sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Duetos (104)

Alisson dos Santos, um dos maiores nomes do esporte brasileiro na atualidade, tem fãs na Argentina.

Matéria do GloboEsporte.com mostra "Mãe e filhas argentinas que viajaram mais de 600 km só para vê-lo": "Foram 600km de viagem só para te ver correr, sem imaginar tudo o que aconteceria depois. Poder te conhecer, ganhar um autógrafo, sua pelúcia e ainda te abraçar, foi algo que jamais imaginei. As vezes tem pessoas que você admira desde criança e, quando finalmente as conhece, são melhores do que imaginava. Obrigada por fazer com que essa viagem valesse a pena" (Emma Bustamante)

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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Muito Além do Futebol... (106)

Ninguém aqui vai ser hipócrita a ponto de cobrar qualquer tipo de respeito entre atletas as Artes Marciais Mistas (MMA), mais ainda nos eventos pré-luta, reconhecidos como "promocionais", verdadeiros chamarizes de audiência. Também não vamos usar de demagogia e associar todas as ofensas à nacionalidade, seja do ofensor (como a realizar tais atos por ter tal origem...) nem do agredido (como sofresse discriminação por ter tal origem e, fosse de outra procedência, seria respeitado).

Mas vale a pergunta/provocação: se quem tivesse atirado dinheiro e preservativos no adversário fosse a argentina contra a brasileira, qual seria o tratamento?



sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Off-Topic (23)

"O perigo da história única": como o Brasil projeta seus próprios fantasmas na Argentina

Na sua famosa palestra “The Danger of a Single Story” (O Perigo de uma História Única), a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie alerta para a facilidade com que criamos uma narrativa simplista sobre um povo, reduzindo-o a um único estereótipo repetido à exaustão até que ele se torne a única verdade aceita. É exatamente esse o mecanismo utilizado pela mídia, pelo jornalismo e pelo humor brasileiro ao abordar a Argentina. Há décadas, constrói-se no imaginário popular brasileiro uma "história única" sobre o país vizinho: a de que ele seria um bloco homogêneo, intolerante e estruturalmente maligno. Essa caricatura conveniente cumpre uma função muito clara: criar um vilão externo perfeito para consumo rápido nas redes sociais e nas transmissões de TV.

O problema central dessa construção é o duplo padrão ético com que ela opera. Ao empacotar a Argentina como o símbolo absoluto do preconceito na América Latina, a opinião pública brasileira promove um processo psicanalítico de projeção: imputa-se ao vizinho, de forma higienizada, os crimes e sentimentos mais sombrios da nossa própria formação social. As capas de jornais, as piadas de programas de auditório e os editoriais indignados cobram uma pureza moral dos gramados platinos que sequer existe no nosso próprio cotidiano. Trata-se de uma aparente denúncia que serve, em última análise, como um escudo para que o Brasil não precise encarar o espelho.


A "história única" contada pelo entretenimento e pelo jornalismo brasileiro não apenas distorce a realidade do país vizinho, mas opera uma perigosa amnésia seletiva sobre o Brasil. Esconde-se o fato de que registramos mais de uma centena de episódios de racismo em nossos próprios estádios todos os anos; apaga-se a memória da eugenia oficial que moldou o pensamento social brasileiro no século XX; e ignora-se a violência diária exercida contra minorias dentro das nossas próprias fronteiras. Apontar o dedo para Buenos Aires virou a estratégia mais eficiente para que o público brasileiro se sinta moralmente superior sem precisar fazer o dever de casa.

Como ensina Chimamanda, o perigo da história única não é que ela seja inteiramente falsa, mas sim que ela é incompleta, e toda história incompleta torna-se uma ferramenta de poder e negação. O racismo nas arquibancadas platinas existe e exige punição implacável, mas transformá-lo na única dimensão de um país inteiro é um exercício de desonestidade intelectual. Enquanto o debate brasileiro continuar alimentado por caricaturas chauvinistas e indignação sob encomenda, continuaremos usando a Argentina como álibi para varrer o nosso próprio preconceito estrutural para debaixo do tapete.

"Diga uma coisa, apenas uma coisa, repetidamente, sobre um povo, e é isso que eles se tornarão." (Chimamanda Adichie)