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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Muito Além do Futebol... (61)

Talvez o título-tema dessa postagem seja o que melhor define o espírito desse blog: falamos de uma situação que em muito ultrapassa os limites da "rivalidade futebolística". E nova prova disso aconteceu no último domingo.

Em Londres, o tenista argentino David Nalbandian fazia a final do Torneio de Queen's. Venceu o primeiro set e o segundo vinha equilibrado, quando Nalbandian errou uma "bola fácil" e perdeu seu game de saque. O resultado foi a irritação do tenista que, ao invés de quebrar a raquete no chão ou coisa parecida, chutou uma das placas de publicidade que ficavam ao lado da quadra. Porém, ali era também o lugar em que um dos juízes de linha estava a postos, e a placa acabou por cortar-lhe a perna.

O video:


Indubitavelmente, uma tremenda "c...da" do argentino. Um erro ridículo. Indefensável. Aliás, é bom ressaltar que a imprensa do país o criticou tremendamente. Nalbandian também pediu desculpas e disse aceitar a punição.

Tudo isso exposto, esse blog quer apenas lembrar de outros três casos semelhantes

Em 1995, Tim Henman foi desclassificado, assim como Nalbandian, do torneio de duplas de Wimbledon. Motivo: após errar um ponto, ele acerta  bolinha numa das "ball girls":



E outro caso ainda mais emblemático aconteceu em 1998, em Paris. Gustavo Kuerten - que se envolvera em confusões com juiz e recebeu vaias de torcida no Canadá um ano antes -, ao discordar de uma marcação, jogou a raquete no juiz de cadeira. Kuerten foi punido e desclassificado, assim como Nalbandian.

"Tentei descarregar jogando a raquete na direção da minha cadeira, mas ela escapou e foi no juiz", escreveria Guga em sua nota de desculpas.

foto que estampou matéria da Folha de S. Paulo
Será que Tim Henman fez aquilo por ser europeu ou britânico ou Guga agiu daquela forma por ser brasileiro, catarinense?... Óbvio que não, certo?

Pois bem.

Ontem, como todo bom viral da internet, a imagem de Nalbandian ferindo o juiz se alastrou nas redes sociais brasileiras e vimos um festival de comentários ofensivos.

Abaixo colocaremos alguns que foram publicados no facebook do "Uol Esporte" (página esportiva do UOL) e na página "Saque e Voleio" (blog de tênis do globoesporte.com):

Uol Esporte:

Alberto Onety
Da prepotência argentina se espera tudo, afinal eles pensam que são Deuses e não passam de uns imbecis arrogantes.

Roland Costa
Esses ermanos [sic] são assim mesmo....tomam guasi [sic] sempre uma atitude ANIMALESCA !!!!

Eduardo Cabral
Argentino babaca é pleonasmo...

Loester Ribeiro
argentino burro!!!!

Saulo Teixeira
Se não fosse argentino eu não me surpreenderia

Zildete P Ferreira
Êta cara sem noção né náo? Êle é argentino, aaaaa bom, só podia ser.

Marcos Tadeu Gonçalves Teixeira
Mais uma de argentino

Marcelo Loguercio
sabem o q argentino tem mais q brasileiro né? tem mais é que se f...

Regina De Alencar Rodrigues
O que se espera de um argentino pitbull...

Renato Daniel
Go, ARGENTINHA! Go!

Elisio Junior
tem que ser multado pela ATP, hermanos....sempre bizarros!!!!

Luis Carlos Badin
O q esperar mais de um argentino????

Paulo Monroe
argentinos ¬¬'

Alber Marin 
Dessa vez vc pego pesado em Nalbandian? tinha que ser argentino..!

Ismael Grazielly Soares
tinha que ser argentino!!!!!!

Marcio Silva
TINHA QUE SER ARGENTINO!!!

Rafael Alves
Tinha que ser Argentino mesmo kkkkk

Yuri Passos
Só podia ser argentino msm!

Léo Engelmann
Argentinos.

Benjamim Ferreira Sousa

Tinha que ser tenista Argetino alem de mal educado é prepotente.
Ian Lucas
tem que ser argentino essa coisa
Fábio Morais de Olveira
Tinha que ser argentino que burro kkkkkk!!!!

André Denadai 
O fato de ele ser argentino lhe diz algo??????????


Saque e Voleio:

85
Everaldo: Só podia ser argentino.
82
vagnaum: Um ignorante idiota e mais ainda pq é argentino. E quem defende eles saibam que são bem racistas com relação a brasileiros,nos chamando ate pela midia escrita de macaquitos. Igual a cultura deles de culpar os outros pelos seus erros.
57
eduardo: De que país é mesmo este tenista? Estas atitudes são normais neste país?
37
Manoel: Argentino, o que se pode dizer mais?!
41
ADRIANO: OS ARGENTINOS SEMPRE FAZEM DE CONTA QUE NADA ACONTECEU,IGUAL NO FUTEBOL.
42
Gedian: afinal ele é argentino rsrsrs
43
Bruno Massa: Só poderia ser argentino imbecil sem classe para o esporte.
46
Zeff Camargo: O camarada é argentino, tudo se explica. Lixo!


Mas obviamente nos dois casos tivemos comentários decentes:

Primeiramente, o de Alexandre Cossenza, moderador do blog Saque e Voleio, no twitter: "Agora a caixinha [de comentários] se transformou em palco de ataque aos argentinos. Generalização idiota."
Também no "Blog de Tênis" (página do jornal 'Lance!' hospedada no UOL) o jornalista Fabrizio Gallas ao criticar tais comentários faz importante lembrança: "E não vamos generalizar só porque ele é argentino. Juan Martin Del Potro por exemplo é um doce de tenista mesmo quando perde. Muito humilde e correto."

Bruno Muniz
Não teve culpa..não é pq é argentino que vamos crucificar..ficou nervoso, todos ficamos..

Tiago Mantena
O cara é ser humano, pode errar como qualquer um

José Macedo
Sem comentarios.... Jogo estava ótimo, mas tinha que estragar.... Mas o fato de ser Argentino é apenas uma infeliz coincidência!!!!

88
Jr. Caimbrã: A discussão contra os argentinos é tão ridícula que não merece nem comentário. Brasileiro ser xenófobo ? PALHAÇADA !!!

86
bruno f.: Pessoal vocês falam tão mal de argentino!!! Queria que os esportistas brasileiros, tirando algumas exceções, tivessem um pouquinho que seja da garra e a determinação dos nossos hermanos… que o Bellucci, Felipe Massa e muitos dos jogadores de futebol tivessem a vontade e gana de vencer!!!

48
Marcos:
Vocês que julgam os argentinos em geral… são bobos ou só nasceram preconceituosos mesmo?
São um perigo pra sociedade. Muito mais que o Nalbandian, convenhamos.

80
Paulo Roberto Madeira: Comentário 49 – Parabéns Sérgio. Faço minha suas palavras. Esse negócio de ficar malhando argentino é coisa de pessoas sem personalidade que vão atrás de palavras de um infeliz e retardado como o Gavião Bueno.

58 Leandro: Galera, na boa, Por que esse ódio por argentinos? Eles não tem a mesma rivalidade que os brasileiros tem por eles.


Fica claro, mais uma vez, que os brasileiros têm a famosa "memória curta". E que perseguem argentinos excessivamente.

Uma pena.

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Atualização de 29 de outubro de 2014: o tenista Darian King (22 anos), negro, natural de Barbados, foi desclassificado hoje. Confira o que aconteceu:



Atualização de 05 de fevereiro de 2017: o tenista canadense Denis Shapovalov (17 anos), natural do Canadá, loiro de olhos azuis, foi desclassificado hoje. Confira o que aconteceu: 


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Muito Além do Futebol... (10)


É só você assistir um pouco de TV ou ler algum jornal que, se houver alguma referência a argentinos, esta será pejorativa. De alguma maneira será pejorativa. É algo tão claro e tão comum, que muitas vezes as pessoas nem percebem (paradoxo?).

Um exemplo excelente (ou péssimo?) aconteceu na última segunda-feira, 14, quando o tenista argentino Juan Martín Del Potro sagrou-se campeão do Aberto dos Estados Unidos, um dos 4 campeonatos mais importantes do tênis mundial.

Na verdade, antes mesmo da partida, começou o festival de sempre, que é um misto de piadas e desprezo.

No programa Redação SporTv, canal cabo da Rede Globo, comentava-se sobre a final. A história começou quando o apresentador do programa falou que os argentinos "querem ver se pelo menos alguma coisa eles levam, porque no futebol...".

Alguém acrescentou: "é, no futebol tá essa draga (sic), no basquete estão perdendo sempre, o vôlei, nem existe mais, então só sobra o tênis". Pelo menos o apresentador aliviou, e falou: "no basquete tem perdido porque só leva o time D nessas competições, se levar o A, tem grandes chances, vai pra disputar título".

(Talvez o apresentador tenha se lembrado de que o basquete argentino foi campeão olímpico em 2004 e medalha de bronze em 2008, sendo que o basquete brasileiro sequer conseguiu disputar as últimas três (!) olimpíadas. E vale lembrar que Emanuel Ginóbili, que ganhou o prêmio de melhor jogador em 2004, foi campeão na NBA em 2003, 05 e 07, coisa que brasileiro nenhum jamais fez).

Então, começaram os leitores a enviar mensagens. Um deles escreveu: "Argentina só ganha libertadores e olhe lá". Outro: "Argentina é país do pólo e do rugby, e só". Um dos participantes comentou: "a infelicidade do del potro é que, por melhor que esteja, vai pegar na final o federer, deu azar". Nisso, outro ri: "no tênis, pega o Federer, no futebol, pegam o Brasil".

Percebe-se duas coisas: 1) descartou-se qualquer possibilidade de uma vitória de Del Potro; 2) menosprezou-se a importância do tênis no cenário mundial, não apenas pela comparação com o futebol.

Mas a "cereja do bolo", que é o motivo pelo qual demos o título a esse post, vem com o jornalista André Lofredo, um dos que mais realiza provocações em eventuais debates onde a Argentina é assunto: "pelo menos eles estão bem na política e economia (pausa). Ah, não tão não..." e riu.

Aí encerraram-se os comentários e mudou-se de assunto.

Pois bem, veio a partida e Del Potro venceu. De maneira épica. Reconhecida por todos e pelo próprio Federer, por muitos considerado o melhor tenista de todos os tempos.
Logo a seguir, já era possível ver comentários desprezando a conquista. Muitos leitores, através do twitter, seguiram na mesma linha "dane-se-o-resto-o-que-importa-é-que-no-futebol-somos-melhores-que-eles", como se o mundo que assistiu o jogo estivesse muito preocupado com a seleção brasileira de futebol.

Foi também essa a tônica de sites e blogs no Brasil (excetuando-se, claro, os especializados em tênis, que não se deixa(ra)m levar por tolas patriotadas, sabendo reconhecer a qualidade do tênis de Del Potro, individualmente, e da Argentina, como um todo): Juca Kfouri, por exemplo, reduziu a conquista de Juan Martin a um simples "Maradona irá convocá-lo para a seleção".

No dia seguinte, no mesmo Redação SporTv, algum leitor escreve ao programa dizendo que "apesar de Del Potro ser argentino, há de se admitir que jogou bem". O mesmo apresentador mencionado anteriormente diz que "sabe que os argentinos são bons e em vários esportes" mas que gosta de "apimentar a rivalidade".

(novo parênteses: em duas matérias de épocas distintas, uma de 2004 e outra de 2007 - clique nos anos para ler -, do portal UOL, comentou-se da verdadeira discrepância que existe tanto em termos de talento quanto de resultado entre os tênis argentino e brasileiro. E vale lembrar que, no Brasil, o segundo melhor tenista da última geração vitoriosa é o... argentino Fernando Meligeni).

Na Rede Globo, a tônica, em todas as matérias, foi a de "se no futebol eles estão mau, o tênis serve como consolo" e "na falta de Messi e Maradona, a Argentina busca novos ídolos". Esse tipo de menção levou hoje o jornal "Olé" a mandar um recado à imprensa brasileira.

Na matéria intitulada "O mundo fala dele" (El mundo habla de él), o diário argentino citou vários lugares do planeta onde houve repercussão da vitória de Del Potro: "começando por Tandil -terra do campeão-, passando por Estados Unidos -onde conquistou o título-, Suíça -onde perderam-, Espanha -terra de Nadal- e Brasil. Neste último, não se esquecem do futebol, mas agora é o momento da raquete. É a era de Delpo".

Lendo até o final, o jornal reproduz uma citação de "O Globo": "Quando a equipe de futebol está decepcionando, há que se procurar outras estrelas do esporte", diz a publicação carioca. O Olé conclui dizendo: "Não perdoam uma. Mas a inveja é evidente. Delpo é argentino". Perfeito. E não sabemos se é somente inveja que explica esse tipo de desprezo.

Sinceramente, vendo o que diz a Globo, eu prefiro ficar com Gustavo Kuerten: "Ter um sul-americano campeão é algo interessante. Eu conheço o Del Potro desde pequeno e sei que ele é um tenista muito dedicado. Fiquei muito feliz com o resultado, apesar da admiração que eu tenho pelo Federer. Para o tênis esse resultado é muito bom, o confronto em quadra com resultados surpreendentes é sempre muito estimulante."

Eis um brasileiro que sabe respeitar e reconhecer o talento dos argentinos. Talvez porque conheça o assunto.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Muito Além do Futebol... (9)

Algo de estranho acontece no Brasil. A relação compensatória do esporte (i.e. futebol) no cotidiano popular é incrível. Vamos fazer três pincelagens de momentos históricos nessa relação.

Momento 1: 1958 - O esporte como "reprodução" da realidade

Aqui é quando o Brasil passou a se tornar uma "Potência do esporte mundial", e tinha-se a ideia de que as coisas estavam dando certo. Juscelino e seus "50 anos em 5", a indústria automobilística e a construção de Brasília davam a impressão de que realmente o Brasil era o maior do mundo. Mas não apenas na economia tinha-se essa impressão: no esporte também.

O Brasil conquistava em 1958 seu primeiro título na Copa do Mundo de futebol. No ano seguinte, vencia o mundial de Basquete e, nesse meio tempo, Maria Esther Bueno vencia torneios em Wimbledon e outros Grand Slams enquanto o Santos se tornava "bicampeão mundial interclubes". Para coroar essa saga, em 1962 a seleção nacional de futebol trazia o bicampeonato do Chile.

Começava-se a olhar para o esporte como um retrato da população. Se "nós" vencíamos, quem gahava era também a população, afinal de contas você é brasileiro, igualzinho Pelé, Maria Esther e Wlamir Marques. Como disse Nelson Rodrigues em crônica da época, "o brasileiro tem de si mesmo uma nova imagem. Ele já se vê na totalidade de suas imensas virtudes pessoais e humanas".

A eliminação logo na primeira fase em 1966 não tem grandes efeitos, pois podia-se dizer que "os times europeus foram violentos". E o auge aconteceu na copa de 1970: a ditadura militar usando o time como símbolo, e canções no estilo "Pra frente, Brasil" além do slogan "Ninguém segura este país" embalaram o sonho. Nesse mesmo ano, Emerson Fittipaldi conquistava a primeira vitória brasileira na Fórmula 1.



Até o início dos anos 80, o futebol deixou de encantar o povo brasileiro, com decepções nas copas de 1974 e 1978, e Fittipaldi, embora tenha sido campeão em 72 e 74, embarcaria no sonho de uma equipe brazuca de Fórmula 1 e jamais conseguiu um grande resultado na categoria. Aliado a tudo isso, a verdade sobre mortes e escândalos passava a surgir e o "milagre econômico" da ditadura dava mostras de sua ineficiência. Em 1979, pelo menos, a Anistia acontecia...

Era preciso renovação. Política e esportiva.

Momento 2: 1982 - O esporte como a grande (única?) esperança

No início dos anos 80, começava a se desenhar o fim da ditadura militar e, ainda que timidamente, havia novamente esperança no povo brasileiro. A década esportiva começa a ressurgir a partir do primeiro título de Nelson Piquet, 7 anos após a última conquista de Fittipaldi. No ano seguinte, a seleção brasileira vai à Espanha e exibe aquele que, para muitos, foi o futebol mais bonito da história do país.

No entanto, o espetáculo brazuca caiu diante da eficiência italiana, na famosa derrota por 3 a 2. O episódio seria para sempre conhecido como a "Tragédia de Sarriá" (nome do estádio espanhol). Mas a esperança haveria de se renovar...

Em 1983, Nelson Piquet torna-se bicampeão, e no ano seguinte surge Ayrton Senna, dirigindo um carro mediano e conseguindo resultados absolutamente surpreendentes na sua temporada de estreia. Foi no mesmo 1984 que surgiu o movimento "Diretas, Já!", que marcou definitivamente a fase dos sonhos.

No ano seguinte, a morte de Tancredo Neves antes de sua posse cobre com um manto de tristeza a população brasileira. Mas é justamente nesse contexto que Ayrton Senna começa a despontar no cenário mundial e na cultura do país: no MESMO dia em que se anunciava o falecimento de Tancredo, Senna vencia seu primeiro Grande Prêmio na F-1.

Em 1986, a seleção brasileira mantinha-se com a mesma qualidade da copa anterior (o técnico era o mesmo, Telê Santana, fato raro por aqui) e Senna e Piquet apareciam como grandes candidatos ao título da F-1. Além disso, o início do plano cruzado com José Sarney, dava a impressão de que, como diziam os balões na pista de Jacarepaguá, tudo iria "dar certo".



Os escândalos de corrupção e inflação no governo Sarney começam a aparecer e novamente a seleção de futebol é eliminada, mas cada vez mais a Fórmula 1 traz alegrias: Senna vence o GP de Detroit no dia SEGUINTE à derrota brasileira para a França em 86, Piquet é campeão do mundo em 1987, e Senna leva o título em 1988, 90 e 91 - ano em que obteve sua primeira vitória no GP do Brasil - com Piquet obtendo importantes vitórias no início da década.

De certa forma, as alegrias na F-1 substituíram as vitórias nos gramados quando, em 1990, mais uma vez o Brasil foi eliminado (dessa vez por Maradona, plantando a semente do que aconteceria pouco tempo depois). 1992 inicia-se com os graves problemas do governo Collor em meio ao ouro olímpico da seleção de vôlei, um prenúncio do que aconteceria nos anos 2000.

A morte de Senna em 1994 põe fim aos sonhos. Coincidentemente, acontece o tetra no futebol. Preparando-se para a vinda de FHC, pode-se dizer que aquela foi a última vez em que o país esteve envolvido e totalmente unido no âmbito esportivo.

Momento 3: 1998 - O esporte como recompensa. Ou vingança.

A morte de Senna não afetou apenas a carreira do piloto, mas deixou o Brasil órfão nas "manhãs de domingo". Até a primeira vitória de Barrichello, em 2000, foram quase sete anos sem que pilotos brasileiros conquistassem qualquer GP. A derrota vexatória na Copa do Mundo de 1998, levando 3x0 da anfitriã França, dá também início ao jeito "não são os outros que ganham, nós é que perdemos" de se pensar.

Teorias mirabolantes sobre uma possível venda da copa, em detrimento ao talento de craques como Zinedine Zidane, norteiam o pensamento da maioria da população, enquanto uma outra parcela, ainda tímida, passa a desgostar do modo como o esporte é conduzido no Brasil. É aqui que se acentuam os que torcem por outras seleções ou então por pilotos estrangeiros na F-1. Um exemplo: muitos torciam pela seleção brasileira ao mesmo tempo que por Schumacher, ou por Itália/Argentina/França e Barrichello.

Justamente nesse contexto, surge o primeiro grande tenista brasileiro desde Maria Esther Bueno: Gustavo Kuerten. Praticante de um esporte que nunca foi popular no Brasil, nato de um estado que não é um dos principais do país economicamente, e em meio à "Orfandade" da F-1, Guga traz algum resquício de "Vamos lá!".


Mas justamente pelo fato de requerer muitos investimentos financeiros, o tênis não conseguiu atingir o mesmo sucesso do automobilismo. Apesar disso, a ideia de "somos os melhores do mundo no futebol e no tênis" acontecia. Depois veio um surto de vitórias na ginástica e consequentemente "somos os melhores do mundo no futebol e na ginástica".

Em 2002, há uma esperança política no povo brasileiro que os faz eleger Lula, e no mesmo ano a seleção conquista o penta no futebol. Muitos comemoram, mas não houve nem metade da festa acontecida 8 anos antes, no tetra de 1994. Muitos dizem que é pelo fato de, naquela época, o Brasil não levantar a taça havia 24 anos. Pode ser, mas o entusiasmo já não é(ra) mais o mesmo.

Bernardinho, ex-técnico da seleção feminina, começa a ditar os passos do voleibol mundial masculino a partir de 2001, e aqui se pode dizer que, sim, o Brasil realmente foi e é o melhor no respectivo esporte. Mas, novamente, "somos os melhores do mundo no futebol e no vôlei".

Barrichello nunca conquistou o devido respeito pela população. O tênis e a ginástica foram sendo gradualmente esquecidos, notadamente o primeiro, pois a ginástica ainda tem "incentivos" (somente) em momentos como Pan-Americano e Olimpíadas - mas a cobrança em eventual derrota é SEMPRE dez vezes maior que o apoio.

2006 marca a reeleição de Lula apesar do maior escândalo político-financeiro da história do país: o Mensalão. Nesse mesmo ano, acontece uma das mais amargas derrotas da história do selecionado de futebol (novamente para a França) e a desculpa dessa vez é que "os jogadores não quiseram jogar", porque "nós SOMOS os melhores, sempre".


E foi ao longo de todo esse contexto no momento três - desde meados dos anos 90 - que se acentuou de modo drástico a necessidade de ter um rival "de sempre", alguém que pudesse alegrar o Brasil apesar de suas derrotas: a Argentina. Tornou-se tão importante quanto torcer pela vitória brasileira o "torcer contra" a Argentina.

Na copa de 2006, por exemplo, a Argentina foi eliminada na sexta-feira, e o Brasil no sábado. E o que mais se ouvia era: "o que importa é que a Argentina caiu antes".