, o perigo da história única não é que ela seja inteiramente falsa, mas sim que ela é incompleta, e toda história incompleta torna-se uma ferramenta de poder e negação. O racismo nas arquibancadas platinas existe e exige punição implacável, mas transformá-lo na única dimensão de um país inteiro é um exercício de desonestidade intelectual. Enquanto o debate brasileiro continuar alimentado por caricaturas chauvinistas e indignação sob encomenda, continuaremos usando a Argentina como álibi para varrer o nosso próprio preconceito estrutural para debaixo do tapete.

"Diga uma coisa, apenas uma coisa, repetidamente, sobre um povo, e é isso que eles se tornarão." (Chimamanda Adichie)

domingo, 20 de setembro de 2026

Isso é Jornalismo? (66)

Hoje (20), a seleção brasileira de vôlei venceu a argentina por 3 sets a 0 e garantiu sua classificação às Olimpíadas de Los Angeles, daqui a dois anos. A campanha brazuca foi impecável, não perdendo set algum ao longo da campanha (5 vitórias pelo mesmo placar deste domingo).

Ao fim da partida, houve uma pequena confusão entre os atletas, sem agressões física, mas um momento tenso como, aí sim, é comum na rivalidade esportiva das duas nações.

No entanto, quem procurar relatos sobre o jogo ficará em dúvida sobre a gravidade e intensidade dos fatos acima relatados.

Abaixo, mostraremos dois exemplos de matérias a respeito da partida, publicadas em dois dos mais bem estruturados e populares portais de notícias do país: UOL e Globo Esporte.

Na matéria do UOL (link aqui), o título é: "Brasil vence Argentina e conquista vaga olímpica no vôlei masculino"

Em texto de sete parágrafos, há uma mescla de descrição dos efeitos da classificação (vaga, números da campanha e número de atletas) e resumo da partida -- neste último, a única menção à "Briga" foi sutil: "Adriano fechou a conta em 25 a 20 e sacramentou a classificação. (...) os dois times discutiram, mas os ânimos logo se acalmaram…".

Nenhum momento do texto se fala sobre "culpados", "provocações", nem mesmo nomes aos bois.

Por outro lado, no GE.com (lei a íntegra aqui), a parte da confusão mereceu uma matéria a parte, que buscou claramente legitimar as ações de brasileiros (eles teriam respondido a provocações) e novamente tratar os argentinos por maus perdedores.

O título já dá o tom: "Darlan responde provocação argentina e dá "tchau" após título do Brasil":

A ênfase é total na suposta causa-daquilo-que-causou-a-confusão: "[o jogador brasileiro] esperou até o último momento para rebater as provocações da equipe argentina".

Em seguida, a matéria cita que "o oposto mandou um 'tchauzinho' aos rivais" e, posteriormente, afirma que "Os argentinos se incomodaram e foram tirar satisfação na rede", dando aos brasileiros a honra de pacificar": "jogadores e comissão técnica do Brasil chegaram para intervir".

O texto transfere total responsabilidade aos argentinos: "o duelo contou com tentativas de desestabilização por parte da equipe alviceleste", mas a fala de Darlan, o principal envolvido, é no mínimo dúbia, uma vez que ele chega a usar expressões como "faz parte" e "do jogo". Algo que, sabemos, é de fato normal, independentemente se iniciado por A ou B.

"Estávamos ali no 3º set num bom momento, eles começaram a afrontar, esse é o jogo deles, mas acho que a gente foi bem resiliente, não nos importamos tanto. Mas ali no final tive que retribuir, não teve o que fazer, mandei tchau. Fazer o quê, paciência, acho que é do jogo. É assim que se responde, nós apresentamos um belo voleibol hoje e com isso conseguimos sair com o 3 a 0", afirmou Darlan (transcrição do video linkado na imagem acima).

Você, caro leitor do nosso blog, assistiu ao jogo? Se não, você percebe uma distância oceânica entre as duas matérias?

Se sim, em quem devemos acreditar: no UOL, que enfatizou a superioridade técnica brasileira e tratou a confusão como algo comum, em Darlan, que reconheceu sua provocação ainda que afirme não ter sido "de graça", ou no GE.com, que tratou os argentinos como arruaceiros disfarçados de atletas?