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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Off-Topic (19)

Em tempos onde o governo brasileiro atual afirma que a Argentina (e demais países do Mercosul) é um dos principais parceiros político-econômicos do Brasil e onde parte da população pede por Impeachment da atual presidente e eventual intervenção militar, é importante estudarmos mais a fundo como foi a relação Brasil-Argentina, em âmbitos governamentais, na época do Regime Militar.

O estudo (disponível neste link) "O Brasil e a Argentina entre a cordialidade oficial e o projeto de integração" fala da política externa do Governo Ernesto Geisel (de 1974 a 1979).

Um trecho: "Argumenta-se que, entre 1974 e 1979, Ernesto Geisel e seu chanceler, Antônio Francisco Azeredo da Silveira, puseram em xeque o lugar da Argentina no cálculo estratégico da política exterior brasileira, questionando a validez do típico marco conceitual do Itamaraty para orientar as relações com Buenos Aires – a cordialidade oficial. A cordialidade oficial representa o conjunto de princípios e concepções que informou a diplomacia brasileira para Buenos Aires com o objetivo primordial de evitar que a dinâmica entre os dois principais poderes da América do Sul levasse a uma rota de colisão."

sábado, 20 de setembro de 2014

Duetos (92)

Boa matéria do Globo Esporte de hoje, 20/09/2014, falando sobre uma partida que celebra os 100 anos do clássico entre Brasil e Argentina: na região fronteiriça, a rivalidade existe, mas o respeito é ainda maior.

Clássico celebrando os 100 anos de rivalidade

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Off-Topic (17)

Gostaríamos de recomendar o seguinte artigo, publicado na Revista "Caminhos de Geografia": "Migração de argentinos para o Brasil: o caso de Armação de Búzios (RJ)".

Armação de Búzios (RJ)
Um resumo: "Apresenta-se um estudo de caso, cujo objetivo consiste em avaliar e compreender of fluxo migratório de argentinos para o município de Armação dos Búzios (RJ). A análise possui por fim compreender as conseqüências do processo de re-territorialização dos imigrantes e a sua implicação na formação das redes sociais no novo ambiente. Para tal, foram realizadas entrevistas, de caráter qualitativo, com o escopo de traçar o perfil do imigrante, a motivação do movimento migratório e a formação de redes sociais."

A autora, Jimena Harguindeguy, comentou em um artigo que falava sobre argentinos: "Sou argentina, mas moro no Brasil desde meus 3 anos de idade. Não possuo sotaque, nunca estudei na argentina. Sou mais brasileira que argentina, mas já sofri discriminação. Sempre sou apontada como "a argentina", mesmo que num nível "light". (...) Estou fazendo minha monografia de fim de curso (em Geografia) sobre os Argentinos em Búzios (RJ). Citarei esta matéria, pois percebi nos entrevistados muitas reclamações de discriminação."

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Muito Além do Futebol... (96)

Cauê Moura, vlogger conhecido no Youtube, lançou um video procurando explicar a rivalidade entre Argentina e Brasil. Consideramos a exposição bastante lúcida e isenta.



Em tempo: a descrição do video é "Pra você pelo menos odiar os hermanos sabendo o motivo."

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Raça X Nacionalidade (87)

Uma das melhores definições sobre a disciplina de História é esta: "Analisar o passado para se compreender o presente".

Em tempos onde, novamente, a Argentina enfrenta grave crise econômica e, novamente, se ouvem piadas e deboches sobre o país vizinho, vale relembrar uma matéria publicada pela Folha de S.Paulo em 2001, quando foi decretada a moratória e três presidentes estiveram na Casa Rosada em apenas um mês!

À época do artigo publicado pela Folha, a internet ainda engatinhava: não havia nem sinal das famigeradas "redes sociais" e a comunicação via e-mails era muito mais intensa.


Para se ter uma ideia da repercussão que esse tipo de situação causava, foram entrevistados personagens importantes da Política e Economia da Argentina, solicitando comentários sobre a piada de (muito) mau gosto.


O jornal argentino "Ámbito Financiero" reproduziu a imagem e comentou: "não todos, mas muitos brasileiros desejariam na realidade o desaparecimento de nosso país".

Curiosamente, datam da mesma época os mais antigos materiais provocativos que nosso blog já encontrou: por exemplo, no início de 2002 fez muito sucesso este e-mail, falando sobre os "Motivos para ser de determinada nacionalidade". Em 2000 também circulou este comercial, da própria Folha de S.Paulo, o primeiro a estereotipar argentinos na publicidade.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Duetos (85)

Maravilhoso trabalho de Samantha Vitz Quadrat, abordando um momento histórico bastante triste mas igualmente importante para Brasil e Argentina: o período em que os dois países estiveram sob regimes ditatoriais militares.

O título é "Solidariedade no exílio: os laços entre argentinos e brasileiros" e conta sobre o desenvolvimento de profunda amizade e respeito entre exilados das duas nações.

Um aperitivo: "Se a identidade era construída destacadamente ao redor da militância política, no exílio ela deverá também ser reconstruída, reinventada. (...) A militância deveria ser de outra maneira, embora muitos alimentassem o desejo de voltar à Argentina. Além disso, uma questão importante rondava a grande maioria dos entrevistados: ficar ou não no Brasil? Seria  apenas um lugar de passagem? (...) se tivemos uma repressão sem fronteiras, tivemos também uma rede internacional de solidariedade, de respeito à vida humana, de amor, de paz e ao mesmo tempo de gana por justiça, pelo fim das ditaduras e pela restauração da democracia na região".

domingo, 15 de junho de 2014

Raça X Nacionalidade (82)

Dissertação de Mestrado de Ismael Pfeifer, publicado em 2008 pela Faculdade Cásper Líbero, cujo título é "OS MEIOS E AS MEDIAÇÕES NA  RIVALIDADE BRASIL­-ARGENTINA: Um estudo sobre a estigmatização da imagem do país vizinho na comunicação brasileira" (clique aqui para ler a versão completa em pdf).

Consideramos esta uma obra definitiva.

Um trecho:

"O  objetivo  deste  estudo  foi desde o  princípio  analisar,  à  luz  de estudos da Comunicação voltados às Mediações e à Análise do Discurso, de que maneira foi constituída  pelos  brasileiros a imagem  negativa da  Argentina  e  dos  argentinos  e  como  a  mídia  participou da transmissão histórica  dessa estigmatização,  principalmente  nos  dois  últimos  séculos (...) A partir desses pressupostos, que definem o escopo pelo qual esses estudos trafegaram, pode­-se dizer (...) que  a mídia brasileira  atuou  como  instrumento  de  reforço  e  legitimação dos estereótipos que estruturam hoje a visão que a maioria absoluta dos brasileiros tem dos argentinos."

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Isso é Jornalismo! (60)

Próximos de mais uma Copa do Mundo, vale mencionar mais um belo trabalho - na verdade, um compilado ainda maior do que outros que já havíamos citado - que conta com a participação o sociólogo brasileiro Ronaldo Helal.

"Observamos que a “implicância” brasileira é maior do que a argentina. Chamou-nos a atenção as provocações explícitas, muita vezes carregadas de “preconceitos”, nas reportagens e colunas de O Globo. (...) Arriscamos uma outra hipótese, a de que "talvez nós precisemos mais 'deles'" para marcar nossa alteridade que “eles” de nós”. E esta “necessidade” pode ser devida ao fato de que a ideia de “nação brasileira” foi “construída" em grande parte por meio do futebol enquanto que na Argentina o “nacional” já existia antes do futebol, principalmente por meio das escolas públicas. Certamente o futebol contribuiu para reforçar sentimentos nacionalistas, mas estes já existiam aqui antes do seu surgimento."

Aproveitamos, também, para indicar mais um excepcional livro lançado recentemente pelo autor.

terça-feira, 25 de março de 2014

Off-Topic (11)

A Revista Bula publicou o texto "Top 5 de mentiras do país do futebol", cuja autoria é de um dos criadores deste blog. O artigo elenca 5 afirmações criadas com a ideia de se (super)valorizar o Brasil e os brasileiros. Mas nenhuma delas resiste a uma análise realmente cuidadosa e imparcial.

O texto mencionou várias fábulas criadas ao longo do tempo, mas discorreu sobre cinco delas:

Tom & Vinícius: autores da 58ª canção mais executada
No campo das contribuições para a humanidade: Santos Dumont inventou o avião;

No campo da língua, literatura e ciências: A palavra "saudade" só existe em português;

No campo do futebol: Pelé é o maior goleador da história do esporte;

No campo da religião: O Brasil é o maior país católico do mundo;

No campo da cultura popular: "Garota de Ipanema" é a segunda canção mais tocada da história;

Aproveitamos para citar outros dois mitos que também são bastante difundidos e não podem ser contestados:

Sobre a geografia: O Rio Amazonas é o maior do mundo;

Sobre contribuições no esporte: Leônidas da Silva é o inventor da "bicicleta"

Você já tinha ouvido falar de todas essas "histórias"? Acreditou nalguma delas?... Pois todas elas são falsas ou, no mínimo, (muito) distorcidas.

O texto não deixa de lembrar que, paradoxalmente, "junto a essa lorota toda, temos outro mito: os argentinos acham que são os melhores e maiores em tudo". Ironia das ironias: isso dito por quem afirma que "Deus é brasileiro"...

É claro que é mentira, e das mais absurdas, que somente na cidade de Buenos Aires existam mais livrarias que em todo o Brasil -- muito embora semelhante informação tenha sido propagada pelos próprios brasileiros, e foi inclusive fomentada por um dos grandes jornalistas do país --, mas propomos aqui informações semelhantes a respeito dos hermanos:

   Che Guevara: a foto mais reproduzida de sempre
No campo das contribuições para a humanidade: O marcapasso foi desenvolvido pelo cardiologista argentino René Favaloro;

No campo da língua, literatura e ciências: A Argentina é o país latino-americano que mais venceu Prêmios Nobel (dois da Paz, dois de Medicina e um de Química);

No campo do futebol: Lionel Andrés Messi entrou para o Guiness Book como o jogador que mais marcou gols em um ano na história do esporte;

No campo da religião: O primeiro Papa não europeu de todos os tempos é argentino;

No campo da cultura popular: A clássica foto de Che Guevara é a mais reproduzida da história;

Sobre a geografia: O "Río de la Plata" é considerado o mais largo do mundo, chegando a medir 90 km entre suas margens;

Sobre contribuições no esporte: Guillermo Vilas é o inventor do "Gran Willy", um dos golpes mais difíceis e celebrados do tênis.

Nesse caso, se tratam de fatos, não de mitos. No fim, talvez os argentinos "se achem tanto" por estarem falando a verdade. Afinal, ser humilde é inventar coisas sem nexo. E repetir, repetir, repetir...

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leia também:
1- "Top 6 mentiras sobre o futebol brasileiro que você precisa parar de repetir"

2- "Por que a Amazônia não é 'o pulmão do mundo'?"

*comentário de 04/01/2015: na edição de 01/01/2015, o "Jornal Nacional" afirmou que o Réveillon de Copacabana-RJ é "o mais famoso do planeta". Times Square manda lembranças.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Raça X Nacionalidade (74)


Semana passada, um caso lamentável aconteceu em Brasília-DF: uma mulher foi a um salão de beleza e, ao ver que seria atendida por uma manicure negra, exigiu que ela se retirasse e que outra pessoa a atendesse. A partir daí, proferiu diversas ofensas, a maioria delas associativa à cor da pele da funcionária.

Confira no video abaixo:



A referida persona foi presa em flagrante, conforme se vê nas imagens, mas poucas horas depois já estava solta novamente. Não, isso não é o mais absurdo. A história é pior do que parece.

A autora de tais injúrias atende pelo nome de Louise Stephanie Garcia Gaunth e, como se pode imaginar, não é nascida no Brasil: de acordo com todas as fontes, ela é oriunda da Austrália.

[Reveja o video acima, precisamente aos 21 segundos: "Devo ser muito bonita pra você ficar olhando!". Não há um sotaque forçado. A fluência no português, inclusive, demonstra que Louise tem familiaridade com a língua.]

A origem de Louise serviu de pano de fundo para a velha tática de se imputar os defeitos de ordem interna a algum fator externo notável, como a tentar justificar o porquê disso ou daquilo.

Fazendo uma busca na internet, seja pelos grandes jornais e portais ou vagando por blogs e fóruns, a notícia foi dada com 'variações do mesmo tema sem sair do tom': "Australiana comete racismo", "Australiana presa por racismo". O "Diário do Poder", periódico da capital federal, faz uma manchete ainda mais clara: "Australiana racista". (Aliás, parabenizamos aqui o UOL por noticiar o fato sem dar enfoque especial ao 'australianismo' de Louise: "racismo: mulher ofende a manicure e é presa", diz a manchete.)

o desabafo de Neya Gomes, a manicure que sofreu injúria racial de Louise Gaunth

Lendo os comentários nos mais diversos veículos, a toada é sempre a mesma: "volta pra Austrália, Canguru!", "o que esta vagabunda faz aqui? tem que ser deportada!", "não podemos tolerar que ela venha nos ofender", "por que o Itamaraty não a convida a se retirar do país?" e por aí vai. Houve quem sugerisse amarrá-la num poste, evocando fenômeno recente da sociedade brasileira.

Ressaltamos: em momento algum estamos defendendo ou defenderemos qualquer tipo de privilégios à sr(t)a. Gaunth, ou muito menos queremos fazer de conta que ela está sofrendo perseguição por não ser brasileira. Pelo contrário, entendemos que ela cometeu um crime NO BRASIL e, de acordo com a LEI BRASILEIRA, deveria arcar com o mesmo.

Porém, começa aí o festival de contradições e incoerências...

1) A sr(t)a. Gaunth já responde a sindicâncias por outras acusações de crimes de racismo, inclusive em seu trabalho;

2) Repetimos que o crime foi cometido no Brasil, e portanto ela deve responder por eles no Brasil: já tramita na Justiça de Brasília o processo do caso relatado pela manicure; 

3) A sr(t)a. Gaunth reside no Brasil há mais de 5 anos e é CONCURSADA da CEB  Distribuição;

4) Exigir a deportação/expulsão, etc, da sr(t)a. Gaunth é, antes de uma incitação ao ódio a imigrantes, uma demonstração profunda de desconhecimento das implicações legais de crimes de racismo e, mais que isso, ignorar o fato de que a "extradição" provavelmente seria BENÉFICA a Gaunth.

Aborígenes, povo primeiro da Austrália
Isto posto, outro fato vai chamar a atenção: a infeliz necessidade de se criticar Gaunth não por seu ato, mas procurando ofendê-la lembrando de sua nacionalidade.

Nos comentários da Revista Fórum, alguns leitores brazucas usaram dessa tática - uns, inclusive, buscando raízes históricas para "comprovar" que o povo da Austrália é racista -, e um australiano contra-atacou, jamais defendendo Gaunth mas sim apontando esse racismo às avessas dos "antropólogos" de plantão.

Mais importante e triste, porém, é ver um jornalista respeitado e conceituado como Nirlando Beirão se utilizar desse recurso em texto publicado em seu blog. Beirão fala do caso da sr(t)a. Gaunth e relembra o recém-ocorrido com Tinga: "Uma australiana racista? Peruanos racistas? Seria ridículo se não fosse trágico".

O argumento de Beirão é oposto a um dos "comentaristas-sociólogos" supramencionados: ele alega que um país como a Austrália, formado por aborígenes e com histórico de exclusão, não poderia ver seus filhos agindo com racismo.

   para ele, australianos, peruanos e brasileiros
"não tinham o direito" de serem racistas.
"A Austrália foi povoada por degredados ingleses, irlandeses mortos de fome, europeus do Leste fugitivos da guerra e asiáticos pobretões", escreveu Beirão. Mais adiante, ele afirma: "Uma australiana branquela julgando as pessoas pela cor da pele – logo ela, certamente herdeira por DNA do rebutalho do Império britânico.". Ao criticar a torcida peruana, que imitou macacos quando Tinga tocava a bola, seguiu a mesma linha: "Imaginem só: o Peru. Inca, espanhol, negro, japonês."

Sem delongas, citamos o artigo de outro bom jornalista, Márvio dos Anjos, para contrapor o argumento suicida utilizado por Beirão. Logo após o triste episódio com Tinga, dos Anjos escreveu: "Ter vindo de uma torcida peruana não torna o racismo “mais estúpido”, como se peruanos, por terem negros e índios em sua civilização, não tivessem “o direito” de serem racistas. Ninguém tem esse direito. O racismo não tem gradações: quem diz que um peruano é mais estúpido ao reproduzir o racismo que espera de um europeu está dizendo TAMBÉM que o europeu é menos estúpido quando é racista. Talvez inconscientemente esteja exprimindo que o europeu tem mais razões para ser racista."

Por fim, uma notícia decorrente do ataque de Gaunth vai jogar outra luz sobre as incoerências e contradições daqueles que atacam uma pessoa racista - como é o caso da "australiana" em questão - lembrando de sua origem, sexualidade ou o que seja: uma média de 11 casos de racismo são DENUNCIADOS POR MÊS em Brasília. O jornal Correio Braziliense aponta um aumento de 330% nas ocorrências desde que foi instaurado o Disque racismo, em 2012.

Será que os brasilienses (cidade nascida em meio a um deserto há pouco mais de 50 anos, com um povo formado por gente oriunda do país inteiro, chamados de candangos, mal vistos no país inteiro por conta de sua classe política) têm o "direito" de serem racistas?...

Como disse Beirão, seria ridículo se não fosse trágico.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Isso é Jornalismo! (56)

Interessante texto publicado na Carta Capital falando sobre as investigações do período ditatorial no Brasil e na Argentina.

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Comissões da Verdade e punição: por que os resultados são tão diferentes?

Está na hora de mudar aceitar o padrão internacional de punição das violações dos direitos humanos e de rever a Lei da Anistia
Por Leonardo Avritzer
A morte do ex-ditador argentino Rafael Videla na prisão na semana passada tornou relevante responder mais uma vez algumas perguntas: por que o Brasil é tão diferente da Argentina no que diz respeito à punição das violações dos direitos humanos? Por que a nossa comissão da verdade tem resultados tão tímidos depois de um ano de funcionamento? Por que no Brasil ninguém ainda foi punido por crimes cometidos durante o período autoritário?
Neste artigo tentarei responder a estas questões.
Os regimes autoritários do Cone Sul foram muito semelhantes, na maneira como eles chegaram ao poder e muito diferentes na maneira como eles realizaram as transições para a democracia.
Todos os regimes autoritários do Cone Sul chegaram ao poder violando as regras da democracia e derrubando governos legitimamente eleitos. Ainda assim o autoritarismo variou em intensidade e isso influenciou nas transições. O Brasil, como sabemos, teve uma transição para a democracia pactada entre o regime autoritário e a oposição e a lei da anistia foi parte da transição pactada.
A anistia no Brasil foi, ao mesmo tempo, reivindicação da sociedade civil e negociação entre o regime autoritário e a oposição. Ao ser aprovada pelo Congresso Nacional ela permitiu o retorno dos exilados e a liberação de presos políticos.
A Argentina viveu um processo muito diferente. Em primeiro lugar, a dimensão do terror foi diferente e ele terminou com a morte de quase todos os desaparecidos. Mas a grande diferença entre a Argentina e o Brasil foi o colapso do regime autoritário argentino depois da guerra das Malvinas. Ele permitiu uma transição rápida pelo qual a auto-anistia concedida pelos militares foi revogada quase que imediatamente pelo governo Afonsin. Foi este ato que permitiu o julgamento dos principais membros das juntas militares, sua condenação e a anulação em 2010 da anistia aos militares decretada pelo governo Menem.
Não vou aqui afirmar que se fez justiça na Argentina, uma vez que a justiça é um conceito complexo e sabemos que muitos violadores de direitos humanos não foram punidos. Mas afirmaria que a sociedade argentina acertou contas com o seu passado e hoje é um país no qual os direitos humanos são profundamente respeitados.
Assim, se pensamos as diferenças entre os dois países, podemos localizá-las em dois pontos: a natureza da transição e a forma da anistia. Podemos apontar que a transição pactada brasileira retirou a punição das violações dos direitos humanos da nossa pauta política. Este é o motivo pelo qual não houve no Brasil punição de torturadores, julgamentos de militares. Tudo o que tivemos foi a indenização dos presos e perseguidos pelo governo na boa tradição brasileira de pactuação entre as elites com responsabilização única do estado.
O Estado é responsável pelo autoritarismo mas, ao que parece, os indivíduos não são.  No que diz respeito à anistia, é possível afirmar que no Brasil ela expressa tanto elementos das reivindicações da sociedade civil quanto também a vontade do regime de auto-anistiar os seus membros.
Neste sentido, a anistia brasileira teve um componente societário que não podemos negar. No entanto, é importante entender que a anistia brasileira expressou uma correlação de forças entre o campo democrático e o regime autoritário naquele momento, em 1979.
Neste sentido, foi possível naquele momento.
Não existe nenhum motivo para mantê-la e, especialmente, não existe nenhum motivo para manter a impunidade dos membros do regime autoritário que foi imposta à sociedade civil brasileira naquele momento.
Está na hora de mudar esta tradição, aceitar o padrão internacional de punição das violações dos direitos humanos e de rever a lei da anistia.
Este ato poderá integrar o Brasil no rol das nações que punem violações dos direitos humanos no passado, para que seja possível puni-las no presente.
Os dois temas anteriores nos trazem ao tema da avaliação da comissão da verdade. As comissões da verdade que tem origem na Argentina e na África do Sul são importantes no sentido de revelar para a cidadania dos seus países os crimes cometidos durante os regimes autoritários.
É sabido que os aparatos de repressão dos regimes autoritários agiram, quase sempre, em uma zona cinzenta impossível de ser conhecida durante o próprio autoritarismo. Os detalhes sobre os desaparecidos na Argentina ou no Brasil, ou sobre estruturas específicas da repressão políticas só são completamente apreendidos pelos trabalhos de uma comissão da verdade.
O Brasil, neste aspecto, está atrás de quase todos os países latino-americanos.
A criação tardia de uma comissão da verdade está relacionada à tradição política de pacto entre as elites que regeu a democratização brasileira. Ainda assim, a atual correlação de forças no país gerou uma comissão da verdade que pode desempenhar dois papéis: em primeiro lugar, ela pode realizar um acerto de contas mínimo com o passado ao revelar o paradeiro de pessoas desaparecidas e a situação a que foram submetidos os presos políticos no Brasil.
Em segundo lugar, ela pode reintroduzir o debate sobre o pesado legado do autoritarismo para a sociedade brasileira chamando a atenção sobre a impunidade na sociedade brasileira sobre como foi feita a transição política no país.
Em ambos os casos, há um conceito de verdade a ser explorado: aquela na qual a verdade é resultado de um debate na esfera pública. É exatamente neste aspecto que a comissão da verdade está deixando a desejar. Até Paulo Sérgio Pinheiro assumir sua coordenação, a comissão da verdade não se preocupou em se expressar publicamente. Agora que ela está se expressando, tem se mostrado pouco preparada para a empreitada.
De um lado, é verdade que o seu regimento não deixa espaço para uma ação mais incisiva.  Assim, é fundamental este momento em que a comissão da verdade vai a público no Brasil. É ele que decidirá o conceito público de verdade, aquele que a opinião pública brasileira terá acerca do que passou no nosso país entre 1964 e 1985.
O engajamento dos seus integrantes e da opinião pública neste debate poderá decidir a visão que a população terá sobreo  autoritarismo e a democracia no Brasil.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Isso é Jornalismo! (55)

Uma coisa que algumas vezes já salientamos por aqui é o desinteresse (num misto de ignorância e desprezo) dos brasileiros em relação à América Latina, por muitos chamadas de América Espanhola, inclusive. O desconhecimento se dá nas áreas da cultura, especialmente. Mas não somente.

Abaixo, o artigo escrito por Wagner Iglecias e publicado no blog Carta Maior fala um pouco sobre "O que o brasileiro médio sabe sobre a América Latina?"

O que o brasileiro médio sabe da América Latina?

A elite brasileira há muito tempo tem parte nessa nossa ignorância sobre a vizinhança. A escola e a imprensa também tem sua responsabilidade por isso.

No ofício de professor universitário e ligado a um programa de pós-graduação sobre Integração da América Latina sempre que posso recomendo à garotada de graduação que assim que tiverem tempo e algum dinheiro metam uma mochila nas costas e saiam pelo nosso continente.

Nunca vi nenhuma pesquisa sobre o que e o quanto de América Latina o brasileiro médio sabe. Mas posso apostar que é muito pouco. Provavelmente menos até do que nossos vizinhos conhecem sobre o nosso país. E de maneira ainda mais superficial. E isso é sim um problema. Num mundo globalizado e dividido em grandes blocos como hoje, nada mais estratégico do que a aproximação com as nações com as quais um país tem identidades históricas, geográficas, culturais e econômicas.

Suponho que os séculos em que América hispânica e a América lusitana estiveram mutuamente de costas uma para a outra colaboraram para nossa ignorância sobre o que se passa aqui pertinho da gente.

Aliás o próprio termo América Latina é invenção forânea, européia. Coisa de franceses, no início do século XIX. Dizem que Napoleão III desejava assenhorar-se desta parte do mundo recém-liberto do jugo espanhol e português. Queria impedir que a Inglaterra, anglo-saxônica, o fizesse. Daí o recurso napoleônico à nossa latinidade em comum, entre nossos jovens países desta parte do mundo com a França. 

Mas bote-se aspas nesse “em comum”, já que naquela altura do campeonato por essas bandas talvez só a pequena elite branca descendente de espanhóis e portugueses tivesse alguma identidade cultural e linguística com a nobreza europeía. De resto, éramos nações predominantemente indígenas, negras ou mestiças. 

A França, a bem da verdade, chegou até a emplacar um governo no México já independente. Botou no poder Maximiliano de Habsburgo, um nobre austríaco, que governou aquele país entre 1864 e 1867, mas que acabou deposto e assassinado por nacionalistas mexicanos. Foi um projeto frustrado, e quem na verdade conseguiu levar a América Latina para sua área de influência foi a Inglaterra, e, mais tarde, os EUA. 

A elite brasileira, portanto, há muito tempo tem parte nessa nossa ignorância sobre a vizinhança. Mas para além de séculos de História olhando pro Atlântico e de costas para a América Latina, nossa escola e nossa imprensa também têm suas parcelas no desconhecimento quase completo que o brasileiro médio tem sobre nossos vizinhos. É pouquíssimo o que se ensina sobre América Latina para nossas crianças e adolescentes. Provavelmente o assunto mais abordado seja a Guerra do Paraguai, sempre naquela versão oficial de que Solano Lopez era um terrível ditador que pôs em risco a soberania de três jovens nações democráticas como Argentina, Brasil e Uruguai.

Heróis de esquerda ou de direita da libertação da América Latina, como San Martin, Sucre, Hidalgo, Artigas, O´Higgins ou Simón Bolívar, provavelmente jamais foram citados na maioria das nossas escolas. Bolívar, aliás, que mais do que um brilhante militar foi um pensador com sólida formação intelectual, passa inclusive em brancas nuvens em muitos cursos de Ciência Política das universidades brasileiras, os mesmos nos quais Jay, Madison e Hamilton, pais fundadores dos EUA, são leitura obrigatória. 

E a imprensa? Quantos correspondentes do jornalismo pátrio temos na América Latina? Muito poucos. Dizem que no passado foram até mais, não sei. Quais os temas historicamente recorrentes nas nossas tevês, revistas e jornais sobre nossos vizinhos? Copa Libertadores da América de futebol, crise econômica argentina, o regime cubano, o comércio popular na fronteira paraguaia, o tráfico de drogas, a Copa do Mundo de 1970 no México...e vamos parando por aí. O brasileiro médio conhece quais personagens latino-americanos? Maradona, Fidel Castro, Hugo Chávez e o Cháves, do SBT. E tirando este último, provavelmente odeia os outros três.

Fato é que não sabemos quase nada da região do mundo na qual estamos inseridos. Nossa elite branca e endinheirada sempre olhou para a Europa (primeiro Lisboa, depois Paris e Londres), e de algumas décadas pra cá tem Nova York e Miami como parâmetros. Não que as elites argentina, venezuelana ou mexicana, ou qualquer outra, sejam muito diferentes. Mas enfim, nossa elite tem como modelo os países ricos, e nutre ódio mortal por Cuba e seu regime socialista.

Detesta também governos de esquerda mais recentes da região, como nos casos de Venezuela e Argentina. Os termos venezuelização e argentinização, cada vez mais usados em nosso país, que o digam. Nossa elite talvez até nutra alguma simpatia pelo uruguaio Mujica, que apesar de esquerdista tem sua agenda liberal de governo, calcada em direitos civis como união homoafetiva e legalização da maconha. E nossa elite não tem formação e informação suficientes para compreender outros governos de esquerda do continente, como a Bolívia ou o Equador. Na dúvida, porém, dá-lhe adjetivos como populistas e caudilhos a quaisquer governantes nacionalistas que surjam na vizinhança.

Para a grande maioria de nós, brasileiros, seja nossa elite, seja o cidadão médio influenciado por ela, países como a Bolívia e o Peru são no máximo destinos turísticos exóticos. Colômbia e Venezuela, para além dos estereótipos propagados na imprensa, seriam apenas rota de passagem nas viagens aos EUA. O Equador e os países da América Central são tão conhecidos entre nós quanto a Tailândia, Moçambique ou a Bulgária. E o que dizer de Guiana e Suriname, que a rigor não são latino-americanos culturalmente falando, mas que se proclamam cada vez mais sul-americanos? Bem, para o brasileiro médio talvez a Guiana e o Suriname sejam tão familiares quanto Netuno e Plutão. É uma pena!

(*) Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor do Curso de Graduação em Gestão de Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Duetos (71)

Notícia divulgada hoje pelo Clube de Regatas Flamengo:

Flamengo fará homenagem a ex-jogador em partida dessa quarta-feira

Contra o Friburguense, Rubro-Negro colocará a hashtag #Valido100 no uniforme, em referência ao argentino Valido, ex-atleta da equipe que completaria 100 anos em 2014


O Flamengo fará no jogo desta quarta-feira contra o Friburguense, pela quarta rodada do Campeonato Carioca, uma homenagem ao argentino Valido, ex-jogador rubro-negro que fez o gol do título da equipe do primeiro tricampeonato estadual. O clube promoverá esta ação visando a comemoração de 100 anos de Valido, que aconteceria na próxima sexta-feira, por meio da hashtag #Valido100 no uniforme.


Este gol marcante para a torcida do Flamengo aconteceu em 1944. A partida foi disputada na Gávea e, aos 41 minutos do segundo tempo, Valido fez de cabeça o gol do título diante do Vasco. Vale destacar que neste confronto o argentino participou mesmo com febre e já como ex-jogador profissional, pois havia se aposentado no ano anterior.

Mesmo após se aposentar, Valido continou morando no Rio de Janeiro, onde faleceu em 1998.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Off-Topic (8)

PEQUENAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A MORTE DE NELSON MANDELA


Mandela foi um grande homem. Dentre os grandes líderes do século XX, ele deve ficar numa galeria de 4 grandes nomes: Mohandas "Mahatma" Gandhi, Martin Luther King, Jr., e Karol Vojtyla (João Paulo II) são os outros três. Isso é apenas uma opinião, mas é senso comum tratar-se de 4 personalidades extremamente influentes, e que tiveram ações (sejam elas diretas ou mediante influência) que serviram para mudar o curso das coisas.

Dos 4, Gandhi e Luther King infelizmente não passaram para a nossa geração: morreram muito cedo, ambos assassinados. Mas deixaram exemplos atemporais: um, indiano-hindu, lutou pela independência do seu país, conseguindo a retirada dos britânicos; o outro, americano-batista, foi fundamental para que se modificassem as leis e os atos de segregação racial em sua terra; E ambos usaram-se de um mesmo expoente e foram exemplos para o mundo todo: lutaram arduamente contra as injustiças, mas amaram o inimigo, e usando-se da não-violência.

João Paulo II, um polonês-católico, chegou a "pertencer" à nossa geração (faleceu em 2005), mas também suas grandiosas contribuições foram nos anos 80 e 90: ajudou na queda do muro de Berlim, e foi responsável pela primeira grande reaproximação entre Católicos e Luteranos, depois de quase 500 anos distantes. Também ele sofreu uma tentativa de assassinato. E perdoou seu algoz.

Sem qualquer embasamento biográfico de Mandela (sul-africano e metodista) para dizer isso, tenho certeza de que ele foi influenciado por Gandhi e Luther King, e também por João Paulo, com quem teve vários encontros.


um dos maiores líderes do século XX: contra os preconceitos


A frase escolhida para ilustrar meu pensamento (vê-se na foto) diz o seguinte: "Ninguém nasce odiando outra pessoa por conta da cor de sua pele, de seu histórico ou sua religião. As pessoas aprendem a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar, porque o amor vem mais naturalmente ao coração humano do que seu oposto".

E é essa a mensagem maior que Mandela deixou, mais que a luta silenciosa durante os 27 anos injustamente preso ou o grandioso combate ao Apartheid: Nelson Mandela deixou um exemplo importantíssimo: respeito às diferenças - e, consequentemente, um combate aos (nossos) preconceitos.


Ainda longe de agir com a nobreza dele, humildemente tentamos dar alguma sequência ao que Mandela ensinou: através do nosso blog, queremos expor e escancarar a forma com que somos muito passivos ao preconceito e à discriminação e como, principalmente, negamos isso dia sim, dia também.


Somos coniventes com o racismo, com a xenofobia (e não falamos somente de argentinos, mas também de qualquer estrangeiro, ou até mesmo pessoas do próprio país - nordestinos que o digam), homofobia, sexismo e, claro, as diferenças socio-econômicas.

Vivemos um apartheid velado.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Isso é Jornalismo! (52)

Uma coisa que nós do blog Hermanos&Brazucas gostamos é de pesquisar como a temática Brasil/Argentina vem sendo abordado ao longo dos tempos. Sem surpresa, vemos que a animosidade começou a aumentar mesmo foi a partir dos anos 90.

O video abaixo é de uma edição do "Jornal da Cultura", provavelmente no início de 1986, com comentários do jornalista Cunha Júnior a respeito do disco e show do grande artista Charly Garcia em Porto Alegre.

A apresentadora do telejornal também é muito elogiosa à obra de Charly, e ainda faz uma brincadeira a respeito da proximidade da Copa do Mundo:


Tempos em que se difundia música argentina no Brasil. Acima de tudo, tempos em que se podia separar a rivalidade nos campos sem que isso soasse um crime lesa-pátria...

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Duetos (63)

No último dia 19 de outubro, comemorou-se o centenário do grande poeta e compositor Vinicius de Moraes. É de conhecimento geral a grande relação do poetinha com nossos irmãos argentinos. Na última quinta-feira, 17, o Centro Cultural Recoleta de Buenos Aires anunciou que realizará uma exposição em homenagem a Vinicius, onde está prevista inauguração para o dia 20 de novembro.
A mostra foi concebida a partir de uma de Marta Rodríguez Santamaría (carinhosamente conhecida por “Martita Argentina” no Brasil) ex-esposa de Vinícius, e deve apresentar uma seleção de 90 fotografias. O projeto também conta com a participação da artista plástica argentina Renata Schussheim, que foi amiga do compositor: “O objetivo desta homenagem é celebrar o centenário de seu nascimento e conseguir uma aproximação com o multifacetado artista, o grande poeta e compositor, roteirista, crítico, diplomata, jornalista e saudoso amigo", declarou em comunicado ao Centro Cultural Recoleta.

Vinicius conheceu Martita em 1975 durante um circuito universitário e um ano depois eles se casaram. Para ela o poeta escreveu o "Soneto de Marta":
Teu rosto, amada minha, é tão perfeito
Tem uma luz tão cálida e divina
Que é lindo vê-lo quando se ilumina
Como se um círio ardesse no teu peito
E é tão leve teu corpo de menina
Assim de amplos quadris e busto estreito
Que dir-se-ia uma jovem dançarina
Que pele branca e fina, e olhar direito.
Deverias chamar-te claridade
Pelo modo espontâneo, franco e aberto
Com que encheste de cor meu mundo escuro.
E sem olhar nem vida nem idade
Me deste de colher em tempo certo
Os frutos verdes deste amor maduro


O Hermanos & Brazucas presta singela homenagem ao centenário, citando excelente matéria do Estadão, onde é contada a relação do poeta com o país vizinho.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Off-Topic (5)

Diversas vezes ressaltamos neste blog que a rivalidade entre Brasil e Argentina também atingiu esferas políticas e econômicas – como não poderia ser diferente, do ponto de vista geográfico, inclusive; mas nessa semana (ratificando nossas inúmeras demonstrações de que a situação é secular), tivemos conhecimento do caso mais grave: a cogitação de guerra entre os dois países – por iniciativa do Brasil; e mais do que isso, o país tupiniquim provocaria um conflito nuclear, se preciso fosse.

Encontro entre Augusto Pinochet e Ernesto Geisel
            É público e notório que em meados da década de 70, Brasil e Argentina começaram a adquirir infra-estrutura para a produção de armas nucleares – em seus respectivos governos militares. O Brasil firmou acordo com a Alemanha Ocidental, comprometendo-se a comprar reatores e materiais nucleares, enquanto a Argentina iniciou, em 1978, a construção de suas próprias instalações nucleares.

            O jornal “O Estado de São Paulo”, revelou arquivos secretos do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA) – incluindo a ata da reunião -, demonstrando que o presidente brasileiro à época, Ernesto Geisel, admitiu a possibilidade de o Brasil construir uma arma atômica, bem como declarar guerra contra a Argentina. 

Em reunião com o Alto Comando das Forças Armadas, precisamente em 1974, Geisel exterioriza “preocupação” do governo e dos militares em relação ao fato de a Índia ter detonado uma “bomba teste”. Intrigante, porém, é que longínqua atitude Indiana serviu como argumentação para que o Presidente cogitasse a possibilidade dos Argentinos também estarem realizando a mesma prática. Visando evitar que o Brasil “ficasse para trás” econômica e militarmente, Geisel se refere também à Argentina – que avançara significativamente no setor:

"Por seus importantes reflexos sobre a segurança nacional, não desejo encerrar esta exposição sem uma referência especial à política nacional para o uso da energia nuclear (...). A explosão recente de uma bomba nuclear pela Índia provocou comoção mundial e temos que considerar a hipótese de, em futuro não longínquo, a Argentina também pode explodir a sua. Evidentemente, isto gera inquietação entre nós e todos indagam qual será a posição do Brasil face à situação”, avisou o Presidente ao Alto Comando. Mas isso não é tudo: o general foi mais direto do que possamos imaginar, afirmando que a os argentinos tiveram "relativa facilidade de encontrar urânio", sendo "mais favorecidos pela natureza que o Brasil"; afirmando que a obtenção de consideráveis quantidades de plutônio, "poderia (grifo nosso) servir para os hermanos construírem uma arma nuclear". Incisivamente, Geisel não rogou-se em acrescentar: "nesse quadro, devemos evitar a abordagem passional do problema, capaz de nos conduzir a decisões precipitadas, por influência das supostas possibilidades ou intenções da Argentina (...). Dentro da necessidade de atualização, ressaltada pelo EMFA, o conceito deverá abranger a hipótese de guerra continental envolvendo a Argentina".



Documento Secreto: Ordem de Espionagem
            Acontece, porém, que o temor não se tratava tanto pelo poderio (e pelo ímpeto cogitado) do rival, mas pela fraqueza das tropas brasileiras. Também em documentos desclassificados pelo Arquivo Nacional, fica demonstrada, em agosto de 1978, a criação do Plano de Informações Estratégicas Militares, que descreve o esquema de espionagem organizado pelo Brasil. A tarefa era clara: fornecer ao governo brasileiro informações estratégicas e secretas dos países da América Latina - deixando apenas EUA e Canadá de fora do plano. Informações variadas estão preestabelecidas no documento e não deixam dúvidas de que o objetivo era descobrir segredos militares dos vizinhos: "Talvez o maior proveito desse trabalho de planejamento, na fase em que está, tenha sido o de nos permitir uma visão panorâmica do despreparo militar do Brasil (...)", admitiu o então vice-comandante do EMFA, o vice-almirante Ibsen Câmara, que secretariou a reunião presidida pelo general Tácito de Oliveira, na ocasião ministro-chefe do EMFA. Ibsen, por sua vez, complementou: "porque todos nós conhecemos, dentro de nossas forças, o próprio despreparo. Mas estamos agora aqui no EMFA examinando os planos de aprestamento e verificando que o conjunto está extremamente fraco, mesmo para o inimigo relativamente fraco como o que nós estamos imaginando". Por fim, disse ainda o bEm matéria de Força Aérea,[a Argentina] é muitas vezes superior a nós".
rigadeiro Waldir de Vasconcelos, mais tarde ministro-chefe da EMFA, em relação a participação da Força Aérea no conflito contra a Argentina. "

Documento Secreto: Armas Nucleares
            A atitude do general Geisel e dos demais militares – e estadistas – brasileiros, é mais um típico (e gravíssimo) caso de “contra atacar antes de ser atacado”, no que tange à relação Brasil-Argentina. Todavia, apesar da gravidade do assunto, não nos causa estranheza a postura do Presidente brasileiro, como podemos constatar em um rápido exercício de memória: em seu governo, Geisel fechou o Congresso Nacional, cassou parlamentares injustificadamente, ampliou de forma arbitrária o mandato presidencial para seis anos, e criou o famigerado “Senador Biônico – nomeado pelo governo, e não através do sufrágio universal. Ocorreram inúmeros assassinatos e atos terroristas contra pessoas e instituições que lutavam pela democracia (sendo todos acobertados pelo Exército); crimes que jamais foram devidamente explicados à justiça. Casos tristes, revoltantes e emblemáticos, como o da morte de Vladmir Herzog, de Manoel Fiel Filho, bem como do filho de Zuzu Angel (ícones daqueles tempos, até hoje). Incluem-se também as suspeitas mortes dos Presidentes Juscelino Kubitshek e João Goulart, bem como do jornalista Carlos Lacerda; além de inúmeros escândalos de corrupção, como o dos irmãos Lutfala e Atalla, e o caso Ângelo Calmon de Sá.

            Portanto (ainda que na informalidade), se alguém cogitar a possibilidade de bombardear a Argentina, não será idéia inédita; na década de 1970, Ernesto Beckmann Geisel não se inibiu – como em todos seus monstruosos atos ditatoriais -, e incumbiu-se de tamanho descalabro. 

Nota do blog: Felizmente, com a transição para governos civis nos anos 80, a cooperação entre os dois países teve grande progresso, onde foram celebrados diversos tratados internacionais, tendo como os mais importantes: o Tratado de Tlatelolco (Tratado de não proliferação de Armas Nucleares na América Latina), em 1994, que tinha por finalidade a criação de uma Zona Livre de Armas Nucleares (ZLAN), abrangendo toda a América Latina e Caribe; e o Acordo Quatripartite (1994), onde Brasil e Argentina comprometeram-se a aceitar a aplicação de salvaguardas internacionais a todos os materiais nucleares, entre outros.

sábado, 8 de junho de 2013

Duetos (54)



A OEA (Organização dos Estados Americanos) – fundada em Washington, em 1948, sendo uma das organizações internacionais mais antigas do mundo - é composta por 35 países do continente americano, entre eles: Argentina, Brasil, Chile, México, Estados Unidos, Uruguai e Canadá. Objetiva principalmente fortalecer o regime democrático, combater o terrorismo, diminuir os conflitos econômicos, além da proteção e/ou preservação cultural e social dos países integrantes.

No último dia 05, a 43ª Assembléia em Antígua, na Guatemala, aprovou os textos da Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Conexas de Intolerância e da Convenção Interamericana contra Toda Forma de Discriminação e Intolerância, sendo os documentos ratificados no dia posterior, durante cerimônia comandada pelo secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza; os delegados de Argentina (país tido sempre como racista, pelos brasileiros), Brasil – que dispensou grande apoio à causa -, Costa Rica, Equador, Antígua e Barbuda e Uruguai, assinaram a (importantíssima) proposta.

O presidente da Assembléia Geral da OEA e ministro das Relações Exteriores da Guatemala, Fernando Carrera Castro, elogiou a iniciativa, comemorando que “representa a adoção de importantes instrumentos jurídicos". Castro ainda afirmou que "a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Conexas de Intolerância e a Convenção Interamericana contra Toda Forma de Discriminação e Intolerância reconhecem o exercício e a proteção, em condições de igualdade, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais do ser humano”, e por fim, o presidente do Conselho Permanente da OEA e representante permanente do Panamá na organização, Arturo Vallarino, lembrou que a negociação em torno da elaboração dos documentos começou em 2000.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Raça X Nacionalidade (64)

Trazemos hoje mais um assunto importante no que tange a raça, preconceito e legislação. Pretendemos que se faça uma séria reflexão a respeito da Lei 12.288/10 – conhecida como Estatuto da Igualdade Racial.

De autoria do Senador Paulo Paim (PT-RS), com grande contribuição de grupos do movimento afro-descendente brasileiro (e através de audiências públicas por todo o país), o projeto tramitou quase uma década no Congresso para, com 65 artigos, entrar em vigor em outubro de 2010, sancionado pelo Presidente Luis Inácio (Lula) da Silva, objetivando, basicamente, defender e resguardar os brasileiros que sofrem preconceito ou discriminação em função de sua etnia, raça ou cor (especificamente, como demonstraremos a seguir), propondo normas e políticas públicas incidentes a tudo que trata a questão.

Senadores aplaudindo a aprovação do Estatuto

A seguir, citaremos apenas os Artigos 1º e 3º - presentes nas disposições preliminares - da referida lei; não por desconsiderarmos o restante do conteúdo do diploma legal, mas por entendermos que em ambos artigos, a proposta dos direitos que são tutelados se mostra de forma sintática:


Art. 1o  Esta Lei institui o Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica.



Parágrafo único.  Para efeito deste Estatuto, considera-se:



I - discriminação racial ou étnico-racial: toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em igualdade de condições, de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública ou privada;

II - desigualdade racial: toda situação injustificada de diferenciação de acesso e fruição de bens, serviços e oportunidades, nas esferas pública e privada, em virtude de raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica;

III - desigualdade de gênero e raça: assimetria existente no âmbito da sociedade que acentua a distância social entre mulheres negras e os demais segmentos sociais;

IV - população negra: o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas, conforme o quesito cor ou raça usado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou que adotam autodefinição análoga;

V - políticas públicas: as ações, iniciativas e programas adotados pelo Estado no cumprimento de suas atribuições institucionais;

VI - ações afirmativas: os programas e medidas especiais adotados pelo Estado e pela iniciativa privada para a correção das desigualdades raciais e para a promoção da igualdade de oportunidades.

Art. 3o  Além das normas constitucionais relativas aos princípios fundamentais, aos direitos e garantias fundamentais e aos direitos sociais, econômicos e culturais, o Estatuto da Igualdade Racial adota como diretriz político-jurídica a inclusão das vítimas de desigualdade étnico-racial, a valorização da igualdade étnica e o fortalecimento da identidade nacional brasileira.


De forma pertinente, antes de mergulharmos na discussão - para reforçar o conhecimento -, vale ressaltar alguns dados estatísticos: pelos números do Censo Demográfico realizado pelo IBGE, no ano de 2010, o Brasil contava com uma população de quase 191 milhões de habitantes, dos quais cerca de 15 milhões se declararam como pretos (7,6% do total) e 82 milhões como pardos (43,1% do total).



Na justificativa do Projeto de Lei, em 2006, o Senador Paim argumentou e propôs [sic]: “A fim de eliminarmos (grifo nosso) o racismo, o preconceito e as discriminações, muito tem sido feito, mas ainda há muito a se fazer (...) para dar fim (grifo nosso) aos pensamentos discriminatórios; (...) o Estatuto é um conjunto de ações afirmativas, reparatórias e compensatórias. Sabemos que esses tipos de ações devem emergir de todos e de cada um. Devem partir do Governo, do Legislativo, da sociedade como um todo e do ser humano que habita em cada um de nós”.

Fazendo um exercício de memória: se por um lado, e de fato, o Estatuto atualmente não é “unânime”, tampouco “conhecido” por grande parte da população, de outro, na época em que o projeto estava em discussão e votação, as mais diversas classes debateram com veemência a questão, restringindo o mérito a dois posicionamentos: por uma vertente, cobrava-se a famigerada “dívida histórica” do Brasil para com os negros (devendo-se muito aos fatos do sequestro de africanos, da escravidão e da abolição “incompleta”, por uma Lei Áurea ineficaz, a priori); argumentava-se que a desigualdade é produto da ação e da omissão do Estado, recaindo sobre a ele a responsabilidade de correção.

As pessoas que se mostraram contrárias a questão, protestaram afirmando que no Brasil praticamente inexiste meio de definir separação de raça/cor – negro, branco, etc. -, uma vez que é um país majoritariamente mestiço; as Leis Jim Crow, nos Estados Unidos, o Apartheid na África do Sul e as Leis de Nuremberg na Alemanha nazista foram exemplos recorrentes nessas argumentações; não foi deixado de lado o fato de que aproximadamente 19 milhões de brancos também se encontravam abaixo da chamada “linha de pobreza”, como também gerou diversos protestos, a polêmica Lei 12.711/12 – chamada Lei de Cotas. Arnaldo Jabor, inclusive, bradou na situação:




No Brasil, reconhecidamente, são questionadas diversas leis, como por exemplo: o Estatuto do Idoso (Lei 10471/03) e o Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90).

Talvez o caso mais emblemático da discussão eficácia/aplicação/(re)conhecimento esteja no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90). Em sua clássica obra “O Cidadão de Papel” (1994) – que, dentre tantas pertinentes considerações, discute a desigualdade social, questiona as razões de crianças/adolescentes tornarem-se menores infratores, e, evidentemente, o exercício prático das normas constitucionais -, Gilberto Dimenstein, na apresentação, define magistralmente: “a verdadeira democracia, aquela que implica o total respeito aos Direitos Humanos, está ainda bastante longe no Brasil. Ela existe apenas no papel. O cidadão brasileiro na realidade usufrui de uma cidadania aparente, uma cidadania de papel. Existem em nosso país milhões de cidadãos de papel. Desvendar as engrenagens que produzem este tipo de cidadania, eis o objetivo deste livro. Essas engrenagens estão diante dos nossos olhos. Convivem com nosso dia-a-dia. Nós fazemos parte delas. Nós as produzimos”.

O conceito de Dimenstein se amolda perfeitamente a nossa Constituição Federal de 1988, como exemplificação, nos Títulos I, II e VIII, que tratam respectivamente dos princípios fundamentais, dos direitos e garantias fundamentais e da ordem social.



Opostamente, o conceituado jurista, Dr. Calil Simão, na primeira e significativa obra referente ao tema, denominada “Estatuto da Igualdade Racial”, em 2011 (págs. 11 e 14), comentou a respeito: "com base no Estatuto da Igualdade Racial é possível exigir do Estado medidas concretas para atender um interesse individual ou coletivo, bem como pode um ente político exigir do outro a sua contribuição nos projetos e ações destinadas a combater a “discriminação racial” e as “desigualdades raciais” que atingem os afro-brasileiros.

Desse modo, o argumento de alguns de que o Estatuto da Igualdade Racial é um texto de compromisso ou simplesmente sugestivo sem qualquer característica de coercitividade não procede, já que ele trata do dever do Estado, regulamentando a Constituição Federal e definindo qual a postura do Estado com relação à proteção e promoção dos interesses dos afro-brasileiros. Se a proteção dos direitos fundamentais, a teor do § 2º do artigo 5º da Constituição Federal, tem aplicação imediata, podendo-se exigir do Estado, por meio do Poder Judiciário, o exercício de qualquer direito fundamental, independentemente de lei ou ato normativo infraconstitucional, o Estatuto da Igualdade Racial serve para delimitar e direcionar esse dever fazendo surgir ao Estado um dever comissivo específico, conseqüentemente, inaugurando sua responsabilidade em razão de uma omissão, bem como norteando a atuação do Poder Judiciário e dos titulares da proteção dos direitos difusos e coletivos”.

Censo 2010

Após um ano da sanção da supracitada lei, Eloi Ferreira de Araujo, Ministro da Secretaria de Políticas para Promoção da Igualdade Racial à época, declarou: “é a forma mais democrática e legal para que sejam asseguradas as possibilidades de acesso aos bens econômicos e culturais a toda a nação de maneira igualitária. O primeiro diploma legal (grifo nosso) incluído no arcabouço jurídico brasileiro, desde 1888, tendo em vista a construção de ambiente de igualdade de oportunidade entre negros e não-negros (...) É um ano de conhecimento. O Brasil inicia um processo de apropriação desta legislação”. Disse ainda: “devem ser estabelecidas imposições para que o Estatuto tenha a eficácia plena como deve ser. Um processo de estudo e empenho da sociedade civil, além de uma aceleração por parte dos órgãos do governo que têm responsabilidade na sua regulamentação para que seja promovido o acesso direto ao que estabelece a lei”.

Jean Baptiste Debret
Segue a mesma linha de pensamento a secretária de Políticas das Comunidades Tradicionais da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Silvany Euclenio, considerando que o período de vigência do Estatuto é curto para mensurar o impacto gerado por ele.

Intrigante e ao mesmo tempo contraditório, é Silvany afirmar que “as ações afirmativas são medidas ‘discriminatórias positivas’; ‘discriminam para integrar’”. Levando-se em consideração que ao citarmos a justificativa do Projeto de Lei do Estatuto da Igualdade Racial, destacamos que o Senador Paulo Paim almejava “eliminar o racismo e dar fim aos pensamentos discriminatórios”...

Por isso, é fundamental que tenhamos noção da eficácia da propositura; como está sendo feita a aplicação do dispositivo, passado algum tempo?



O conselheiro estratégico do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas, Ivanir dos Santos, concorda que o Estatuto seja um importante marco legal, entretanto, lamenta a lentidão com que os efeitos são percebidos; Santos enfatiza que o maior avanço registrado durante o período de vigência do texto foi justamente um ponto retirado do documento durante a tramitação no Congresso: a Lei de Cotas, regulamentada pelo Decreto 7.824/12, publicado em 11 de outubro no Diário Oficial da União.

Domingos Dutra, Deputado Federal (PT-MA), afirma que “a lei é muito boa, mas precisa se debatida com urgência; o Estatuto ainda precisa ser implementado, de fato; precisamos de ações concretas que possam implementar a execução das políticas públicas e afirmativas. Do contrário, (a lei) ficará na burocracia, se tornando letra morta”.

O Senador Cristovam Buarque (PDT-DF), frisou que agora, o fundamental é lutar pela melhoria da educação, e fez outras importantes ressalvas:



Para alguns cidadãos, isso não foi esclarecido...

Diante do exposto (e com base nessa sucinta interpretação analítica), deixamos o questionamento: seria mesmo necessário criar uma lei específica para tratar de assunto(s) presente(s) (e assegurados, literalmente) na Carta Magna, onde “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (Art. 5º, caput)? Estará o Estatuto da Igualdade Racial cumprindo seu papel, ou se apresenta da mesma forma que os Códigos outrora citados, na prática? De fato, contribui para o “pagamento” da dívida histórica? Ou fica aquela sensação de “filme repetido”?