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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Isso é Jornalismo? (65)

Na última semana, dois mitos do futebol argentino foram alvo de matérias jornalísticas de baixa qualidade do Brasil.

Messi

Home do GloboEsporte.com (foto abaixo) fala sobre possível agressão gratuita de Messi: em português bastante questionável -- seria pra "se aproximar da galera"? --, lê-se TAPA NA CARA e REVIDA.

No entanto, basta ver o vídeo e entender que:

1) Tem alguma história anterior: provavelmente algum "entrevero" entre os dois jogadores;

2) Messi de fato aguarda o camisa 33 adversário e o questiona, gesticulando com o braço em posição horizontal, como a mencionar uma possível "cotovelada";

3) O adversário responde, possivelmente de modo irônico, dizendo que não houve nada, e REPLICA o gestual, encostando no peito de Messi ANTES de este lhe "dar um tapa";

4) Não foi, nem de longe, um tapa, se não o famoso peteleco que, repete-se, veio APÓS o adversário encostar em seu corpo;

5) Mais do que isso, o #33 desvia do "tapa" e os dois se encaram.


Lance absolutamente comum em QUALQUER partida de futebol, seja no amador ou no profissional.

***

Di María

Angél Di María atuou pelo Rosário Central pelo jogo de volta das oitavas da Libertadores da América. Em determinado momento, sofre falta. Fica um tempo no chão, enquanto a torcida corinthiana certamente direciona todo tipo de elogio e bendição sobre sua vida.

O campeão mundial de 2022 levanta calmamente, arreia a parte direita de seu calção e mostra na coxa direita a tatuagem com a taça da Copa do Mundo.

Manchete do jornal Lance! (hospedado no portal MSN), reproduzida abaixo, fala em "atitude" que gerou "irritação" e grafa "Sem sentido", como a citar torcedores do clube Paulista.


Novamente, basta ver o vídeo e entender que a torcida do Corinthians o provocou e ele "respondeu à altura", sem nenhum xingamento ou gesto obsceno.


Assim como no caso de Messi acima, tudo normal, parte de QUALQUER partida de futebol, seja no amador ou no profissional.

No entanto, para a puritana imprensa brasileira, parece que Messi e Di Maria foram "desrespeitosos"...


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Isso é Jornalismo? (63)

Muito foi dito sobre a saída de Neymar do Barcelona. A crônica esportiva se dividiu em 'ganacioso' e 'alguém que busca um sonho'.

Praticamente todos falaram em 'sair da sombra' de Messi, pois o jogador argentino é, ao mesmo tempo, superior ao brasileiro e mais adaptado/idolatrado na Catalunha.

Mas o ''jornalista'' brasileiro Ricardo Jordão Magalhães -- que se gaba por ter mais de 33 mil comentários em seu blog -- foi além e percebeu que o verdadeiro motivo para Neymar sair do Barça é... racismo.

Ficando no Barcelona, os caras sempre vão dar um jeito de deixar o Neymar em segundo ou terceiro lugar.

O Neymar pisou na bola com o Barcelona? Nem a pau! Veja uma coisa…

O Instagram do Neymar tem 73 milhões de seguidores. O Instagram do Messi tem 72 milhões de seguidores.

No Instagram do Neymar você encontra várias fotos do Messi.


postagem de Messi no aniversário de Neymar
Sabe quantas fotos do Neymar você encontra no Instagram do Messi?

ZERO! NENHUMA!

O Messi nunca publicou uma foto do Neymar no Instagram dele. Nunca.

E olha que o Nessi [sic] publica trocentas fotos com uns zé manés que nem você sabem quem são. 

Não é estranho que o cara nunca publicou uma foto do principal colega de trabalho??? As pessoas não abandonam os seus empregos por causa de dinheiro. As pessoas abandonam por causa do chefe, dos colegas, etc.

Eu imagino que para esse povo do Barcelona, o Neymar – neguinho, brasileiro e pagodeiro – é um “zeca do terceiro mundo que temos que ter aqui porque ele traz público, joga bem, faz gols, mas que não necessariamente é um igual a nós. Amigos são amigos, negócios são negócios.”

Desnecessário falar sobre a teoria da conspiração. Mas vale a menção ao 'instagram do Messi'.

Além do post de aniversário [imagem acima], foram várias fotos ao longo dos 4 anos como parceiros. Principalmente, no dia do anúncio da saída do brasileiro, Messi postou uma retrospectiva de imagens com Neymar.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Off-Topic (18)

*Postagem número 500 da história do blog.

"Cântico ofensivo". "Música agressiva". Muitas foram as maneiras que torcedores e imprensa brasileiros descreveram o "grito de guerra" entoado pela torcida argentina durante a Copa do Mundo.

Segue a letra:
Brasil, décime que se siente / tener en casa tu papá! 
Te juro, aunque pasen los años
Nunca nos vamos olvidar!
Que el Diego te gambeteó / y el Cani lo vacunó
Están llorando desde Italia hasta hoy!
A Messi lo van a ver
La Copa nos va a traer
Maradona és mas grande que Pelé!
Traduzindo livremente os versos, temos o seguinte: "Como vocês se sentem, brasileiros, recebendo na sua casa o seu chefe? Nós juramos: passe o tempo que for, nunca esqueceremos que Maradona os driblou e Caniggia fez o gol... não pararam de chorar desde então! Vocês irão ver o Messi levantando a Copa do Mundo, e Maradona é maior que Pelé".

Qual parte (ou seria toda a canção?) é realmente ofensiva, ataca a moral e a história do Brasil e seu povo?

"Chorando desde Itália até hoje"

Um trecho que demonstra um erro de interpretação é o "desde Itália...". Muitos comentários na internet, à época, davam a entender que seria uma referência à derrota da Seleção brasileira na Copa de 1982, para os italianos, episódio conhecido como "Tragédia de Sarriá" e eternizado na imagem da capa do Jornal da Tarde.
José Carlos Villela Jr., então com 10 anos de idade, foi
símbolo da tristeza que assolou o país naquela data.
Não, a canção não fala sobre aquele jogo: fala das oitavas-de-final da Copa de 1990, que aconteceu em território italiano, quando a seleção da Argentina eliminou o time do Brasil após vencer a partida por 1 a 0, gol marcado por Caniggia (el Cani) concluindo jogada individual de Maradona (Diego).

"Estão chorando até hoje". Sim: imprensa e torcida ainda falam da partida sem nenhum apuro dos lances e análise das qualidades individuais: fala-se tão somente da "água batizada". Fala-se que a vitória foi imerecida. Fala-se que todos os atletas foram "dopados". Fala-se que foi um roubo. Enfim...

Muito diferente das palavras do próprio jogador envolvido na situação, o lateral esquerdo Branco: "Já falei sobre isso... tomei a água e me senti muito tonto. Mas sempre reconheci, também, que a Argentina não nos eliminou por isso, e sim pela jogada genial de Maradona".

Na verdade, a seleção brasileira foi até mesmo beneficiada pela arbitragem: em chance clara de gol de Caniggia, um impedimento absolutamente inexistente foi marcado eno primeiro tempo, e a compilação abaixo mostra a total passividade do árbitro no que tange às faltas e cartões - o próprio Branco deveria ter sido expulso, após falta violenta acontecida nos acréscimos:



"Maradona é maior que Pelé"

A segunda estrofe da canção também foi muito criticada por brasileiros: "eles vêm aqui e dizem que Maradona é maior que Pelé! Como ousam?!".

Esse assunto já foi muito, muito debatido por aqui: 1) brasileiros acham inadmissível o comparativo com outro jogador -- Pelé seria um atleta absolutamente superior, muito melhor que tudo e todos -- e 2) conta-se que só e unicamente "os argentinos" acham Maradona tão bom assim.

Não vem ao caso rebater tais afirmações. Porém, vale lembrar que a resposta da torcida brasileira à canção argentina foi uma paródia de uma melodia polonesa, e conta com a seguinte letra: "Mil gols, mil gols, mil gols, mil gols... Só Pelé, só Pelé, Maradona cheirador!".

Uma comovente criatividade, e tom semelhante, certo?

Mas o estranho, mesmo, foi ver a torcida brasileira citando e exaltando Pelé. Nem na música popular, muito menos nos cânticos de estádios, o nome do rei do futebol é usado. Já Maradona, é presença constante tanto no cancioneiro argentino quanto nas músicas das "hinchadas".

De repente, a mesma nação que sempre menosprezou (e continua a fazê-lo) aquele que é seu maior ícone no esporte, o usa como escudo para enfrentar as "ofensas" argentinas.Sobre esse assunto, vale ler a excelente crônica de Bob Fernandes: "Brasil despreza e não merece Pelé".



Uma segunda canção criada por torcedores brazucas durante o torneio falava de Pelé. Um trecho: "Se você é argentino, então vai tomar no cu!".

"A musiquinha deles"

"Eles já se foram há algum tempo. Levaram para casa seus cânticos provocativos." É assim que a reportagem do 'Bom dia, Brasil' (exibida em agosto) se referiu aos torcedores argentinos e à canção 'Décime que se siente'.

Entretanto, não se tratava de uma matéria feita para lembrar a maneira que os hermanos torceram por sua seleção durante a Copa do Mundo: a produção mostrou as mais variadas paródias feitas por torcidas organizadas dos times brasileiros.

Após serem reproduzidas as versões de corinthianos, flamenguistas, gremistas e muitos outros, a apresentadora do telejornal conclui: "finalmente aquela musiquinha irritante foi melhorada aqui pelas nossas torcidas".

Melhorada?!

Depois da exibição do programa global, outras torcidas criaram suas versões. A do São Paulo Futebol Clube, por exemplo, menciona uma suposta homossexualidade de atletas que joga(ra)m pelo Corinthians.

O jornal argentino Olé também falou da nova febre nacional, com a seguinte manchete: "Agora eles gostam". O diário grafou: "o hit argentino segue tocando, mas o que mais surpreende é que está sendo cantado pelos próprios brasileiros"

No fundo, talvez a canção argentina tenha incomodado tanto o povo brasileiro porque, diferentemente do que acontece por lá, aqui não existe a cultura de se torcer pela seleção.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Muito Além do Futebol... (95)

Arte exposta no muro de uma escola (!) em Piracicaba, São Paulo. Foto enviada por José Liborio.


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Off-Topic (12)

E finalmente começou o Copa do Mundo.

Quarta-feira, em entrevista ao Olé, o ex-atacante Hernán Crespo disse que, caso a Argentina vença o torneio, será melhor "ter um helicóptero pronto para decolar, porque irão matá-los [os jogadores]".

Há pouco mais de um ano, Lionel Messi deu essa entrevista ao canal TyC Sports, falando sobre seu sonho de ganhar o mundial.

Ao final, o repórter lhe pergunta: "Você tem claro que, se sairmos campeões no Brasil, nos matam a todos, não?! Não é o lugar pra se sagrar campeão, justo no Brasil! (risos)..."

A resposta de Messi: "Não importa... que nos matem a todos!"



É isso. Boa Copa do Mundo a todos.

domingo, 1 de junho de 2014

Isso é Jornalismo? (55)

O tal do "Fantástico" há muito se transformou numa das coisas mais patéticas da TV aberta, perdendo em audiência e ganhando em piadas (sobre si mesmo).

Agora, às vésperas do mundial, criaram um "robô Messi" para ser o comentarista oficial do Central da Copa. Lembrando que o referido programa começou na Copa do Mundo passada, e tinha uma personagem argentina.

Isso não é preconceito, não é discriminação, não é nada disso... é simplesmente UMA MERDA.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Muito Além do Futebol... (82)

A imagem acima é de peças produzidas pela linha de camisetas de Sergio K: a ideia é "incentivar" os brasileiros a provocar os rivais. Além dos insultos a Messi e Maradona, há outras "homenageando" Balotelli, Zidane e Cristiano Ronaldo.

Segundo matéria da revista RollingStone, as mensagens presentes nas camisetas foram acusadas de serem homofóbicas ("Cristiano Ronaldo is gay", diz uma delas).

A proposta, descrita na promoção das camisetas, foi bem clara: "Que tal cutucar os argentinos com uma frase provocativa estampada numa camiseta desconfiando da masculinidade de Maradona?"

Confira reportagem da Folha de S. Paulo, sobre a infeliz campanha.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Muito Além do Futebol... (80)

Desde que Neymar foi contratado pelo Barcelona FC, surgiram dois tipos de extremismo: de um lado, os que apontavam que ele iria "destronar" Messi, mostrando "quem era o melhor de verdade", e que então as desculpas (?) "acabariam". É importante lembrarmos que já desde 2011 boa parte da imprensa brasileira afirmava que, na verdade, o melhor jogador do mundo era Neymar e que ele só não era visto assim, ainda, por conta do etnocentrismo europeu.

Do outro lado - algo que se intensificou desde que Gerardo "Tata" Martino foi contratado como técnico da equipe catalã - timidamente foram aparecendo teorias da conspiração que apontavam para um complô envolvendo o Pai do Messi-Messi-Tata-Xavi-Iniesta-Presidente do Barça-Vicente del Bosque-Alejandro Sabella para um boicote histórico a Neymar, fazendo com que ele não conseguisse desenvolver seu futebol e, por consequência, chegasse à Copa do Mundo abaixo do nível esperado.

A contratação hiper-super-mega-faturada do craque brasileiro pela equipe catalã teve como consequência a renúncia do presidente do Barcelona, algo sem precedentes na história do clube centenário. Mesmo assim, paradoxalmente, as ideias mirabolantes só fizeram aumentar.

Essa "teoria da conspiração", diferentemente daquela da Copa de 1998, já é melhor trabalhada, pois nasce antes mesmo que se saiba o resultado: ora, uma eventual vitória da seleção brasileira no torneio seria, portanto, uma prova da superioridade inquestionável do "nosso" futebol que, mesmo contra tudo e contra todos e sendo prejudicado intencionalmente, ainda triunfa; em caso de derrota, basta lembrar do que "eles" fizeram com a "nossa" joia e se confirmaria a única razão para que a vitória "nos" escapasse.

Tata Martino conversa com Neymar, em treino do Barcelona
Enquanto esse discurso sem vergonha ficava só na boca dos torcedores, tudo bem. Torcedor adora acreditar no impossível, e pensar que o mundo gira em torno de sua imaginação. Mas quando ele começa a aparecer na voz de jornalistas e passa a tomar ares de verdade, alguma coisa está errada.

Mês passado, em 19 de fevereiro, o jornalista André Avelar publicou esta nota no portal R7: "ArgenTINO até no nome, Gerardo MarTINO é ruim da cabeça ou só pode estar de má vontade com a seleção brasileira às portas da Copa 2014. O técnico do Barcelona deixou Neymar no banco de reservas pelo segundo jogo consecutivo. (...) Tata, por favor, reconsidere a exagerada rivalidade entre Argentina e Brasil. Neymar precisa estar à vontade para chegar com tudo na Copa do Mundo."

Na última segunda-feira (17), Muricy Ramalho esteve no "Bem, Amigos", do SPORTV e comentou a respeito da situação de seu ex-pupilo: "quando [Neymar] começou a jogar do jeito que gosta e se mexer, falou: "treinador, dá um tempo aí", e começou a driblar e fazer gols, e foi o Neymar e foi para a manchete. Mas agora começou tudo de novo. Outro dia foi bem claro, duas jogadas contra o (Manchester) City, o Messi pegou e o Neymar abriu livre para fazer o gol, e o Messi não meteu a bola. Estou sentido o moleque triste, porque se percebe que fazem o jogo sempre para um jogador só. Agora põe no banco e está chegando a Copa do Mundo", disse Muricy.

Aproveitando que Muricy falou especificamente do último jogo contra o City, segue aí um compilado de todos os lances (passes recebidos, faltas sofridas, finalizações, assistências) de Neymar na partida. Muricy falou em "duas vezes que Messi tinha Neymar livre e em condições e não passou". Perguntamos: o que dizer do lance que ocorre a partir dos 3:00 do video?


O narrador Cleber Machado, convidado do programa, também seguiu essa linha, falando de Copa do Mundo e "lembrando" que o técnico Martino é argentino. No entanto, o programa da tv a cabo ficou mais no campo da especulção.

Mas todas essas insinuações com relação a Messi e a Martino continuam não configurando algo mais direto, grave. No entanto, o artigo escrito pelo jornalista Fábio Sormani - cujo blog é uma ótima referência para os fãs de basquete, por exemplo -, publicado ontem (18), atingiu o nível mais rasteiro da união entre teoria da conspiração e preconceito com argentinos.

Destacamos trechos do lamentável artigo -- o qual, é sempre bom lembrar, é hospedado no portal Terra --, abaixo (o link está aqui).

AO MANTER NEYMAR NO BANCO, GERARDO MARTINO ESTARIA A SERVIÇO DA ARGENTINA?

O nome dele? Gerardo Martino. O que ele faz? É o técnico do Barcelona. Qual a nacionalidade dele? Argentina. O que ele faz de tão abominável? Deixa Neymar no banco.
E por que isso é tão abominável? Porque ele é argentino e deixa Neymar no banco porque Neymar é a principal estrela do futebol brasileiro, o homem que pode levar o Brasil ao título do Mundial deste ano.
E por que ele faz isso? Ora, porque ele é argentino. E o que tem isso? Ora, nós, brasileiros, somos os grandes rivais dos argentinos.
(...)
Porque Neymar é brasileiro e Martino é argentino
É isso: a culpa pelas nossas falhas e fracassos é sempre da Argentina, não é, William Bonner?



Atualização de 23 de março: Neymar foi escalado como titular na partida entre Real Madrid e Barcelona. Frase do técnico argentino antes do clássico: "Neymar é um dos cinco melhores jogadores do mundo. Tentarei fazer com que ele não se sinta apenas mais um jogador, porque não é" O resultado? vitória do Barcelona, com três gols de Messi. O argentino deu vários passes para Neymar em ótimas condições, e o brasileiro não aproveitou, sendo substituído por Pedro, que acabou rendendo melhor - individual e coletivamente.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Isso é Jornalismo? (49)

O fato é um só, mas foi desdobrado em duas notícias.

A primeira: "Jornal inglês escolhe Messi como o melhor do mundo em 2013; Neymar é o 6º". Trata-se da lista elaborada pelo The Guardian. Legal. Essa "eleição" saiu no último dia 24 e foi relativamente bem divulgada. Bom para o Brasil, ter um atleta entre os 6 melhores do mundo, mostrando que ele está no caminho certo.

Porém, um dia depois, o mesmo portal do link acima dá novo destaque à referida lista, com outro enfoque, agora: "Brasil supera Argentina em lista de melhores do mundo de jornal inglês". Repetindo: é o mesmo jornal, a mesma lista, a mesma notícia de um dia antes.

Mas alguém foi lá e resolveu contar os 100 "eleitos" e notou que os três países com mais representantes são a Espanha (16), o Brasil (11) e a Argentina (8). [Importante que Diego Costa foi contabilizado como brasileiro, na versão do UOL, e a rádio CBN foi outro veículo a reproduzir a matéria].

Portanto, ainda que não seja o número 1, o Brasil está na frente da Argentina.

O texto tem um momento bastante hilário: "Mesmo com poucos nomes presentes na lista, a Argentina não fica muito atrás e mais uma vez tem Messi encabeçando o ranking do jornal.". Tão contraditório que nem merece comentário. Um típico exemplo do jornalismo receita de bolo.

Ou então, um presente de Natal para a nação: "superamos" a Argentina, afinal.

Quer orgulho maior?

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Isso é Jornalismo? (46)

Há 5 meses, fizemos aqui uma matéria falando sobre as acusações de sonegação fiscal que recairam sobre o astro Lionel Messi. Em nenhum momento falamos serem falsas ou injustas as cobranças, mas ponderamos que acusação é diferente de investigação e que ser investigado não significa estar condenado.

Pois bem, durante os meses que se seguiram, vários canais de TV e sites brasileiros (um, em especial) trataram de fazer uma espécie de boletim diário: qualquer busca na internet trará milhões de referências do tipo "Messi terá de responder", "Messi foi chamado a depor", "depoimento ocorrerá dia tal", "Pai de Messi diz que...", "jogador argentino alega...".

4 meses após o início do processo, sai a notícia de que Messi foi inocentado no caso: "Técnicos da Receita espanhola veem Messi inocente em caso de fraude". A notícia é difícil de encontrar na internet. O site referido na reportagem que mencionamos no início publicou a nota, mas com destaque pequeno, numa das galerias de matérias. Comparativamente, a notícia original, alertando que "Messi é acusado" teve 493 comentários; a da "absolvição", 74.

Messi foi tema de matérias no GloboNews, no Jornal Nacional e no Bom Dia, Brasil, para citar apenas a grandiosa emissora. Sua "co-irmã", Rede Record, também foi enfática:


Por que houve tanto destaque ao possível erro/crime, e pouco ou nada se falou sobre a conclusão do caso?

Também chama muita atenção que houve pouco ou nenhum destaque à nova acusação de fraude/sonegação envolvendo jogador de futebol: é o brasileiro Kaká, investigado na Itália. E hoje saiu uma nota sobre outro grande ídolo do desporto brasileiro: Ronaldo pode ter seus bens penhorados em virtude de dívida com a Receita, e também está sendo processado por dívida na reforma de sua mansão.

E aí, alguém viu essas notícias* em telejornais no horário nobre? Lógico que não.

*atualização de 28 de janeiro de 2014: e o caso do jogador Neymar e seu pai?
*atualização de 14 de maio de 2014: e o caso do treinador Felipão?

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Muito Além do Futebol... (70)

Está aberta a temporada de "caça a Messi": com a ida de Neymar para o Barcelona - e que ainda coincidiu com o novo técnico do time catalão ser... argentino -, a imprensa brasileira passou a alimentar de vez a existência da inexistente rivalidade entre os dois atletas.

Depois da incessante insistência na história da sonegação de impostos, agora a associação de fatos negativos ao argentino vem de uma matéria estranha do jornal "El Confidencial Digital". O "jornal" - que está mais para um blog e aparentemente carrega a bandeira de ser contra o sistema - fez uma matéria na última terça-feira afirmando que jogador maltrata companheiros de equipe.

Uma pesquisa qualquer mostrará como a "notícia" revelada pelo jornal repercutiu no Brasil - os mais diversos portais e sites a reproduziram com grande destaque - como nenhuma outra publicação do mesmo havia repercutido. E provavelmente jamais tornará a ser.

O mais incrível, no entanto, é ver como essa acusação tornou-se uma verdade irrefutável, e como, agora, lembram que Messi é argentino: porque antes, ora, antes ele "abandonou a Argentina" e se tornou tão grande "por ser espanhol".

nota do blog: o periódico referido é, como se pode verificar, de Madrid.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Isso é Jornalismo! (50)

Está no ar uma página anexa ao site do jornal argentino "Olé": é a apresentação de Neymar e Messi, juntos, no Barcelona F.C. Ambos são tratados como "A dupla de 500 gols".

Messi é apresentado como 'um dos maiores da história' e Neymar como 'um dos maiores da atualidade'.

Haverá quem conteste a veracidade de ambas as afirmações?

mais importante, no entanto, é a forma respeitosa com que o jogador brasileiro vem sendo tratado, sem se apaler para uma "rivalidade" (descabida e imbecil) como a que a imprensa brasileira tentou a todo custo criar...

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Isso é Jornalismo? (42)

A revista inglesa "World Soccer" - uma das mais renomadas publicações especializadas em futebol no mundo - fez uma eleição, convocando 73 jornalistas de um total de 42 países (com predomínio de italianos, ingleses e franceses) para selecionarem sua 'equipe ideal', com 1-4-4-2 - com exceção de atacantes, não havia restrição para as posições: bastava que fossem meias e defensores.

Capa da World Soccer, de Julho de 2013.
Pelos 73 votantes, o nome que mais apareceu foi o de Franz Beckenbauer, com 68 menções; depois, pela ordem, vieram Maradona (66), Pelé (63) e Johan Cruyff (60), os únicos com 60 ou mais votos. Zinedine Zidane, Paolo Maldini, Cafu, Bobby Moore, Lionel Messi, Lev Yashin e Alfredo di Stefano foram os restantes a integrar o "TOP 11". Dentre estes, apenas Maldini (48) e Messi (46) obtiveram mais de 30 votos.

O que se vê acima é uma descrição simples dos fatos, sem emitirmos qualquer julgamento acerca da qualidade. Este blog, por exemplo, crava que Pelé provavelmente merecesse estar na primeira posição, e também entende que Messi não esteja acima de Di Stefano e Garrincha (excluído dos onze melhores, com 16 votos).

No entanto, como foi dito, trata-se de uma eleição bastante democrática (?) e que refletiu uma opinião da maioria. Interfere, também, o fato de Beckenbauer e Maradona serem uma das possíveis escolhas dentre 4 nomes, enquanto que Pelé - e Messi - disputavam apenas dois lugares - o site "Trivela", do portal UOL, atenta para esse fato sem desdenhar da publicação.

Porém, como já é de praxe, o site GloboEsporte.com fez da ironia e do desdém uma espécie de editorial. Na matéria que comenta a eleição da publicação britânica, há indignação: apenas por Pelé não ser o primeiro ou por haver três argentinos escolhidos?

O texto está disponível na íntegra no link acima, por isso vamos aqui destacar algumas passagens que mostram aquele nacionalismo rasteiro.


Comentando sobre quem foram os 'eleitores', o texto afirma: "Ao todo, foram 73 votantes, nenhum deles do Brasil, um argentino e representantes de países com pouquíssima tradição em futebol, como Índia, Macedônia, Iêmen, Estônia, Uganda, Vietnã e República Dominicana."

Podemos perceber três vacilos ao "argumento" acima apresentado.

Primeiramente, como mencionado no início da nossa postagem, foram mais de 40 os países representados. E o texto se foca em 9 deles, como a querer explicar a presença de argentinos e a não coroação do 'rei': um argentino. Ora, seria ele o responsável pela presença de Messi, Maradona e Di Stefano dentre os escolhidos?

Elimine-se, pois, a votação do "hermano" (que atende pelo nome de Rex Gowar, correspondente da agência Reuters): Messi fica com 45 votos, Diego com 65 e Di Stefano com 25. O que acontece? todos eles permanecem nas mesmas posições, 2º, 6º e 9º, respecitvamente.

Em seguida, a matéria tenta desqualificar a eleição citando os já mencionados países de Europa Oriental, África e Ásia. Com que objetivo? Ora, são países com pouquíssima tradição no futebol, não é mesmo? Logo, só fariam escolhas insanas, irrelevantes.

Note-se, pois, que o nome de Pelé aparece em 5 dos 7 (Estônia, Uganda, Índia, Macedônia e Rep. Dominicana), o de Cafu surge duas vezes (pelos jornalistas de Iêmen e Vietnã), e ainda aparecem outros 4 brazucas: Jairzinho, Roberto Carlos (duas vezes), Carlos Alberto Torres (também duas) e Nilton Santos.

Ora, talvez Pelé merecesse ficar atrás de Johan Cruyff, já que estes 5 votos são de "nações sem importância para o mundo do futebol"?

Por fim, a última ironia surge com o termo "nenhum brasileiro".

De fato, nenhum dos 73 profissionais consultados é nascido no Brasil. Porém, Tim Vickery é citado na publicação como votante "from Brazil" (conferir imagem acima). O próprio texto, em estranho momento de 'respeito' aos eleitores, faz questão de transcrever a escolha de Vickery: "O inglês Tim Vickery, correspondente da rede britânica BBC no Brasil (...) indicou quatro brasileiros e deixou Messi fora.".

Vickery não é apenas correspondente da BBC: é um assíduo participante do programa "Redação SporTV", dentre outros do canal a cabo da mesma empresa que gere o site que publicou a matéria. A opinião de Vickery, aliás, fora recentemente consultada pelo GE, quando se tentou provar que a Seleção Brasileira de 1970 era melhor que a Seleção Espanhola atual. Coincidência ou não, foi ele o que mais citou atletas oriundos do Brasil, 4 em 11.

Ironia das ironias, porém, é que o mesmo Vickery entrou em discussão acalorada com outro profissional global (Toninho Nascimento, de "O Globo") ano passado, no supramencionado programa. O motivo: enquanto Nascimento considerava uma ofensa à moral e aos bons costumes comparar Messi a Pelé, Vickery disse que, sim, os referidos camisas 10 de Brasil e Argentina podem ser comparados.


Retire-se a opinião de Vickery, portanto. Não?!

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Isso é Jornalismo? (41)

Notícia bombástica do dia dos namorados: "Lionel Messi está sendo acusado de sonegação fiscal na Espanha". A acusação fala sobre valores de direitos de imagem recebidos entre 2006 e 2009.

Também uma notícia, a defesa de Messi: "Nunca cometemos infrações. Sempre cumprimos completamente as nossas obrigações fiscais".

O devido processo correrá, e vamos aguardar para ver o desfecho dessa história.

Acontece, porém, que a nossa "grande mídia", e uma empresa em especial, é master em distorcer e omitir fatos à revelia: o que for conveniente, seja falso, verdadeiro ou "pela metade", será usado.

Matéria de hoje, no famigerado GloboEsporte.com, tem a seguinte manchete: "Messi entra para lista que conta com nomes como Figo, Maradona e Eto'o". ("Poxa, que bacana!, seria algo relacionado a "ídolos do Barça"?) E a 'gravata' do texto diz: "Acusado de sonegação, craque do Barça é mais um a entrar na mira do fisco"

Maradona, sempre ele: só que o grandioso ídolo argentino já foi absolvido (!!!).

Mas nesse caso nem é esse o problema.

Além dos três nomes citados acima, o texto inclui os tenistas Boris Becker e Arantxa Sánchez, e ainda o pai (!?!) de Steffi Graff.

Se o propósito era mencionar futebolistas envolvidos com sonegação, e ainda houve espaço para citar atletas 'de outros esportes', por que nenhuma menção a brasileiros? "Nenhum brasileiro envolvido em qualquer coisa semelhante. Muito bom saber disso!".

Seria cômico se não fosse trágico.

Poderíamos aqui falar sobre outros casos relacionados a desvios de dinheiro ou evasão de divisas (e nisso teríamos pelo menos dois casos do exemplar Pelé e outro do tricampeão mundial 'de outro esporte' Nelson Piquet), mas já que a matéria se foca em "problemas com a receita" e "futebol", vamos também manter o foco.

Dois grandes ídolos brasileiros do esporte bretão se envolveram nas mesmas situações.

O primeiro foi o maior artilheiro da história do Maracanã.


Arthur Antunes Coimbra, o Zico, passou por fato semelhante quando foi jogar na Udinese, Itália: Contra Zico, pesaram duas acusações: sonegação de impostos e constituição ilícita de capital no exterior. O "Galinho" teve de pagar 600 mil liras à justiça italiana. Inclusive, a transferência do jogador à Udinese foi investigada (contrato subfaturado).

Zico foi absolvido, sim. Três anos depois.

O outro caso, esse mais recente, envolve o maior artilheiro da história das Copas.

Não se trata do terreno que Ronaldo Luiz Nazário de Lima, o "Fenômeno", comprou e teve problemas com aluguéis não pagos e construções ilegais. Trata-se de parte de uma ilha em Angra dos Reis em que Ronaldo não pagou o chamado "Laudêmio" (imposto que se paga à União pela ocupação de um terreno), de valor de R$ 500 mil.

O ex-jogador foi autuado pelo Fisco Previdenciário na 4ª Vara de Execução Fiscal do Rio de Janeiro.

Por que Zico não foi citado? Seria até mesmo interessante, falando que o brasileiro foi absolvido, que provou-se inocente.

Já sobre Ronaldo, não há dúvidas do porquê:


Em tempo: A empresa referida também tem suas dívidas - e que dívidas! - com o fisco.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Raça X Nacionalidade (60)

Existe um programa de TV (na Bandeirantes) chamado "Mulheres Ricas" -- uma espécie de Big Brother Brasil mostrando a vida real de um determinado grupo de 'socialites'. Desse 'seriado', talvez o maior expoente seja "Val Marchiori" (nome 'artístico' de Valdirene Aparecida Marchiori).

Marchiori - além de seu "show" na Band - é bastante conhecida na internet: sua página no twitter possui aproximadamente 125 mil seguidores, e seu perfil no Facebook (aparentemente extinto) tem mais de 25 mil "curtidores". Mais importante que tudo isso, porém, ela administra um blog associado à Revista Veja.

Qualquer que seja sua opinião a respeito, não se pode negar que se trata de alguém com uma relativa e relevante notoriedade.

Isso posto, vejamos a declaração dada por Marchiori no último dia 13, repercutida inclusive pela Folha de S.Paulo: "O Brasil, sendo o maior pais católico do mundo, escolherem um papa argentino. É o fim! Me recuso a aceitar" Outro tweet, em seguida: "Acho o fim escolherem um papa argentino. Que fosse brasileiro, então. O cúmulo. Não aceito este papa. Sorry". Mais alguns minutos, e uma explicação de suas razões: "Agüentar Maradona. Drogado! Messer¹! Ainda vai. Mas Papa. Nunca."

A argentina Victoria (natural de Córdoba) escreveu três mensagens para Marchiori, questionando o porquê de sua revolta. Primeiro fez uma pergunta direta ("Por qué? É porque ele é argentino?? Xenofoba!"), e em seguida pediu: "Quero um motivo real pra que o papa não seja Jorge Bergoglio (...) ". Por fim, Victoria afirmou: "Val Marchiori fala que é 'católica praticante' mas é xenófoba... Bem! A igreja perde fiéis porque há pessoas como ela."

Marchiori respondeu a moça cordobesa da seguinte maneira: "Defina xenofoba".

Não sabemos se Marchiori realmente não entende o significado do termo ou se quis instar a argentina a "explicar tal acusação".

Um pouco mais tarde, Marchiori postou uma foto (ao lado) e a seguinte mensagem: "Estou em Milão. Os italianos tbm estão revoltados. Vou pra Roma. Amanha. Mostrar meu protesto. Me sinto desamparada."

O Vaticano informa que ainda não recebeu nenhuma contestação formal. E será mesmo que os italianos "também estão revoltados"? Não foi o que pareceu na praça São Pedro nem nos noticiários do país ao longo dos últimos dias.

E qual seria o motivo do "desamparo" de Val Marchiori? Em postagem publicada no seu supracitado blog, ela afirmou já estar "acostumada com eles no comando o Mulheres Ricas e agora comandam a Igreja", em referência ao fato de o diretor de seu programa (como boa parte da cúpula da Band) ser argentino. Mas Marchiori diz ter esperanças no Papa: "(...)apesar de ser argentino, que a humildade seja realmente um lema em seu mandato!", finaliza.

Notícias recentes dão conta de que Marchiori não terá os mesmos ganhos que esperava. Não deve ser por isso que ela esteja se sentindo desamparada: ainda é muito, muito mais, do que 99% dos brasileiros² podem experimentar.

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notas do blog:

1- "Messer" seria uma referência a Lionel MESSI;
2- Não cremos que Val Marchiori represente todos os brasileiros. Representa uma minoria. Representa, aliás, pouco ou nada deste país.

domingo, 28 de outubro de 2012

Isso é Jornalismo? (38)

Beleza. Muito legal, muito bonita a "atitude" da Rede Globo de levar o menino Gabriel para a Espanha e conhecer seu ídolo Messi bem como a estrutura do atualmente maior clube do mundo.

(Essa descrição bem que mereceria um "duetos" no topo da página.)

Mas, de novo, eles conseguem achar um jeito de estragar tudo, mostrando toda sua prepotência ao disseminar preconceitos e decretar verdades que nascem de uma ótica muito, MUITO questionável.

O video abaixo é a primeira parte da reportagem exibida no último domingo, durante o "Esporte Espetacular". A equipe jornalística acompanhou o garoto e registrou tudo.

É uma matéria muito bacana até os 10 minutos (sugerimos o leitor correr o video para esse ponto).

Gabriel nasceu sem os pés. Mas tem um talento especial para o futebol. Quando falam sobre o primeiro treino do garoto no Barcelona F.C., vem a grande mancada da emissora:
Narração do repórter: "só que no treino do Gabriel uma imagem chamou a nossa atenção: Gabriel se aproximou, repare. Ali um garotinho olhando para baixo rapidinho, meio desconfiado. tipo assim: 'será que esse brasileirinho aí, sem os pés, joga bola mesmo?'"



Como falamos numa matéria de 2010, sobre o acidente de Maradona, a entonação do repórter explica tudo: as duas palavras mais enfatizadas na frase acima foram "BRÁsileirinho" e "MÊSmo?".

Há, pelo menos, três erros capitais:

1- o simples fato de tal cena ser exibida, dando enfoque à "deficiência" (entre aspas, mesmo) de Gabriel, inclusive com uso da câmera lenta.
2- a "leitura do pensamento" do menino espanhol, transmitindo tal frase como se de fato fosse de sua autoria.
3- imputar a uma CRIANÇA o rótulo de preconceituoso contra origem ("esse BRÁsileirinho")  e condição física das pessoas ("sem os pés").

Enfim, em menos de 20 segundos conseguiu-se tornar o que tinha tudo para ser uma grande reportagem em mais um PÉSSIMO exemplo de disseminação de preconceito.

Não do garoto espanhol, e sim da empresa que controla a informação no Brasil.

"É assim mesmo, na Espanha os caras não gostam de brasileiros".

domingo, 8 de abril de 2012

Isso é Jornalismo! (45)

Já muitas vezes falamos sobre como Maradona criou, além de sua genialidade nos campos, uma perniciosa associação ao povo argentino. E está cabendo a Lionel Messi manter um e modificar outro dos papéis de Diego: dar sequência à canhota furiosa e os gols mágicos, e mudar a imagem do povo: antes associados a arrogância, desrespeitos e até mesmo ilegalidades, com Messi podem ser vistos como humildes, gentis e determinados.

É esse o tom de um texto publicado no jornal "El País" - o maior da Espanha - assinado por um jornalista argentino. Pode-se encontra o texto original no link, e abaixo colocamos a tradução, publicada no "Jornal Brasileiro Gratuito".

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Messi, o argentino diferente.

Messi, o argentino diferente (*). Messi é o argentino diferente. Se um argentino é um italiano que fala a língua Castelhana, Messi é o tipo de argentino que poderia ser inglês ou holandês. É difícil delinear essas características, sem cair em clichês ou preconceitos. Deste ponto de vista, um argentino (ou talvez deveríamos dizer um argentino de Buenos Aires: “porteño”) de caricatura é um tipo arrogante, chorão, astuto, gritão e enganador. Parece ser um personagem da comédia italiana. Por exemplo, tantos “caras de pau” como os que costumava interpretar Vittorio Gassman ou Alberto Sordi.

Por outro lado, Messi é um argentino tranqüilo, disposto, educado, calmo e digno, humilde e sereno. Existem outros "Messis" entre os argentinos? Sim, há muitos. Não sei se a metade, mas certamente muitos. Não são gênios do futebol, mas eles são artistas, atletas, ou homens de qualquer meio que praticam a sensatez e a discrição. Por exemplo, o treinador nacional Alejandro Sabella, atores como Alfredo Alcon, bailarinos como Julio Bocca e políticos como Hermes Binner.


Cada vez haverá menos “Maradonas” e mais “Mesis”. Maradona, o selvagem, o louco, o imprevisível, seria hoje re-socializado. Agora não há lugar para os loucos. É verdade que esta transformação, que vai desde o jogador em estado de matéria prima ate o craque da mídia de hoje, não é algo novo, pois Jorge Valdano, contemporâneo de Maradona, esta mais perto pela sua discrição, do Messi que do Maradona.


Barcelona e Nápoles são cidades de grande proximidade geográfica, mas de natureza muito diferente. A primeira é a cidade da ordem, harmonia urbana e da abundância com estilo. A segunda é uma cidade de paixão e loucura: sob o império insensato “berlusconiano” vive sua total decadência e encontra-se esmagada pelos escombros. Maradona, que fracasou em Barcelona, triunfou em Nápoles, onde ele é e será ídolo. Lionel Messi começou a jogar pelo Newell Old Boys, clube fundado em 1903 pelo mestre inglês Isaac Newell’s, mas se tornou o “Messi” no Barcelona Football Clube, fundado pelo suíço Hans Gamper, em 1899.

Maradona nasceu no Policlinico Evita, em Lanus, e foi criado no humilde bairro Fiorito. Estes lugares são o coração da vasta rede urbana de Buenos Aires que com 10 milhões de habitantes, muitos deles morando como em “barracas” (metáfora..), sufocam a moderna Buenos Aires. Em Fiorito, ate a ultima “erva daninha” é peronista. Por isso, os Kirchner utilizaram o Maradona (com o seu consentimento ativo) na fracassada aventura de fazer do futebol um meio do clientelismo político. O oposto é a assepsia do Messi, que, protegido pela rede institucional do Barça e pela inteligência de Guardiola, permanece alheio a essas “lamas”.

Las Heras, terra natal de Messi, está longe de Fiorito. Las Heras é bairro de classe média no sul de Rosario. Ambas as cidades são muito diferentes. Buenos Aires é o gigante Golias, tumultuoso e ingovernável. Rosario, a cidade que cresceu tranqüila ao longo do grande rio Paraná, é mais modesta. Rosario, por ser carente, não tem nem mesmo fundador, que a torna única entre as cidades da América espanhola, algo que guarda zelosamente a sua cena primitiva: o conquistador plantando a cruz e a atravessando com sua espada.

Rosario foi se fazendo sozinha aos poucos a partir de um porto de trânsito utilizado pelos cargueiros que desciam pelo Rio Paraná em busca do Rio de la Plata e a saída para o mar. Essa cidade modesta teve sua expressão política: Rosario é governada há anos por prefeitos socialistas sem que o peronismo extrovertido e confuso possa ter entrado nesse canto para ganhar.

Rosario tem muito a ver com o futebol que corre pelas veias de Lionel Messi. Porque, independentemente da identidade política da cidade, há uma identidade de futebol na cidade de Rosário, dividida em duas famílias de genes irredutíveis, “montescos e capuleros”: os “leprosos” de Newell Old Boys (entre os quais estava o menino Messi) e os “canallas” do Rosario Central. Mas ambos cultivam uma bela raça com fino estilo, simbolizada por estrelas da bola como Cesar Luis Menotti ou Santiago Segura.

Barcelona era a cidade para o Messi e o Barça era seu clube. O Barcelona Futebol Clube é uma instituição tão grande que quase parece um próprio Estado. Se assim for, seria mais parecido a um cantão suíço que a uma “república bananeira”. La Masia é a marca de algo que é mais do que um clube. O Barcelona do Barça é a quintessência do seny (a sensatez), mas no campo Messi mostra o reverso do seny, “la rauxa” (explosão).

Alguns fãs da Argentina se resistem ao Messi. Eles expressam a selvageria que prevalece no mundo do futebol argentino, que é a terra da corrupção e da violência. Nos últimos anos, nos campos de futebol, foram baleados ou mortos em intensos combates, 300 argentinos. Para esses esquisitos que têm degradado o futebol em cenas de guerras de gangster, Messi é um “pecho frio” (irresponsável). Um cara que "não sente a camisa", dizem os esquisitos fãs.

A casa dos Messi em Rosário foi alvo de tiros. Muros pintados com textos ofensivos para Lionel têm sido vistos na Argentina. Acontece que na seleção argentina Messi parece um jogador banal, já que o futebol é um jogo coletivo e Messi também é composto por seus pares, tanto como um ser humano é formado por ossos e músculos, matéria e espírito. Sabella será que consegue ser o Guardiola de Messi?

"Cara suja, cara suja, cara suja / você veio com a cara sem lavar", diz um tango de Canaro. A denominação, rosto sujo, foi por muito tempo a característica de um tipo de jogador indisciplinado, mas iluminado a partir do qual o futebol argentino fez um mito. Agora Messi mostrou que se pode ir com a cara limpa, sem diminuir a genialidade. "Tudo o que sei sobre a moral eu aprendi jogando futebol", disse Albert Camus. Deste ponto de vista, nunca os argentinos lhe agradeceremos o suficiente o está fazendo Messi por nós.

* Texto original de Alvaro Abos, escritor argentino.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Isso é Jornalismo! (44)

Não, o blog não voltará a ter atualizações regulares. Nós apenas iremos divulgar dois textos deste início de ano que vão de encontro com a nossa filosofia e que, quem sabe, irão contribuir para mudanças na visão geral que os brasileiros têm.

A primeira delas vem do "Futebol Portenho", conduzido por brasileiros amantes do futebol hermano e hospedado no site da tradicional revista Placar.

O texto fala com incrível lucidez sobre a semente que a postura de Lionel Messi está plantando: uma mudança da visão negativa associada à imagem de Diego Maradona.

Torcemos muito para isso!

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Síndrome do Messi: Argentina mais simpática aos brasileiros
por Thiago Henrique de Morais
Os que nasceram nos últimos 30 anos são de um tempo onde o povo argentino era visto como um povo arrogante, orgulhoso, egocêntrico. E um dos grandes responsáveis por tal generalização foi o principal ícone daquele País neste curto período de tempo. Os atos esdrúxulos de Diego Armando Maradona colaboram muito para tal visão nacional. Mas, o mais novo ícone argentino tem mudado esse pensamento, deixando a Argentina mais simpática aos olhos dos brasileiros.
Maradona sempre foi muito elogiado por sua forma de jogar. Era abusado, dominava a bola como poucos e só não fazia chover em Nápoles, Barcelona ou qualquer outro País onde estava em campo. Mas, suas atitudes extra-campo mancharam a Argentina. A sua atitude prepotente, soberba, e o seu vício com drogas, fizeram com que o retrato do País fosse o espelho de Diego. E os justos pagam pelos pecadores. Em contraponto, no período dos escândalos do argentino, tínhamos um esportista carismático, bem visto pelos brasileiros (Ayrton Senna) que escondia toda desgraça que passávamos entre 1986 e 1994.
Quem nunca ouviu – ou cansou de falar – que os argentinos – generalizadamente – são prepotentes, tem o ego maior do que o céu ou que são viciados em cocaína? Muitos desses que falam mais que a boca nunca conheceram o País em questão ou um nativo argentino. Curiosamente, 80% dessas pessoas mudaram o seu pensamento quando finalmente conheceram. Os demais continuam com o pensamento ufanista e continuam pensando que vivem num País perfeito, com políticos incorruptíveis, sem miséria, sem drogas e nem sequer falam bom dia para o um vizinho no elevador.
Mas, para essas pessoas que continuam com esse pensamento desprezível, há uma solução. E ela vem se mostrando certeira nos últimos anos. As atitudes de Lionel Messi, principalmente fora de campo, começam a velar o pensamento dos brasileiros de que todos os argentinos têm o estereótipo do Maradona. O jogador do Barcelona é carismático, educado e dá uma cara diferente ao seu País de origem. Nunca se meteu um escândalo, não é de dar declarações polêmicas e quando as faz (como no caso do Pelé) se retrata como um lorde.
Por conta de Lionel Messi, hoje é normal ver nas ruas do Brasil pessoas com a camisa da Argentina sem sofrer qualquer agressão verbal. É a Síndrome do Messi, que deixou a Argentina mais carismática para o brasileiro. Muitos até tentam torcer contra o Barcelona por conta de o jogador ser argentino. Mas, quando veem ele fazer o que faz e lembram que a sua personalidade está longe de ser maradoniana. Assim, todo sentimento cai por terra, fazendo o povo delirar com o seu futebol.
A banalização sobre o argentino ao estilo Maradona vai caindo por terra. Hoje, o senso comum brasileiro aceita que a Argentina não é o espelho de Maradona. Pelo contrário. Messi, pelo seu jeito de ser, reconstrói uma Argentina e muda o estereótipo que El Pibe deixou nos últimos anos. Ou você algum dia acreditou que, diante de um Brasil e Argentina, em pleno Mineirão, o povo brasileiro celebraria a genialidade de Messi, mesmo que em protesto. Se um ícone pode mudar a cara de um País, hoje a Argentina é um País melhor graças a Lionel Messi.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Isso é Jornalismo? (37)

Neymar é o melhor jogador brasileiro surgido desde que Ronaldinho Gaúcho despontou no Grêmio, em 1999. De lá pra cá, Adriano, Kaká e Robinho apareceram como maiores destaques, sendo Kaká o único a ser eleito o melhor do mundo (2007).

Os três tiveram momentos de brilho em seus clubes e também na Seleção. Porém, é inegável que Neymar já ocupa uma posição maior que a dos três no futebol. E pode vir a superar Ronaldinho Gaúcho nos próximos anos.

Porém, está sendo feito um grande exagero em torno do jogador, comparando-o ao argentino Lionel Messi, atleta que já tem, indiscutivelmente, posição dentre os maiores nomes da história do futebol, com ainda bom caminho a percorrer: já foi duas vezes eleito melhor do mundo, e protagonizou duas conquistas da Liga dos Campeões da Europa, o torneio de futebol mais privilegiado do mundo.

A Rede Globo - mais uma vez - está querendo fazer de conta que Neymar tem apenas um concorrente, um adversário em sua caminhada para se tornar o maior, providencialmente "esquecendo" de Cristiano Ronaldo e dos outros protagonistas do Barcelona (Xavi e Iniesta).

No programa Globo Esporte, está aberta uma campanha de conscientização nacional sobre Neymar merecer ser considerado o número 1. Fala-se, ainda, como se Messi não aceitasse essa situação e, a cada jogo, quisesse/precisasse superar o que Neymar fez/faz.

E o mais engraçado: na narração, o jornalista diz "não é apenas uma rivalidade Brasil x Argentina"

É o quê, então? A vingança dos brasileiros contra os argentinos que consideram Maradona melhor que Pelé, só pode.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Isso é Jornalismo? (36)

Na última terça-feira, o jornal "Bom Dia Brasil", da Rede Globo, levou ao ar uma matéria em que comentavam sobre o duelo Messi x Pelé.

"Duelo!?", você deve estar pensando. Pois é, nem nós entendemos. Mas é fato que agora a Rede Globo resolveu atacar o jogador argentino.

Há mais de um mês (!) Lionel Messi deu uma entrevista à revista ESPN onde, entre outras tantas coisas, respondeu sobre quem, na sua opinião, seria o melhor jogador da história.

Messi se declarou fã de Ronaldo ("maior atacante que vi"), falou coisas bonitas sobre Ronaldinho Gaúcho e Sylvinho, e também elogiou Neymar. O argentino também recusou completamente ser o melhor da história: "Não pretendo ser o melhor nem estar entre os melhores".

No final da entrevista, ao ser perguntado quem seria "o maior de todos", disse: "Maradona. Não vi Pelé jogar e não me faz falta".

Pronto, a polêmica estava lançada. No Brasil, excetuando-se a ESPN, a frase começou a fugir do contexto, e todos os elogios feitos a brazucas foram esquecidos.

À época, o empresário de Pelé deu uma curiosa declaração: segundo ele, o ex-camisa 10 "nem quis saber da polêmica", dizendo que não queria se incomodar com "outro argentino".

Sabe-se lá porquê, um mês depois, o "rei" resolveu responder, provocando Messi: num ataque de humildade, disse que ia mandar ao melhor jogador do mundo uma cópia de "Pelé Eterno' para Messi "saber quem é o melhor".

Tudo foi tratado como Messi tivesse desrespeitado Pelé.

A frase do jogador, repete-se, foi sobre o julgamento do melhor de todos os tempos. Messi diz que "não fez falta" ter visto Pelé para concluir que Maradona foi melhor. Certo ou errado, é opinião.

Eis o video (no site da Globo, não se sabe porquê, não está mais disponível - mais curioso ainda: é a única matéria de 18/10 que não tem video!)


Duas perguntas ficam no ar:

1) Por que ressuscitar a entrevista um mês depois?
2) Por que Pelé resolveu, agora, responder o 'outro argentino'?

Falando sobre o video em si, por que Chico Pinheiro demonstra tanta raiva? Parece que alguém ofendeu sua mãe. Primeiro ao citar "Maradona" com entonação de desprezo, e depois ao dizer 'eles precisam da comparação para crescer'?

As opiniões do público, também, demonstram o velho ranço: alguém diz: 'argentino prepotente'. Outro completa: "eles têm inveja da gente".

Que espécie de histeria coletiva é essa?

Messi jamais se comparou a Pelé, ou disse ser melhor que ele. Apenas prefere Maradona. É crime?

E desde quando essa comparação é feita porque "eles" (quem?) precisam crescer? São os argentinos que comparam todos seus craques a Pelé?

Do lado brazuca, parece que a coisa é mais pesada: em 2006 a revista "ÉPOCA" (organizações Globo) lançou sua capa com o título: "Melhor que Pelé?". Era Ronaldinho Gaúcho, no auge. Foram chamados especialistas para comparar Pelé e Ronaldinho fundamento a fundamento (!), como a confirmar quem era melhor. E esse ano a revista "Veja" pôs Neymar em sua capa com uma coroa sobre a cabeça e a inscrição: "REYmar". Embaixo, lia-se: "Finalmente um craque da linhagem de Pelé".

Tudo isso sem contar a infame capa da Placar (especializada em futebol), chamando Robinho (!) de "novo Pelé".


Quem, pois, precisa da comparação para crescer?

Se houve algum jogador que desrespeitou Pelé, esse alguém não é argentino: é Romário. O "Baixinho" disse que "Pelé deveria colocar um sapato na boca".


O mesmo Romário, ao comentar a polêmica Messi X Pelé, saiu em defesa de seu agora colega de apresentação da Copa do Mundo no Brasil. E, simplesmente, julgou-se o segundo melhor jogador de todos os tempos: "Messi primeiro tem que superar Maradona, depois Romário e depois Pelé".

Isso é o quê, se não for arrogância? É pouco, muito pouco, pra quem se proclamou deus.

Parece que não encontraram o que fazer para denegrir Messi - ele não foi acusado de desvio de dinheiro nem negou paternidade, como Pelé; não se envolveu com drogas, como Maradona; nem deixou de pagar pensão alimentícia ou bateu em torcedores, como Romário - e agora querem convencer o público que ele "desrespeita o Brasil".