“Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei” (Nicolau Maquiavel)
Ultimamente, basta abrir qualquer rede social ou ligar a TV para ver a mesma frase repetida como se fosse uma verdade absoluta: "A Argentina é o país mais racista do mundo". O estopim para essa onda recente de indignação internacional veio de fora. Declarações de figuras globais (como o ator americano Samuel L. Jackson) e editoriais de jornais como o The Washington Post passaram a cobrar publicamente a ausência de jogadores negros na Seleção Argentina.
Do dia para a noite, o debate tomou conta da internet. Virou tempestade de memes, trocas de ofensas e acusações pesadas entre brasileiros, americanos e argentinos. Mas será que essa história é simples assim?... A ideia aqui não é passar pano para os episódios lamentáveis de racismo que vemos nos estádios sul-americanos, e que precisam ser punidos com rigor. (Aliás, nesse aspecto o Brasil dá exemplo à Argentina, pois é mais rigoroso na definição e na punição de crimes de injúria racial – apesar de tentativas recentes no Congresso).
Nosso objetivo é fazer algo que a internet quase nunca faz: olhar para os dados reais, para a história e para a geopolítica por trás dessa discussão.
O "cancelamento" da Argentina, o rage bait e a hipocrisia dos influenciadores
Para entender por que essa conversa explodiu com tanto vigor justamente agora, a gente precisa olhar para o cenário geopolítico mundial.
Com a chegada de Javier Milei à presidência, a Argentina adotou um alinhamento político escancarado com figuras como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Benjamin Netanyahu, em Israel. Isso colocou o país bem no meio da mira dos algoritmos de engajamento por indignação – o famoso rage bait. Levantamento comprova que a maioria dos comentários "anti-argentinos" veio de EUA e Brasil.
A conta fechou perfeitamente para vários lados: para a bolha progressista dos EUA, atacar a Argentina virou uma obrigação moral, projetando sobre o país vizinho a lógica do ativismo americano. Para o público do Oriente Médio, o ataque ao futebol argentino (sobretudo depois do polêmico Argentina x Egito, que misturou reclamações de arbitragem e acusações de racismo com base nos supostos erros!) virou uma resposta política direta à posição do governo Milei em relação a Israel. Por fim, para o torcedor brasileiro foi o pretexto perfeito para misturar a histórica rivalidade do futebol com a polarização ideológica de casa.
O resultado? O racismo (um problema real e sério, manifestado de diversas formas) virou munição e álibi para uma disputa geopolítica gigantesca.
O espetáculo seletivo da internet: o caso IShowSpeed
Quer uma prova de como o tribunal dos algoritmos opera com hipocrisia e caça de engajamento? Veja o exemplo do streamer americano IShowSpeed.
Por um lado, o influenciador foi vítima de racismo em estádios internacionais e a internet ruiu em indignação (com toda razão, pois qualquer agressão racial é inaceitável e criminosa). Porém, a mesma internet que exige pureza moral convenientemente ignora o histórico do próprio Speed, que já protagonizou cenas pesadíssimas de xenofobia contra torcedores asiáticos em plena Copa do Mundo e declarações abertamente misóginas em suas lives.
Isso escancara que, na lógica das redes sociais, a indignação moral raramente é sincera: ela é apenas um espetáculo em busca de cliques.
[Neste link, Speed chama seu jogador adversário de "MONKEY" (antes o havia chamado de nigga) e, em seguida, profere os mais abomináveis palavrões e menções a uma mulher que adentrou a sala virtual]
Onde estão os Negros na Argentina?
Um dos argumentos mais repetidos é que a Argentina "esconde" seus cidadãos negros ou que a seleção faz uma limpeza no vestiário. Só que a explicação para a cara do time argentino não é uma conspiração: é pura demografia.
Segundo os dados oficiais do último Censo do INDEC (o IBGE argentino), as pessoas que se declaram afrodescendentes no país representam menos de 0,7% da população total.
Diferentemente do Brasil, que recebeu cerca de 4,8 milhões de africanos escravizados durante o tráfico transatlântico (mais de 40% de todo o tráfico das Américas), a região do Rio da Prata recebeu um número absurdamente menor: por volta de 200 mil.
Para completar, no final do século XIX, aconteceram três fatores mudaram o mapa humano da Argentina:
1 - Surto de Febre Amarela: a epidemia de 1871 devastou os bairros mais pobres de Buenos Aires (como San Telmo e La Boca), onde a maioria da população afro-argentina vivia sem saneamento.
2 - a Enxurrada de Imigrantes Europeus. Entre 1880 e 1930, a Argentina recebeu mais de 6 milhões de italianos e espanhóis. Em um país com pouca gente, essa massa diluiu a proporção de negros quase instantaneamente.
3 - Miscigenação e Assimilação: a mistura entre homens europeus e mulheres afro-argentinas foi imensa, gerando um processo rápido de integração e diluição física ao longo das gerações.
O que dizem os negros que vivem na Argentina?
Enquanto influenciadores de fora cravam o "cancelamento" do país, a realidade relatada por negros que moram na Argentina traz um tom muito diferente.
Em canais de criadores negros – como no caso do canal Argentina con John (um morador vindo do Haiti) e em debates da própria mídia local (como no programa Cuiatv) –, o relato predominante de quem vive no país não é o de um ambiente de hostilidade ou segregação diária.
John, por exemplo, conta que mora na Argentina há mais de 15 anos e destaca o acolhimento, a facilidade de integração e como convites para churrascos e mate são a regra no convívio social. Ele aponta que o termo "negro" costuma ser usado no país até entre pessoas brancas como forma de tratamento afetuoso ou informal - algo que assusta quem chega de fora, mas que faz parte da dinâmica cultural local.
Muitos imigrantes africanos e caribenhos reforçam que o preconceito na Argentina ocorre em episódios isolados e que não sofrem "mais racismo" lá do que o preconceito ou a xenofobia que enfrentariam em outros cantos do mundo ou até em seus países de origem.
Nos programas de debate locais, quando a comunidade afro-argentina e imigrantes se sentam para discutir o tema, a conclusão dominante é clara: existem problemas estruturais e ignorância de indivíduos isolados, mas transformar a Argentina em um "pântano inóspito" é uma caricatura de quem analisa o país pela tela do celular.
"Telhado de Vidro"
Quando analistas americanos e brasileiros apontam o dedo para a Argentina, costumam esquecer a história do racismo dentro da própria casa.
Os Estados Unidos criaram um sistema de segregação jurídica brutal baseado na famosa regra da "uma gota de sangue" (one-drop rule). Essa régua colocou a sociedade em caixinhas raciais rígidas, onde a leitura da cor de pele é tão viciada que gera situações surreais.
O próprio astro da NBA, Kevin Durant - que supostamente teria "protestado" contra os argentinos, se recusando a cumprimentá-los em um evento um dia antes da Final, fato depois esclarecido -, admitiu em um podcast que, quando ouviu falar de Stephen Curry na juventude, achou que Curry era branco apenas por ter a pele mais clara.
Se até uma das maiores estrelas do basquete americano enxerga a diversidade do seu próprio país por um filtro tão raso e estereotipado, como esperar que essa mesma imprensa entenda a miscigenação da América Latina?
charge de jornal paraguaio à época retrata as autoridades brasileiras como macacos.
Já o Brasil apostou no mito da "democracia racial" enquanto tentava apagar a população negra na prática. Além de ter ensinado durante DÉCADAS nas escolas do país os BIZARROS termos mulato, cafuzo e mameluco- literalmente afirmando que havia raças diferentes (não apenas a humana) e, por consequência, seres híbridos -, no famigerado Congresso Internacional das Raças, em 1911, o cientista brasileiro João Baptista de Lacerda apresentou uma tese prevendo que a miscigenação e o branqueamento incentivados pelo Estado extinguiriam a raça negra no Brasil até o ano 2012.
Na Guerra da Tríplice Aliança (correto, Presidente Lula?), o Império do Brasil mandou milhares de escravizados para o front com a promessa de alforria os chamados "Voluntários da Pátria". Cartas do próprio Duque de Caxias mostram o pavor da elite brasileira ao ver um exército de homens negros armados e treinados, temendo que eles voltassem e fizessem uma revolução no Brasil.
charge de jornal paraguaio retrata o exército brasileiro
Em outras palavras, se a população negra e parda no Brasil continuou sendo maioria, não foi por "benevolência" das elites, mas porque o volume de africanos trazidos para cá era grande demais para ser apagado.
O futebol nos números: a CONMEBOL e a realidade brasileira
No campo de jogo, os números mostram dois lados da mesma moeda.
Na CONMEBOL, os dados do Observatório da Discriminação Racial no Futebol mostram que, entre 2022 e 2023, foram abertos 41 processos por racismo na Libertadores e Sul-Americana. Desses, 23 casos (56%) vieram de torcedores argentinos contra times brasileiros.
Isso escancara um vício cultural dos estádios argentinos, que durante décadas trataram ofensas raciais como "folclore de cancha" (provocação de torcida) e agora tomam um choque de realidade com as punições financeiras da CONMEBOL e as leis brasileiras.
Como chumbo trocado não dói, o mesmo Observatório revelou que,só em 2023, aconteceram 136 casos de racismo dentro dos estádios brasileiros. Foi um salto de 51% em relação ao ano anterior, envolvendo ofensas contra nossos próprios jogadores, técnicos e árbitros.
A provocação que fica é simples: com mais de uma centena de crimes de racismo por ano nos nossos próprios gramados, o Brasil tem moral para se colocar como o juiz ético da América do Sul?
Três histórias reais para entender o debate
Para sair das caricaturas de redes sociais, vale a pena conhecer três personagens que ajudam a entender como a história e a imigração se cruzam na Argentina.
María Remedios del Valle: A Mãe da Pátria
Você provavelmente nunca ouviu esse nome na escola, mas ela foi uma mulher negra que lutou de armas na mão nas Guerras de Independência da Argentina. O lendário General Manuel Belgrano a nomeou Capitã do Exército por sua coragem. Recentemente, a Argentina resgatou sua história: ela ganhou monumentos e o dia da sua morte (8 de novembro) virou o Dia Nacional dos Afro-argentinos.
Bayan Mahmud: o menino de Gana no Boca Juniors
Garoto nascido em Gana que chegou à Argentina ainda criança e acabou entrando para a base do Boca Juniors no início dos anos 2010. Ele se naturalizou argentino e sua história virou capa de grandes veículos esportivos na época, mostrando a curiosidade e o interesse da imprensa local em cobrir a adaptação dos novos imigrantes africanos no futebol do país.
Kiki Ramos: a pauta do momento
Um atacante de origem haitiana que vem se destacando no futebol argentino. A ascensão dele gerou um debate curioso no Brasil, com setores da imprensa e torcedores especulando se a projeção dele não seria uma "jogada de marketing" ou uma "resposta encomendada" para aliviar as críticas internacionais sobre a falta de negros na seleção. Alguns canais de YouTube chegaram a criar uma asquerosa fake news, afirmando que "a torcida está revoltada com a presença do jogador", chegando a pedir sua expulsão (sic).
Essa desconfiança mostra como a paranoia e a rivalidade distorcem a forma como enxergamos a formação real de um atleta.
Moral da História
Tratar a Argentina como "o país mais racista do mundo" é uma narrativa rasa e politicamente conveniente.
O racismo e a xenofobia nas arquibancadas argentinas são problemas sérios que precisam ser punidos com o rigor da lei e das federações. A própria sociedade argentina está sendo forçada a encarar essa mudança cultural.
Porém, ver os Estados Unidos (com seu histórico de segregação legal) e o Brasil (com seus mais de 100 casos anuais de racismo nos estádios) vestirem a toga de juízes morais da América Latina revela um nível de hipocrisia que só a internet e a geopolítica conseguem criar.
Opinião - Richard Santos e Rosane Borges: Argentina e a política de inimizade
Richard Santos, Rosane Borges·6 min read·Jul 20, 2026
Não é mais novidade para ninguém, pelo menos para os habitantes de boa parte da tríplice fronteira, a arquirrivalidade entre Brasil eArgentinanofutebol, marcada pela provocação de ambas as partes e pelas piadas nacionalistas amplamente difundidas que extrapolam as fronteiras do esporte. Eis que, nesta recém-encerrada Copa do Mundo de 2026 —em que pesou o clima de beligerância—, esse antagonismo escalou graus exorbitantes e chegou a um patamar no qual a tradicional disputa migrou para o terreno da política de inimizade.
Umapergunta que não quer calar: para além dos motivos aparentes, que se apresentaram com o verniz da evidência ("aFifafavorece a Argentina"), do dado incontestável ("Maradonafez gol com a mão"), do engajamento político e antirracista ("Messinão se posiciona politicamente"; "A Argentina é racista"), quais outros fatores devem entrar em campo para nos ajudar a compreender por que chegamos a esse ponto de interdição discursiva em relação à seleção do país vizinho?
Antes que o caro leitor nos pergunte —"Mas esse rol não é suficiente para riscar a Argentina do mapa?"—, já respondemos antecipadamente que não, pois estas "ocorrências", que, sim, deveriam indignar a todos, não são obra exclusiva do time de Messi. Não se trata de defender a ideia superada de que futebol e política não se misturam. Defendemos justamente o contrário.
Quer parecer que não nos damos conta de que há uma Argentina que chega às telas durante a Copa do Mundo e outra que permanece fora do enquadramento convencional. A primeira veste a camisa albiceleste, alimenta antigos estereótipos; a segunda, reflexo de nós mesmos, é negra, indígena, periférica e luta incansavelmente contra o apagamento de sua própria história, contra a ausência de corpos negros nas diversas esferas —além do futebol. Entre uma e outra, aquele imaginário colonial continua organizando a forma como brasileiros e argentinos se veem.
Pouca gente se recorda de que Brasil e Argentina viveram, na primeira década dos anos 2000, um momento de convergência estratégica. A reorganização da televisão pública argentina por meio da Lei de Meios e da Televisión Digital Abierta (TDA), assim como a criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), não foram iniciativas isoladas. Ambas dialogavam com um mesmo projeto de integração latino-americana impulsionado pela criação da TeleSur, em 2005.
Essa aproximação talvez revele algo que o futebol frequentemente encobre: Brasil e Argentina produziram muito mais intercâmbios do que rivalidades. Talvez por isso nos incomode tanto perceber que, enquanto políticas de Estado tentavam construir instrumentos comuns para fortalecer uma identidade latino-americana, nossos imaginários continuavam sendo produzidos por narrativas estereotipadas que insistiam em nos apresentar como adversários históricos.
A Argentina não branca permanece atuante nos bairros populares, na cultura afro-platina, na religiosidade afrodiaspórica, na música, na organização política e na produção intelectual.
Rechaçar a síntese que o imaginário colonial nos oferece sobre a Argentina e o Brasil, por meio da política de inimizade, exige disposição para a escuta de outras narrativas que ultrapassam a Copa do Mundo e jogam um jogo muito diferente daquele que foi imposto por um quadro comum de referência que não só repeliu corpos negros dos campos mas chutou para bem longe as possibilidades de reconciliação com as "ancestralidades desconfortáveis", negras e indígenas, tanto lá quanto cá.
O estranho caso de um país em que um apresentador com milhões de seguidores, num canal de concessão pública, pode dizer abertamente que tem "Pensamentos intrusivos" e que "odeia" um país.
Mas é piada. "Eles" é que são racistas, preconceituosos e xenófobos.
A última semana foi um prato cheio para quem gosta de rótulos e "definições definidoras definitivas", conforme o lado da moeda em que esteja - ou prefira.
Nos EUA, o candidato a presidente que é tachado de "inimigo da democracia" sofre uma tentativa de assassinato clamorosa.
Ainda nos EUA, mas por mero acidente geográfico-logístico neste caso, vimos imagens dos jogadores da seleção argentina entoando um cântico que ataca a "legitimidade" dos jogadores da seleção francesa e usa de tom pejorativo para se referir a transexuais.
No Brasil, o presidente que é defendido como um baluarte da democracia, da igualdade e do respeito entre gêneros, classes e origens afirma, em reunião ministerial, que "se for corinthiano, tudo bem [bater na mulher]".
Ainda em terras brasileiras, além da fala de Lula, movimentaram as redes as notícias sobre duas situações: os bonecos dependurados (simulando enforcamento) no Engenhão e a onda de memes sobre o Ministro da Fazenda.
***
Os 5 fatos mencionados acima têm personas públicas envolvidas, com maior ou menor grau de intensidade. E, apesar de aparentemente desconexos, fazem parte de uma grande teia.
Senão, vejamos.
NO ALVO
Na América, até que não restasse mais nenhuma dúvida dada a seriedade do caso, espalhou-se um questionamento sobre a veracidade do atentado a Donald Trump.
No Brasil, uma situação constrangedora aconteceu durante Jornal da Globo News, quando um especialista disse que ainda não era possível afirmar que houve mesmo um atentado - talvez porque, como afirmou o deputado André Janones, era tudo um grande esquema mundial da "extrema-direita".
A tentativa de homicídio qualificado para com o candidato "da extrema-direita" levou o atual presidente a desistir de oficializar sua candidatura, mesmo após ter enfrentado imensas críticas e até mesmo uma suspensão no financiamento de sua campanha - antes do atentado, inclusive.
Criou-se, à época, uma narrativa de que o que estaria por trás dos pedidos - até mesmo editoriais de grandes jornais - de desistência da candidatura era nada menos do que puro etarismo, isto é, o preconceito e a discriminação por conta da idade de alguém (ironia das ironias, o adversário é apenas 3 anos e meio mais jovem).
Com a desistência oficial, motivada pura e simplesmente pelo medo da ascensão de intenções de voto no adversário, a probabilidade é que Biden seja substituído justamente por sua vice: mulher, negra e filha de imigrantes. Representante, portanto, de tudo que o adversário não gosta e dissemina preconceito.
ATAQUE ORQUESTRADO
Os memes com relação ao ministro da fazenda brasileiro agora têm um novo adversário: a narrativa de que se trata de pura desinformação criada e fomentada pela "extrema-direita", para desviar atenção do publico e criar rejeição para com o governo.
A Folha de S. Paulo se ocupou de chamar uma empresa especializada para efetivar análise do fluxo dos memes, procurando confirmar se era possível provar a origem "de extrema-direita", mas a conclusão foi de que foram mesmo espontâneos.
Ora, se o Brasil é chamado até mesmo pela propaganda estatal de país com multiculturalidade e, portanto, com preconceitos apenas relativos e nunca diretos - e, consequentemente, característica máxima do brasileiro é a "autopiada" e a "capacidade de rir das tragédias e encontrar caminhos para seguir" -, a produção dos memes e piadas não seriam apenas um reflexo natural?
DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS
Membros da torcida botafoguense penduraram dois bonecos estampando as fotos de duas personalidades importantes do futebol brasileiro: Ednaldo Rodrigues, presidente da CBF, e Leila Pereira, presidente da S.E. Palmeiras. Ambos os bonecos simulavam um enforcamento, e estavam dispostos no estádio Nilton Santos, o Engenhão.
Ainda que houve repercussão na imprensa - e o tom foi, sim, de reprovação ao ato -, pouco ou nada se teve da associação mais intrínseca da representatividade dos personagens: Rodrigues, baiano/negro; Pereira, mulher. Em outras palavras, mesmo no tom crítico nãos e viu misoginia/xenofobia/racismo no ato promovido pelos botafoguenses, e nem mesmo a histórica disputa político-econômica entre RJ e SP foi entendida como pano de fundo.
Ano passado, a torcida do Atlético de Madrid realizou ato muito semelhante, colocando um boneco representando Vinícius Junior dependurado debaixo de uma faixa, que dizia: "Madrid odeia o Real". Não houve, lá, quando da repercussão do ato no Brasil, nenhum entendimento de que se tratava de rivalidade esportiva, econômica ou política (o próprio uso do termo Madri por parte dos torcedores do Atleti em contraposição ao 'Real' já demonstra esse cunho) como pano de fundo, mesmo que o racismo tenha sido inegável.
ERA SÓ UMA PIADA
A fala de Lula, é bom salientarmos, encontrou reprovação quase unânime na mídia. Justiça seja feita, a Globo adotou tom bastante crítico à "piada" realizada, e enxergou nela um caminho torto para a "legitimização da violência doméstica", uma vez que o presidente tentou 'amenizar' para os corinthianos como ele.
É óbvio que o entorno do presidente, formado tanto por seus ministérios quanto por seus militantes (em alguns casos, se confundem, mas aqui estamos falando do discurso adotado na defesa de sua fala), não hesitou em usar o famoso "ruim, mas não tanto": para Anne Moura, Secretária de Mulheres do governo, Lula "foi infeliz" ao usar '"tom jocoso", mas nunca, jamais, em tempo algum e de forma alguma incentivou a violência contra as mulheres.
Foi a mesma defensiva (e não defesa) utilizada por Gleisi Hoffman quando, nas eleições de 2022, Lula disse, no palanque, "Quer bater em mulher? vá bater noutro lugar, mas não em casa nem no Brasil". Hoffman afirmou que foi "uma frase mal colocada". Lá, a imprensa adotou o termo "gafe" ou "escorregada" para descrever a fala do então candidato.
O histórico de falas do tipo por parte de Lula vem de longe e não se restringe ao momento político, e talvez o grampo telefônico de 2016 seja o melhor exemplo: entre expressões como "grelo duro" e risadas sobre os xingamentos (pê-uh-tê-ah) proferidos a Marta Suplicy, Lula disse que Clara Ant - presidente do Instituto Lula à época e amiga do presidente desde os anos 70 - achou que era "um presente de Deus" quando cinco homens adentraram sua casa, antes de saber que eram agentes da Polícia Federal.
AOS AMIGOS, A LEI; AOS INIMIGOS, O RIGOR DA LEI.
Por fim, chegamos ao cântico dos jogadores argentinos - reprodução de torcedores na época da Copa do Mundo do Qatar, e que ainda repercute em estádios do país. A tal canção foi feita para atacar os atletas franceses, afirmando que eles não são franceses e sugerindo que, por serem africanos, são inferiores - ecoando o que (lá, sim) é uma pauta "da extrema-direita" (e não apenas na própria França, como em toda a Europa Ocidental, irrompendo as barreiras da política).
Indefensável, de fato, e também um reflexo da impunidade e relativismo que imperam no país vizinho com relação a falas e termos discriminatórios e pejorativos, com todas as concessões que se faça a um povo que, a exemplo do brasileiro, também é expert em falar mal de si mesmo.
Chama a atenção, porém, a indignação seletiva, e o uso de tratamento diferenciado quando se trata dos "rivais": ora, as vozes brazucas que desdenham de um tiro e promovem fake news em TV aberta são as mesmas que se dizem chateadas com a profusão dos memes; as vozes que se indignam ao ver os brasileiros perseguidos na Espanha ou em Portugal não se indignam com os brasileiros perseguidos na rua ao lado.
afirmação de Lula em 2003.
Por fim, as vozes que encontram nos regionalismos e na sua ausência de instrução formal as justificativas para as falas homofóbicas, xenofóbicas, machistas e racistas do político preferido são as mesmas que se dizem indignar com ofensas de jogadores de futebol, geralmente com as mesmas origens e (falta de) oportunidade) do presidente - e não devem ser isentados por isso, pois, além de estarmos numa época em que tudo é visto por bilhões ao mesmo tempo, a grana conquistada por eles é o suficiente para buscarem instrução e reavaliação de (maus) costumes.
***
Por que é que você vê o cisco que está no olho do seu irmão e não repara na trave de madeira que está no seu próprio olho? Como é que você pode dizer ao seu irmão: “Me deixe tirar esse cisco do seu olho”, quando você está com uma trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão.
Muito foi dito sobre a saída de Neymar do Barcelona. A crônica esportiva se dividiu em 'ganacioso' e 'alguém que busca um sonho'.
Praticamente todos falaram em 'sair da sombra' de Messi, pois o jogador argentino é, ao mesmo tempo, superior ao brasileiro e mais adaptado/idolatrado na Catalunha.
Mas o ''jornalista'' brasileiro Ricardo Jordão Magalhães -- que se gaba por ter mais de 33 mil comentários em seu blog -- foi além e percebeu que o verdadeiro motivo para Neymar sair do Barça é... racismo.
Ficando no Barcelona, os caras sempre vão dar um jeito de deixar o Neymar em segundo ou terceiro lugar. O Neymar pisou na bola com o Barcelona? Nem a pau!
Veja uma coisa… O Instagram do Neymar tem 73 milhões de seguidores. O Instagram do Messi tem 72 milhões de seguidores. No Instagram do Neymar você encontra várias fotos do Messi.
postagem de Messi no aniversário de Neymar
Sabe quantas fotos do Neymar você encontra no Instagram do Messi? ZERO!
NENHUMA! O Messi nunca publicou uma foto do Neymar no Instagram dele. Nunca. E olha que o Nessi [sic] publica trocentas fotos com uns zé manés que nem você sabem quem são. Não é estranho que o cara nunca publicou uma foto do principal colega de trabalho???
As pessoas não abandonam os seus empregos por causa de dinheiro.
As pessoas abandonam por causa do chefe, dos colegas, etc. Eu imagino que para esse povo do Barcelona, o Neymar – neguinho, brasileiro e pagodeiro – é um “zeca do terceiro mundo que temos que ter aqui porque ele traz público, joga bem, faz gols, mas que não necessariamente é um igual a nós. Amigos são amigos, negócios são negócios.”
Desnecessário falar sobre a teoria da conspiração. Mas vale a menção ao 'instagram do Messi'.
Além do post de aniversário [imagem acima], foram várias fotos ao longo dos 4 anos como parceiros. Principalmente, no dia do anúncio da saída do brasileiro, Messi postou uma retrospectiva de imagens com Neymar.
O envolvimento com Reality shows vai além do ''ser espectador'' -- confunde-se empatia com torcida, preferência com urgência, expectativa com esperança.
Mais um caso aconteceu na última terça-feira (13/12/2016), após a final do Master Chef - Profissionais.
"Torcedores" de Marcelo ficaram indignados com a derrota do chef e passaram a questionar a lisura dos jurados, em especial Paola Carosella.
Um destes revoltados foi Cito Giovezzio (ou Ciro Giovenazi, afinal?) que, mais do que questionar a ética e a imparcialidade da julgadora, ofendeu-a usando a fórmula clássica de atacar a nacionalidade (argentina!).
Como se vê, outra fórmula clássica usada por Giovezzio vem a seguir: apagar o post. Mas o retweet de Paola já foi suficiente para escancarar o preconceito e arrogância do "macho de internet".
Insatisfeito, destila ofensas aos argentinos e às mulheres, numa sequência só, afirmando serem "estereótipos reais".
O que nos felicita é que, apesar dos Giovezzios que existem nesse país -- e eles não são poucos --, ainda existem pessoas como a particpante Vanessa, presente na 3ª edição do programa.
Atualização de 9 de Março de 2017: na nova edição do programa, nova discussão entre espectadores e Carosella, via Twitter, e novas "menções" à nacionalidade da chef (confira detalhes clicando aqui).
Então, uma escola de inglês pede, em seu material didático, que os alunos façam comparações entre brasileiros e argentinos.
Abaixo alguns exemplos do que surgiu (entre parênteses, a inicial do nome e a idade):
"Os brasileiros são mais bonitos que os argentinos na minha opinião! Argentinos são muito estúpidos com os brasileiros, porque eles não gostam de nós" (E. 14)
- Ei argentino... - Ei macaco, o que você está fazendo aqui? - Eu vim aqui pra f... tua mulher - Vá se f... seu preto fedido - Seu racista fdp! (L. E. - 16)
"Na minha opinião, o argentino é muito mau, arrogante e estúpido" (G. 13)