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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Duetos (103)

Luis Scola, jogador argentino de grande sucesso no Basquete mundial, atualmente defende o Brooklyn Nets, equipe que homenageou Oscar Schmidt na última terça-feira.

Scola celebra a oportunidade de reencontrar seu grande ídolo do esporte -- a primeira vez que ele o viu pessoalmente foi em 1990, na Copa do Mundo de Basquete, que aconteceu na Argentina, quando Scola tinha apenas 10 anos e atuou como gandula.

"Foi divertido porque ele era um grande herói para mim e tivemos a chance de conversar um pouco, então obviamente será um momento de emoção encontrá-lo. Vai ser um grande dia. Poderei conversar com ele, talvez tirar outra foto 30 anos depois. (...) Ele foi um herói para praticamente todo mundo na América Latina. Ele foi meu maior exemplo no basquete por anos e anos."



Mais uma vez (como nos casos de Senna e Fangio, Caetano-Chico e Piazzola) o exemplo vem de cima.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Muito Além do Futebol... (93)

Já muitas vezes citamos o CQC em nosso blog (basta buscar pela tag, abaixo), algumas vezes em forma elogiosa, em outras de maneira crítica. Dessa vez, é uma simples constatação: a velha necessidade do "outro", além de transformar tudo em uma partida de futebol.

Ontem foi ao ar a cobertura do amistoso Brasil X Argentina (jogo preparatório para o mundial de basquete) que rolou no último fim-de-semana, no Rio de Janeiro.

Destaque para as breves entrevistas com o grande Rúben Magnano (a partir dos 2min49) - quem sempre rechaçou essa rivalidade e nunca comprou discursos baratos como os de Andreolli - e às perguntas feitas a Facundo Campazo, falando de política, economia, futebol... menos do jogo de basquete.



segunda-feira, 2 de junho de 2014

Duetos (81)

No ultimo sábado o Flamengo foi campeão do NBB, a liga nacional de basquete. Na eleição de melhor jogador, a torcida brasileira escolheu o argentino Nicolás Lapravittola, com grande porcentagem dos votos (mais de 70%).

o argentino Nicolás Lapravittola
"Muito obrigado, muito obrigado mesmo pelo carinho de vocês. (...) Veio minha família inteira da Argentina. Meu pai, minha mãe, meus primos e tios. A verdade é que eu procurava isso para mim, procurava ganhar títulos com o Flamengo, jogar bem e ser reconhecido. (...) Agora sou o escolhido da torcida. Estou muito feliz por tudo. Mais uma vez, obrigado ", disse o argentino após a premiação.

a família de Lapravittola veio prestigiá-lo

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Duetos (65)

Rúben Magnano, já algumas vezes mencionados por nós, é argentino e técnico da seleção brasileira de basquete. Quando contratado, teve duas missões: uma, concreta: levar o basquete brasileiro de volta ao patamar dos grandes do mundo; outra, subjetiva: acabar com a resistência dos brasileiros aos argentinos.

A primeira, ele não conseguiu por inteiro, mas tem contribuído para uma melhora significativa: o Brasil não disputava uma Olimpíada dese Atlanta-1996: em Londres, retornou; conseguiu alguns títulos, também. Já o outro, ainda há dúvidas.

Neste link, a entrevista de Magnano ao UOL. Um trecho que destacamos:
UOL: O que representaria uma medalha olímpica no Brasil? Um argentino, comandando o Brasil...

Rubén Magnano: Representaria muita coisa. Acho que seria um espelho muito importante não só para o esporte, para o basquete. Seria um agente multiplicador de garotos, de meninos, jogando basquete. Sem dúvida seria um passo importante. Precisamos de uma coisa dessa. Mas lutar por uma medalha não é coisa da noite para o dia. Se o Brasil tiver comprometimento dos jogadores, estaremos perto disso. A última coisa que vou deixar é sonhar que podemos. Sempre quero um pouquinho mais. Eu não mexo com isso de Argentina, Brasil, técnico argentino. Gostaria muito que o Brasil tivesse uma atuação relevante nos Jogos Olímpicos. Não por ser técnico argentino, absolutamente. É pelo basquete. Acho que é por isso, eu ia me sentir muito feliz, muito feliz. Sem dúvida colaborei para que isso acontecesse. 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Muito Além do Futebol... (71)

Oscar Schmidt, quando encontrou o Papa, falou en directo com Fátima Bernardes, em seu programa matutino. Sua frase foi: "nunca pensei que eu fosse gostar tanto de um argentino". A afirmação, dada a emoção do momento e a natural descontração do brasileiro, soa muito bem como uma brincadeira e, de verdade, não ofende ninguém. É até uma espécie de reconhecimento.

Porém, um mês depois, o mesmo atleta brasileiro participaria do programa 'Bola da Vez', na ESPN Brasil, um programa de entrevista longo e detalhado, onde é possível pensar muito bem no que falar, e não existe mais o "calor do momento". Além disso, não era uma chamada ao vivo e o público da tv a cabo é naturalmente mais restrito do que a TV Globo.

Ao falar sobre o encontro, Oscar falou da grandeza do momento e da personalidade de Francisco I: depois de afirmar que Jorge Mario Bergoglio foi "o primeiro argentino humilde que viu na vida", ainda solta essa: "Eu acho que ele veio estragar com os argentinos: 'pô, o cara é humilde'". E ao dizer que Francisco I é melhor que João Paulo II, complementou: "nem parece argentino".



Desnecessário, de mau gosto, e ainda por cima uma contradição da própria história: há mais de dois anos, postamos aqui no blog uma matéria do UOL, relembrando um encontro entre Diego Maradona e Oscar Schmidt, quando ambos residiam e trabalhavam na Itália.

As palavras de Maradona mostram que o grande jogador de basquete, no mínimo, não está totalmente certo.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Duetos (50)

Tiago Splitter, talvez o melhor jogador brasileiro de basquete na atualidade, afirma que seu melhor amigo é o argentino Emanuel Ginobili, e fala que o "hermano" o ajudou muito em sua adaptação à NBA - Tiago jogou longo tempo na Europa.

Spliter é também amigo de outros argentinos da NBA.

Spliter e Ginobili, 2012.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Muito Além do Futebol... (55)

E sucedeu que a Seleção Brasileira de basquete superou a Argentina por 73 a 71 no jogo de ontem. Vitória merecida. o basquete é dos poucos esportes, a exemplo do tênis, em que em 99.99% dos casos o melhor (no dia) vence. O futebol, nesse aspecto, é cruel.

Mas acontece que o Brasil não vencia a Argentina em competições importantes desde 1995. Isso foi a razão para que os brasileiros 'extravasassem' no Twitter.

A boa matéria do UOL fez uma análise da situação, e destacou as respostas de argentinos.

Destacamos um trecho:

CHUPA ARGENTINA (assim mesmo, em caixa alta) foi o termo usado pelos brasileiros para expressar no microblog a satisfação em bater os rivais novamente no basquete após 16 anos de derrotas em competições importantes. Além de “se vingar” da derrota no Mundial da Turquia, exatamente um ano atrás.

Os tuiteiros argentinos, obviamente, não gostaram muito da manifestação e responderam das mais diversas maneiras: respondendo com palavrões, rebatendo a soberba brasileira por uma única vitória e citando algumas diferenças gramaticais entre os dois idiomas.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Isso é Jornalismo! (39)

Ainda que possamos sentir um certo ranço em alguns termos e expressões utilizados no texto,- como ao falar em "trégua" (do quê?) ou ao 'explicar' a cordialidade - fica aqui nosso elogio à matéria publicada em 06 de setembro de 2011, pela Folha de S. Paulo, quebrando alguns paradigmas sobre o "tratamento" de argentinos com brasileiros.

Torcida argentina dá trégua a brasileiros no Pré-Olímpico de basquete


Não é por pressão da torcida argentina que a seleção brasileira não faz suas melhores apresentações no Pré-Olímpico, que dá duas vagas para a Olimpíada de Londres.

Os torcedores que compareceram às quatro primeiras apresentações do Brasil --que estrearia ontem na segunda fase, contra o Uruguai, após o fechamento desta edição-- no ginásio Islas Malvinas, em Mar del Plata, mais aplaudiram do que vaiaram seus maiores rivais no continente.

Pelo menos até a seleção não enfrentar a Argentina. As equipes duelam nesta quarta.

"Estamos sendo muito bem tratados pelos argentinos", admitiu o armador Marcelinho Huertas, capitão da seleção brasileira, recém--contratado pelo Barcelona.

Ele é um dos jogadores mais aplaudidos pelo público quando tem seu nome anunciado no sistema de som antes dos jogos, assim como o ala-pivô Guilherme Giovannoni e o pivô Tiago Splitter.

"Aplaudimos os grandes jogadores, independentemente do país", disse o estudante Marcelo Martínez, 20. "O que não significa que torcemos por eles", justificou.

A presença do técnico argentino Rubén Magnano no time brasileiro contribuiu para uma recepção mais amistosa do público local. Não há uma só vez em que ele não seja ovacionado pelo público quando é anunciado.

Antes do duelo contra a República Dominicana, na última sexta-feira, Magnano foi aplaudido de pé por cerca de 6.000 torcedores por dois minutos. No dia seguinte, admitiu ter ficado a "um milímetro de desabar em lágrimas".

"O Brasil ganhou pontos com os argentinos por causa de Rubén", explicou Juan Manuel Gimenez, 31, motorista.

Tamanha admiração se deve fato de Magnano ter comandado a seleção argentina que conquistou o vice-campeonato mundial, em 2002, nos EUA, e o inédito ouro olímpico em Atenas-2004.

A cordialidade também pode ser creditada ao preço dos ingressos. Os mais baratos custam cerca de R$ 75, preço considerado alto para o público local, principalmente os fanáticos pela modalidade.

Mar del Plata é a cidade do Peñarol e do Quilmes, conhecidos por ter os torcedores mais violentos do basquete argentino. Mas, nos jogos de suas equipes, a entrada não custa mais que R$ 30.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Duetos (36)

O blog "Esporte vê TV", do portal UOL, postou um video, relembrando que havia exatos 23 anos a RAI (famoso canal de TV italiano) publicou uma matéria onde Diego Armando Maradona, então ídolo do Napoli, fora assistir uma partida de Oscar Schmidt, que na época jogava pelo Caserta.

O video registra o argentino entusiasmadíssimo vendo o brasileiro jogar:


Palavras de Diego sobre o 'Mão Santa': "Além de ser seu amigo, eu sou também seu admirador, porque na minha opinião é o melhor do mundo. Eu o conheci em pessoa e me apaixonei pelo seu jeito de ser, por ser uma pessoa simples, e eu gosto desse tipo de pessoa".

Mais uma demonstração, dentre tantas outras, de que, sim, Maradona sabe apreciar e reverenciar brasileiros - quando, muitas vezes, os mesmos não fazem.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Duetos (11)


Rúben Magnano é o novo técnico da seleção brasileira de basquete. O treinador, argentino, foi campeão olímpico com a seleção de seu país em 2004, e busca repetir o sucesso com a amarelinha.

O site GloboEsporte.com fez uma entrevista com Magnano, que revelou gosto pela música brasileira e conversou com várias pessoas.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Muito Além do Futebol... (10)


É só você assistir um pouco de TV ou ler algum jornal que, se houver alguma referência a argentinos, esta será pejorativa. De alguma maneira será pejorativa. É algo tão claro e tão comum, que muitas vezes as pessoas nem percebem (paradoxo?).

Um exemplo excelente (ou péssimo?) aconteceu na última segunda-feira, 14, quando o tenista argentino Juan Martín Del Potro sagrou-se campeão do Aberto dos Estados Unidos, um dos 4 campeonatos mais importantes do tênis mundial.

Na verdade, antes mesmo da partida, começou o festival de sempre, que é um misto de piadas e desprezo.

No programa Redação SporTv, canal cabo da Rede Globo, comentava-se sobre a final. A história começou quando o apresentador do programa falou que os argentinos "querem ver se pelo menos alguma coisa eles levam, porque no futebol...".

Alguém acrescentou: "é, no futebol tá essa draga (sic), no basquete estão perdendo sempre, o vôlei, nem existe mais, então só sobra o tênis". Pelo menos o apresentador aliviou, e falou: "no basquete tem perdido porque só leva o time D nessas competições, se levar o A, tem grandes chances, vai pra disputar título".

(Talvez o apresentador tenha se lembrado de que o basquete argentino foi campeão olímpico em 2004 e medalha de bronze em 2008, sendo que o basquete brasileiro sequer conseguiu disputar as últimas três (!) olimpíadas. E vale lembrar que Emanuel Ginóbili, que ganhou o prêmio de melhor jogador em 2004, foi campeão na NBA em 2003, 05 e 07, coisa que brasileiro nenhum jamais fez).

Então, começaram os leitores a enviar mensagens. Um deles escreveu: "Argentina só ganha libertadores e olhe lá". Outro: "Argentina é país do pólo e do rugby, e só". Um dos participantes comentou: "a infelicidade do del potro é que, por melhor que esteja, vai pegar na final o federer, deu azar". Nisso, outro ri: "no tênis, pega o Federer, no futebol, pegam o Brasil".

Percebe-se duas coisas: 1) descartou-se qualquer possibilidade de uma vitória de Del Potro; 2) menosprezou-se a importância do tênis no cenário mundial, não apenas pela comparação com o futebol.

Mas a "cereja do bolo", que é o motivo pelo qual demos o título a esse post, vem com o jornalista André Lofredo, um dos que mais realiza provocações em eventuais debates onde a Argentina é assunto: "pelo menos eles estão bem na política e economia (pausa). Ah, não tão não..." e riu.

Aí encerraram-se os comentários e mudou-se de assunto.

Pois bem, veio a partida e Del Potro venceu. De maneira épica. Reconhecida por todos e pelo próprio Federer, por muitos considerado o melhor tenista de todos os tempos.
Logo a seguir, já era possível ver comentários desprezando a conquista. Muitos leitores, através do twitter, seguiram na mesma linha "dane-se-o-resto-o-que-importa-é-que-no-futebol-somos-melhores-que-eles", como se o mundo que assistiu o jogo estivesse muito preocupado com a seleção brasileira de futebol.

Foi também essa a tônica de sites e blogs no Brasil (excetuando-se, claro, os especializados em tênis, que não se deixa(ra)m levar por tolas patriotadas, sabendo reconhecer a qualidade do tênis de Del Potro, individualmente, e da Argentina, como um todo): Juca Kfouri, por exemplo, reduziu a conquista de Juan Martin a um simples "Maradona irá convocá-lo para a seleção".

No dia seguinte, no mesmo Redação SporTv, algum leitor escreve ao programa dizendo que "apesar de Del Potro ser argentino, há de se admitir que jogou bem". O mesmo apresentador mencionado anteriormente diz que "sabe que os argentinos são bons e em vários esportes" mas que gosta de "apimentar a rivalidade".

(novo parênteses: em duas matérias de épocas distintas, uma de 2004 e outra de 2007 - clique nos anos para ler -, do portal UOL, comentou-se da verdadeira discrepância que existe tanto em termos de talento quanto de resultado entre os tênis argentino e brasileiro. E vale lembrar que, no Brasil, o segundo melhor tenista da última geração vitoriosa é o... argentino Fernando Meligeni).

Na Rede Globo, a tônica, em todas as matérias, foi a de "se no futebol eles estão mau, o tênis serve como consolo" e "na falta de Messi e Maradona, a Argentina busca novos ídolos". Esse tipo de menção levou hoje o jornal "Olé" a mandar um recado à imprensa brasileira.

Na matéria intitulada "O mundo fala dele" (El mundo habla de él), o diário argentino citou vários lugares do planeta onde houve repercussão da vitória de Del Potro: "começando por Tandil -terra do campeão-, passando por Estados Unidos -onde conquistou o título-, Suíça -onde perderam-, Espanha -terra de Nadal- e Brasil. Neste último, não se esquecem do futebol, mas agora é o momento da raquete. É a era de Delpo".

Lendo até o final, o jornal reproduz uma citação de "O Globo": "Quando a equipe de futebol está decepcionando, há que se procurar outras estrelas do esporte", diz a publicação carioca. O Olé conclui dizendo: "Não perdoam uma. Mas a inveja é evidente. Delpo é argentino". Perfeito. E não sabemos se é somente inveja que explica esse tipo de desprezo.

Sinceramente, vendo o que diz a Globo, eu prefiro ficar com Gustavo Kuerten: "Ter um sul-americano campeão é algo interessante. Eu conheço o Del Potro desde pequeno e sei que ele é um tenista muito dedicado. Fiquei muito feliz com o resultado, apesar da admiração que eu tenho pelo Federer. Para o tênis esse resultado é muito bom, o confronto em quadra com resultados surpreendentes é sempre muito estimulante."

Eis um brasileiro que sabe respeitar e reconhecer o talento dos argentinos. Talvez porque conheça o assunto.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Muito Além do Futebol... (9)

Algo de estranho acontece no Brasil. A relação compensatória do esporte (i.e. futebol) no cotidiano popular é incrível. Vamos fazer três pincelagens de momentos históricos nessa relação.

Momento 1: 1958 - O esporte como "reprodução" da realidade

Aqui é quando o Brasil passou a se tornar uma "Potência do esporte mundial", e tinha-se a ideia de que as coisas estavam dando certo. Juscelino e seus "50 anos em 5", a indústria automobilística e a construção de Brasília davam a impressão de que realmente o Brasil era o maior do mundo. Mas não apenas na economia tinha-se essa impressão: no esporte também.

O Brasil conquistava em 1958 seu primeiro título na Copa do Mundo de futebol. No ano seguinte, vencia o mundial de Basquete e, nesse meio tempo, Maria Esther Bueno vencia torneios em Wimbledon e outros Grand Slams enquanto o Santos se tornava "bicampeão mundial interclubes". Para coroar essa saga, em 1962 a seleção nacional de futebol trazia o bicampeonato do Chile.

Começava-se a olhar para o esporte como um retrato da população. Se "nós" vencíamos, quem gahava era também a população, afinal de contas você é brasileiro, igualzinho Pelé, Maria Esther e Wlamir Marques. Como disse Nelson Rodrigues em crônica da época, "o brasileiro tem de si mesmo uma nova imagem. Ele já se vê na totalidade de suas imensas virtudes pessoais e humanas".

A eliminação logo na primeira fase em 1966 não tem grandes efeitos, pois podia-se dizer que "os times europeus foram violentos". E o auge aconteceu na copa de 1970: a ditadura militar usando o time como símbolo, e canções no estilo "Pra frente, Brasil" além do slogan "Ninguém segura este país" embalaram o sonho. Nesse mesmo ano, Emerson Fittipaldi conquistava a primeira vitória brasileira na Fórmula 1.



Até o início dos anos 80, o futebol deixou de encantar o povo brasileiro, com decepções nas copas de 1974 e 1978, e Fittipaldi, embora tenha sido campeão em 72 e 74, embarcaria no sonho de uma equipe brazuca de Fórmula 1 e jamais conseguiu um grande resultado na categoria. Aliado a tudo isso, a verdade sobre mortes e escândalos passava a surgir e o "milagre econômico" da ditadura dava mostras de sua ineficiência. Em 1979, pelo menos, a Anistia acontecia...

Era preciso renovação. Política e esportiva.

Momento 2: 1982 - O esporte como a grande (única?) esperança

No início dos anos 80, começava a se desenhar o fim da ditadura militar e, ainda que timidamente, havia novamente esperança no povo brasileiro. A década esportiva começa a ressurgir a partir do primeiro título de Nelson Piquet, 7 anos após a última conquista de Fittipaldi. No ano seguinte, a seleção brasileira vai à Espanha e exibe aquele que, para muitos, foi o futebol mais bonito da história do país.

No entanto, o espetáculo brazuca caiu diante da eficiência italiana, na famosa derrota por 3 a 2. O episódio seria para sempre conhecido como a "Tragédia de Sarriá" (nome do estádio espanhol). Mas a esperança haveria de se renovar...

Em 1983, Nelson Piquet torna-se bicampeão, e no ano seguinte surge Ayrton Senna, dirigindo um carro mediano e conseguindo resultados absolutamente surpreendentes na sua temporada de estreia. Foi no mesmo 1984 que surgiu o movimento "Diretas, Já!", que marcou definitivamente a fase dos sonhos.

No ano seguinte, a morte de Tancredo Neves antes de sua posse cobre com um manto de tristeza a população brasileira. Mas é justamente nesse contexto que Ayrton Senna começa a despontar no cenário mundial e na cultura do país: no MESMO dia em que se anunciava o falecimento de Tancredo, Senna vencia seu primeiro Grande Prêmio na F-1.

Em 1986, a seleção brasileira mantinha-se com a mesma qualidade da copa anterior (o técnico era o mesmo, Telê Santana, fato raro por aqui) e Senna e Piquet apareciam como grandes candidatos ao título da F-1. Além disso, o início do plano cruzado com José Sarney, dava a impressão de que, como diziam os balões na pista de Jacarepaguá, tudo iria "dar certo".



Os escândalos de corrupção e inflação no governo Sarney começam a aparecer e novamente a seleção de futebol é eliminada, mas cada vez mais a Fórmula 1 traz alegrias: Senna vence o GP de Detroit no dia SEGUINTE à derrota brasileira para a França em 86, Piquet é campeão do mundo em 1987, e Senna leva o título em 1988, 90 e 91 - ano em que obteve sua primeira vitória no GP do Brasil - com Piquet obtendo importantes vitórias no início da década.

De certa forma, as alegrias na F-1 substituíram as vitórias nos gramados quando, em 1990, mais uma vez o Brasil foi eliminado (dessa vez por Maradona, plantando a semente do que aconteceria pouco tempo depois). 1992 inicia-se com os graves problemas do governo Collor em meio ao ouro olímpico da seleção de vôlei, um prenúncio do que aconteceria nos anos 2000.

A morte de Senna em 1994 põe fim aos sonhos. Coincidentemente, acontece o tetra no futebol. Preparando-se para a vinda de FHC, pode-se dizer que aquela foi a última vez em que o país esteve envolvido e totalmente unido no âmbito esportivo.

Momento 3: 1998 - O esporte como recompensa. Ou vingança.

A morte de Senna não afetou apenas a carreira do piloto, mas deixou o Brasil órfão nas "manhãs de domingo". Até a primeira vitória de Barrichello, em 2000, foram quase sete anos sem que pilotos brasileiros conquistassem qualquer GP. A derrota vexatória na Copa do Mundo de 1998, levando 3x0 da anfitriã França, dá também início ao jeito "não são os outros que ganham, nós é que perdemos" de se pensar.

Teorias mirabolantes sobre uma possível venda da copa, em detrimento ao talento de craques como Zinedine Zidane, norteiam o pensamento da maioria da população, enquanto uma outra parcela, ainda tímida, passa a desgostar do modo como o esporte é conduzido no Brasil. É aqui que se acentuam os que torcem por outras seleções ou então por pilotos estrangeiros na F-1. Um exemplo: muitos torciam pela seleção brasileira ao mesmo tempo que por Schumacher, ou por Itália/Argentina/França e Barrichello.

Justamente nesse contexto, surge o primeiro grande tenista brasileiro desde Maria Esther Bueno: Gustavo Kuerten. Praticante de um esporte que nunca foi popular no Brasil, nato de um estado que não é um dos principais do país economicamente, e em meio à "Orfandade" da F-1, Guga traz algum resquício de "Vamos lá!".


Mas justamente pelo fato de requerer muitos investimentos financeiros, o tênis não conseguiu atingir o mesmo sucesso do automobilismo. Apesar disso, a ideia de "somos os melhores do mundo no futebol e no tênis" acontecia. Depois veio um surto de vitórias na ginástica e consequentemente "somos os melhores do mundo no futebol e na ginástica".

Em 2002, há uma esperança política no povo brasileiro que os faz eleger Lula, e no mesmo ano a seleção conquista o penta no futebol. Muitos comemoram, mas não houve nem metade da festa acontecida 8 anos antes, no tetra de 1994. Muitos dizem que é pelo fato de, naquela época, o Brasil não levantar a taça havia 24 anos. Pode ser, mas o entusiasmo já não é(ra) mais o mesmo.

Bernardinho, ex-técnico da seleção feminina, começa a ditar os passos do voleibol mundial masculino a partir de 2001, e aqui se pode dizer que, sim, o Brasil realmente foi e é o melhor no respectivo esporte. Mas, novamente, "somos os melhores do mundo no futebol e no vôlei".

Barrichello nunca conquistou o devido respeito pela população. O tênis e a ginástica foram sendo gradualmente esquecidos, notadamente o primeiro, pois a ginástica ainda tem "incentivos" (somente) em momentos como Pan-Americano e Olimpíadas - mas a cobrança em eventual derrota é SEMPRE dez vezes maior que o apoio.

2006 marca a reeleição de Lula apesar do maior escândalo político-financeiro da história do país: o Mensalão. Nesse mesmo ano, acontece uma das mais amargas derrotas da história do selecionado de futebol (novamente para a França) e a desculpa dessa vez é que "os jogadores não quiseram jogar", porque "nós SOMOS os melhores, sempre".


E foi ao longo de todo esse contexto no momento três - desde meados dos anos 90 - que se acentuou de modo drástico a necessidade de ter um rival "de sempre", alguém que pudesse alegrar o Brasil apesar de suas derrotas: a Argentina. Tornou-se tão importante quanto torcer pela vitória brasileira o "torcer contra" a Argentina.

Na copa de 2006, por exemplo, a Argentina foi eliminada na sexta-feira, e o Brasil no sábado. E o que mais se ouvia era: "o que importa é que a Argentina caiu antes".