terça-feira, 11 de agosto de 2026

Off-Topic (22)

“Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”
(Nicolau Maquiavel)


Ultimamente, basta abrir qualquer rede social ou ligar a TV para ver a mesma frase repetida como se fosse uma verdade absoluta: "A Argentina é o país mais racista do mundo". ​O estopim para essa onda recente de indignação internacional veio de fora. Declarações de figuras globais (como o ator americano Samuel L. Jackson) e editoriais de jornais como o The Washington Post passaram a cobrar publicamente a ausência de jogadores negros na Seleção Argentina.


​Do dia para a noite, o debate tomou conta da internet. Virou tempestade de memes, trocas de ofensas e acusações pesadas entre brasileiros, americanos e argentinos. ​Mas será que essa história é simples assim?... ​A ideia aqui não é passar pano para os episódios lamentáveis de racismo que vemos nos estádios sul-americanos – e que precisam ser punidos com rigor. Aliás, nesse aspecto o Brasil dá exemplo à Argentina, pois é mais rigoroso na definição e na punição de crimes de injúria racial (apesar de tentativas recentes no Congresso).


Nosso objetivo é fazer algo que a internet quase nunca faz: olhar para os dados reais, para a história e para a geopolítica por trás dessa discussão.



​O "cancelamento" da Argentina, o rage bait e a hipocrisia dos influenciadores


​Para entender por que essa conversa explodiu com tanto vigor justamente agora, a gente precisa olhar para o cenário geopolítico mundial.


​Com a chegada de Javier Milei à presidência, a Argentina adotou um alinhamento político escancarado com figuras como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Benjamin Netanyahu, em Israel. Isso colocou o país bem no meio da mira dos algoritmos de engajamento por indignação – o famoso rage bait. Levantamento comprova que a maioria dos comentários "anti-argentinos" veio de EUA e Brasil.


​A conta fechou perfeitamente para vários lados: para a bolha progressista dos EUA, atacar a Argentina virou uma obrigação moral, projetando sobre o país vizinho a lógica do ativismo americano. ​Para o público do Oriente Médio, o ataque ao futebol argentino (sobretudo depois do polêmico Argentina x Egito, que misturou reclamações de arbitragem e acusações de racismo com base nos supostos erros!) virou uma resposta política direta à posição do governo Milei em relação a Israel. Por fim, para o torcedor brasileiro foi o pretexto perfeito para misturar a histórica rivalidade do futebol com a polarização ideológica de casa.


​O resultado? O racismo (um problema real e sério, manifestado de diversas formas) virou munição e álibi para uma disputa geopolítica gigantesca.


​O espetáculo seletivo da internet: o caso IShowSpeed


​Quer uma prova de como o tribunal dos algoritmos opera com hipocrisia e caça de engajamento? Veja o exemplo do streamer americano IShowSpeed.


​Por um lado, o influenciador foi vítima de racismo em estádios internacionais e a internet ruiu em indignação (com toda razão, pois qualquer agressão racial é inaceitável e criminosa). Porém, a mesma internet que exige pureza moral convenientemente ignora o histórico do próprio Speed, que já protagonizou cenas pesadíssimas de xenofobia contra torcedores asiáticos em plena Copa do Mundo e declarações abertamente misóginas em suas lives.



​Isso escancara que, na lógica das redes sociais, a indignação moral raramente é sincera: ela é apenas um espetáculo em busca de cliques.

​[Neste link, Speed chama seu jogador adversário de "MONKEY" (antes o havia chamado de nigga) e, em seguida, profere os mais abomináveis palavrões e menções a uma mulher que adentrou a sala virtual]


​Onde estão os Negros na Argentina?


​Um dos argumentos mais repetidos é que a Argentina "esconde" seus cidadãos negros ou que a seleção faz uma limpeza no vestiário. Só que a explicação para a cara do time argentino não é uma conspiração: é pura demografia.


​Segundo os dados oficiais do último Censo do INDEC (o IBGE argentino), as pessoas que se declaram afrodescendentes no país representam menos de 0,7% da população total.

​Diferentemente do Brasil, que recebeu cerca de 4,8 milhões de africanos escravizados durante o tráfico transatlântico (mais de 40% de todo o tráfico das Américas), a região do Rio da Prata recebeu um número absurdamente menor: por volta de 200 mil.


​Para completar, no final do século XIX, aconteceram três fatores mudaram o mapa humano da Argentina:


1 - Surto de Febre Amarela: a epidemia de 1871 devastou os bairros mais pobres de Buenos Aires (como San Telmo e La Boca), onde a maioria da população afro-argentina vivia sem saneamento.


​2 - a Enxurrada de Imigrantes Europeus. Entre 1880 e 1930, a Argentina recebeu mais de 6 milhões de italianos e espanhóis. Em um país com pouca gente, essa massa diluiu a proporção de negros quase instantaneamente.


​3 - Miscigenação e Assimilação: a mistura entre homens europeus e mulheres afro-argentinas foi imensa, gerando um processo rápido de integração e diluição física ao longo das gerações.

​O que dizem os negros que vivem na Argentina? Enquanto influenciadores de fora cravam o "cancelamento" do país, a realidade relatada por negros que moram na Argentina traz um tom muito diferente.

​Em canais de criadores negros – como no caso do canal Argentina con John (um morador vindo do Haiti) e em debates da própria mídia local (como no programa Cuiatv) –, o relato predominante de quem vive no país não é o de um ambiente de hostilidade ou segregação diária.

​John, por exemplo, conta que mora na Argentina há mais de 15 anos e destaca o acolhimento, a facilidade de integração e como convites para churrascos e mate são a regra no convívio social. Ele aponta que o termo "negro" costuma ser usado no país até entre pessoas brancas como forma de tratamento afetuoso ou informal - algo que assusta quem chega de fora, mas que faz parte da dinâmica cultural local.

​Muitos imigrantes africanos e caribenhos reforçam que o preconceito na Argentina ocorre em episódios isolados e que não sofrem "mais racismo" lá do que o preconceito ou a xenofobia que enfrentariam em outros cantos do mundo ou até em seus países de origem.

​Nos programas de debate locais, quando a comunidade afro-argentina e imigrantes se sentam para discutir o tema, a conclusão dominante é clara: existem problemas estruturais e ignorância de indivíduos isolados, mas transformar a Argentina em um "pântano inóspito" é uma caricatura de quem analisa o país pela tela do celular.

"Telhado de Vidro"

​Quando analistas americanos e brasileiros apontam o dedo para a Argentina, costumam esquecer a história do racismo dentro da própria casa.


​Os Estados Unidos criaram um sistema de segregação jurídica brutal baseado na famosa regra da "uma gota de sangue" (one-drop rule). Essa régua colocou a sociedade em caixinhas raciais rígidas, onde a leitura da cor de pele é tão viciada que gera situações surreais.



​O próprio astro da NBA, Kevin Durant - que supostamente teria "protestado" contra os argentinos, se recusando a cumprimentá-los em um evento um dia antes da Final, fato depois esclarecido -, admitiu em um podcast que, quando ouviu falar de Stephen Curry na juventude, achou que Curry era branco apenas por ter a pele mais clara.


Se até uma das maiores estrelas do basquete americano enxerga a diversidade do seu próprio país por um filtro tão raso e estereotipado, como esperar que essa mesma imprensa entenda a miscigenação da América Latina?


charge de jornal paraguaio à época retrata
as autoridades brasileiras como macacos.

​Já o Brasil apostou no mito da "democracia racial" enquanto tentava apagar a população negra na prática. Além de ter ensinado durante DÉCADAS nas escolas do país os BIZARROS termos mulato, cafuzo e mameluco - literalmente afirmando que havia raças diferentes (não apenas a humana) e, por consequência, seres híbridos -, no famigerado Congresso Internacional das Raças, em 1911, o cientista brasileiro João Baptista de Lacerda apresentou uma tese prevendo que a miscigenação e o branqueamento incentivados pelo Estado extinguiriam a raça negra no Brasil até o ano 2012.


Na Guerra da Tríplice Aliança (correto, Presidente Lula?), o Império do Brasil mandou milhares de escravizados para o front com a promessa de alforria os chamados "Voluntários da Pátria". Cartas do próprio Duque de Caxias mostram o pavor da elite brasileira ao ver um exército de homens negros armados e treinados, temendo que eles voltassem e fizessem uma revolução no Brasil.


charge de jornal paraguaio retrata o exército brasileiro

​Em outras palavras, se a população negra e parda no Brasil continuou sendo maioria, não foi por "benevolência" das elites, mas porque o volume de africanos trazidos para cá era grande demais para ser apagado.


​O futebol nos números: a CONMEBOL e a realidade brasileira


​No campo de jogo, os números mostram dois lados da mesma moeda.


​Na CONMEBOL, os dados do Observatório da Discriminação Racial no Futebol mostram que, entre 2022 e 2023, foram abertos 41 processos por racismo na Libertadores e Sul-Americana. Desses, 23 casos (56%) vieram de torcedores argentinos contra times brasileiros.


​Isso escancara um vício cultural dos estádios argentinos, que durante décadas trataram ofensas raciais como "folclore de cancha" (provocação de torcida) e agora tomam um choque de realidade com as punições financeiras da CONMEBOL e as leis brasileiras.


​Como chumbo trocado não dói, o mesmo Observatório revelou que, só em 2023, aconteceram 136 casos de racismo dentro dos estádios brasileiros. Foi um salto de 51% em relação ao ano anterior, envolvendo ofensas contra nossos próprios jogadores, técnicos e árbitros.


​A provocação que fica é simples: com mais de uma centena de crimes de racismo por ano nos nossos próprios gramados, o Brasil tem moral para se colocar como o juiz ético da América do Sul?


​Três histórias reais para entender o debate


​Para sair das caricaturas de redes sociais, vale a pena conhecer três personagens que ajudam a entender como a história e a imigração se cruzam na Argentina.


​María Remedios del Valle: A Mãe da Pátria


​Você provavelmente nunca ouviu esse nome na escola, mas ela foi uma mulher negra que lutou de armas na mão nas Guerras de Independência da Argentina. O lendário General Manuel Belgrano a nomeou Capitã do Exército por sua coragem. Recentemente, a Argentina resgatou sua história: ela ganhou monumentos e o dia da sua morte (8 de novembro) virou o Dia Nacional dos Afro-argentinos.


​Bayan Mahmud: o menino de Gana no Boca Juniors

​Garoto nascido em Gana que chegou à Argentina ainda criança e acabou entrando para a base do Boca Juniors no início dos anos 2010. Ele se naturalizou argentino e sua história virou capa de grandes veículos esportivos na época, mostrando a curiosidade e o interesse da imprensa local em cobrir a adaptação dos novos imigrantes africanos no futebol do país.

Kiki Ramos: a pauta do momento


​Um atacante de origem haitiana que vem se destacando no futebol argentino. A ascensão dele gerou um debate curioso no Brasil, com setores da imprensa e torcedores especulando se a projeção dele não seria uma "jogada de marketing" ou uma "resposta encomendada" para aliviar as críticas internacionais sobre a falta de negros na seleção. Alguns canais de YouTube chegaram a criar uma asquerosa fake news, afirmando que "a torcida está revoltada com a presença do jogador", chegando a pedir sua expulsão (sic).

Essa desconfiança mostra como a paranoia e a rivalidade distorcem a forma como enxergamos a formação real de um atleta.

​Moral da História


​Tratar a Argentina como "o país mais racista do mundo" é uma narrativa rasa e politicamente conveniente.


​O racismo e a xenofobia nas arquibancadas argentinas são problemas sérios que precisam ser punidos com o rigor da lei e das federações. A própria sociedade argentina está sendo forçada a encarar essa mudança cultural.


​Porém, ver os Estados Unidos (com seu histórico de segregação legal) e o Brasil (com seus mais de 100 casos anuais de racismo nos estádios) vestirem a toga de juízes morais da América Latina revela um nível de hipocrisia que só a internet e a geopolítica conseguem criar.



Marcel Taques Pilatti, Curitiba, Agosto de 2026.